Pacificar o país ou radicalizar com Bolsonaro? O dilema de Lula e do PT daqui para frente

Entre abril e dezembro, a popularidade do PT subiu de 28% para 39% e o chamado “antipetismo” ficou reduzido a 21% dos eleitores, o núcleo duro da extrema-direta que ainda apoia Bolsonaro, escreve o colunista Ricardo Kotscho, ao comentar a entrevista de Rui Costa, governador da Bahia, que prega um PT mais moderado

Lula, o filho do Brasil, mais uma vez
Lula, o filho do Brasil, mais uma vez (Foto: Ricardo Stuckert)

“Lula deve pregar pacificação do país, afirma Rui Costa _ Governador da Bahia critica radicalização e pede reajuste no discurso econômico do PT”.

Essa é a manchete da Folha deste sábado, que certamente provocará um acirrado debate no PT sobre os rumos do partido daqui para a frente, após um ano de governo Bolsonaro e com Lula em liberdade.

Em entrevista ao repórter Igor Gielow, um dos governadores mais bem avaliados do país e principal nome petista com cargo eletivo, que veio a São Paulo esta semana para o leilão da concessão da ponte que ligará Salvador a Itaparica, defende que o PT precisa deixar a polarização e buscar a pacificação do país, um caminho também defendido por outros líderes do partido, mas que não foi apontado nos primeiros discursos e entrevistas de Lula depois de sair da prisão.

No encontro nacional do PT, na semana passada, em São Paulo, Lula pregou o enfrentamento com o governo Bolsonaro, principalmente sua política econômica, que só faz piorar a vida dos mais pobres e concentrar ainda mais a renda, como mostrou a última pesquisa de IDH (índice de Desenvolvimento Humano) divulgado pela ONU.

Rui Costa justifica as primeiras declarações de Lula solto e lembra como ele se comportou no governo:

“Acho natural que quem ficou preso um ano injustamente faça declarações duras. Mas o ex-presidente Lula governou o país por oito anos como um conciliador. Essa concertação levou ao desenvolvimento. Acho que ele, independentemente de qualquer questão eleitoral, vai voltar ao leito de ser um conciliador nacional”.

Como não sou de ficar em cima do muro, dou toda razão ao governador na sua avaliação sobre o atual momento vivido pelo ex-presidente e pelo partido.

Outro ponto da sua entrevista que renderá polêmicas é quando ele defende a privatização dos serviços de saneamento, contra o ideário e a posição do partido, que votou contra o projeto do marco regulatório aprovado esta semana na Câmara.

“Quem é governador se pergunta: onde vamos buscar recursos para tirar o pobre de viver sem esgoto, em lugares alagados ou ficar sem água? O governo e os estados não tem como ofertar”.

Sem recursos do governo federal, que trata o nordeste a pão e água, Rui Costa e outros governadores da região foram à luta para buscar recursos na Europa e na China, como é o caso do acordo firmado com um grupo chinês para a construção da ponte que liga Salvador a Itaparica, obra orçada em R$ 5,3 bilhões.

Aonde o governo da Bahia encontraria esses recursos no Brasil?

“Esse é o maior projeto de infraestrutura realizado no Brasil nos últimos anos e que vai ajudar a redesenhar o perfil econômico de regiões importantes da Bahia. A obra vai mudar o patamar de desenvolvimento do estado, elevando o índice de renda e de emprego”.

Sobre as especulações em torno do seu nome para ser candidato do PT a presidente em 2022, Rui Costa diz que Lula ainda é o nome:

“Sou filiado a um partido e estou à disposição para qualquer papel que me for designado. Posso ser candidato a qualquer coisa em 2022, como posso ser candidato a nada. Eleição não é uma obsessão. Vamos discutir, mas acho que o cenário ainda está longe. Estou desapegado. O nome mais forte do PT é Lula”.

No mesmo dia da entrevista, o instituto Vox Populi divulgou nova pesquisa sobre o governo Bolsonaro, feita a pedido do PT, entre os dias 2 e 10 deste mês, na qual a popularidade de Lula subiu de 48% para 55%, e 60% desaprovaram o atual presidente. Apenas 2 em cada 10 brasileiros avaliam como positivo o primeiro ano de governo.

Entre abril e dezembro, a popularidade do PT subiu de 28% para 39% e o chamado “antipetismo” ficou reduzido a 21% dos eleitores, o núcleo duro da extrema-direta que ainda apoia Bolsonaro.

“Temos de ser diferentes deles. Temos de pregar a pacificação do país. Antes, as pessoas tinham vergonha de manifestar preconceito. Agora parece que têm orgulho. Certamente essas pessoas existiam, mas ficavam no armário. Precisamos que elas voltem para seus armários”, diz Rui Costa sobre os novos desafios do PT, que não devem se limitar a combater o governo, mas precisam apresentar alternativas concretas para tirar o país do buraco e devolver a esperança ao povo.

Ficar batendo boca com bolsonaristas é pura perda de tempo.

E vida que segue.

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