Papa cristão e povo socialista enfrentam injustiças na América

Cuba nos ensina que não há democracia que vença se não a da participação efetiva, diária, mensal e anualmente na história do povo

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Em continente americano vivemos o resultado novo de uma luta de mais de meio século. Refiro-me à retomada das relações diplomática e política entre Cuba e os Estados Unidos.

Os jovens de Sierra Maestra – feita de montanhas e de matas – que serviu de base de treinamento guerrilheiro e de apoio logístico ao grupo que tomou o poder, sob o comando do grande Fidel Castro – lutaram por todos os meios pacíficos na tentativa de negociar justiça social e participação política do povo cubano com o governo de Fulgência Batista, preposto dos Estados Unidos naquela Ilha.

O grupo usou inicialmente os meios formais de conversação com as autoridades, incluindo greves setoriais e gerais, sem nenhuma consideração e respeito por parte do ditador.

O único caminho que restou foi o da luta armada, empreendida pelo grupo de jovens patriotas e apaixonados pelo povo, barbaramente explorado pelos Estados Unidos, que faziam de Cuba um grande motel de turismo sexual, mantendo seu povo sob condições abjetas de miséria e escravidão.

No início da revolução, ao descerem das montanhas para Havana e para todo o País, os jovens foram recebidos de braços abertos pelo povo pleno de esperanças nas mudanças.

A revolução cubana sempre foi marcada por avanços e perseguições, contando inarredavelmente com a solidariedade e a participação de seu povo.

Entre as perseguições foram marcantes as tentativas de destruição por parte dos Estados Unidos. Na primeira grande investida militar, brutalmente armado o império amargou fragorosa derrota na chamada Baía dos Porcos, onde e quando milhares de seus militares perderam as vidas. O povo cubano levantou-se em armas, como um só exército, para defender a revolução e seu governo. Com menos armas, mas com muito mais patriotismo, derrotou quem o queria destruído.

Na sequência, o governo americano envidou todos os esforços para matar o grande líder da Revolução Cubana, o comandante Fidel Castro. Meliantes da CIA tentaram 10 métodos para matar o comandante, falhando quase 700 vezes, dando em nada sua ânsia de eliminar o líder latino americano mais odiado pelo poderoso império. Fidel durante muito tempo não dormia no mesmo local, tal era a preocupação com a segurança.

Durante os tremendos ruídos da guerra fria Cuba sofreu tentativa de eliminação até com bombas nucleares, instaladas na sua costa marítima.

Não houve um só instante de paz sem que espiões americanos infiltrados fossem surpreendidos em esforços de sabotagem da revolução, inclusive com bombas instaladas em barragens, pontes e usinas elétricas.

A pior barreira imposta pelo império vizinho de Cuba foi o desrespeitoso bloqueio econômico, lamentado pela quase totalidade dos Países. A intenção era a de estrangular a governança e levar o povo ao desespero e servir de apoio para derrubar o regime socialista.

Porém, o povo cubado nunca se desesperançou de seus líderes nem abdicou da resistência na defesa unida e participativa da revolução socialista.

A alma indisputável do povo cubado se alimentou organizada pela dinâmica e constante educação política, exemplo para os povos. Tal disposição é destacada pelo Presidente Raul Castro quando disse, ao discursar no dia 17 de dezembro saudando o reatamento das relações diplomáticas com os Estados Unidos: "O heroico povo cubano tem demonstrado, diante de grandes perigos, agressões, adversidades e sacrifícios, que é e será fiel aos nossos ideais de independência e justiça social. Estreitamente unidos nesses 56 anos de Revolução, mantivemos profunda lealdade aos que caíram defendendo esses princípios desde o início de nossas guerras de independência em 1868." (Os grifos são meus).

Adiante, no seu discursou, o Presidente Raul explica como a revolução lapidou ponto a ponto o monumento vivo da justiça social: "A enorme alegria de seus familiares e de todo nosso povo, que se mobilizou infatigavelmente com esse objetivo, se expande pelas centenas de comitês e grupos de solidariedade; os governos, parlamentos, organizações, instituições e personalidades que durante estes 16 anos reclamaram e envidaram denodados esforços por sua libertação. A todos eles expressamos a mais profunda gratidão e compromisso."

O que o Presidente discursa é verdade. A reaproximação com os Estados Unidos, passo importante para a derrubada do bloqueio, que lançará Cuba ao pico do desenvolvimento de seu País e ajudará nosso Continente, não é doação dos poderosos, mas conquista de cada cidadão e da rica organização de seu povo.

A resistência do povo cubano e de todos os povos só acontece com o alimento da fidelidade dos princípios de independência e de justiça social. Esse alimento é servido pelas mãos da mobilização durante 24 horas por dia nas famílias, nos comitês e grupos de solidariedade, em cada quadra de cada cidade do País e nas instâncias de poder como os parlamentos e todas as instituições e personalidades, sem tréguas e sem folga.

Cuba nos ensina que não há democracia que vença se não a da participação efetiva, diária, mensal e anualmente na história do povo.

Cuba ensina que democracia real não se cinge a eleições, propagandas e demagogias abstratas, sem o povo.

A única democracia válida é a que tem o povo como sujeito e construtor.

Raul Castro, em seu curto e histórico discurso saudando os povos dos Estados Unidos e de Cuba pela reaproximação diplomática, agradece ao Papa Francisco pelos esforços e colaboração neste avanço histórico de repercussão mundial.

Leonardo Padura, escritor cubano, sofrido pelas lágrimas emocionadas de sua mulher ao saber do grandioso ato diplomático de reaproximação daqueles povos, deu testemunho de fé com respeito ao apoio do Papa ao processo político que ajudará toda a América Continental: "Embora não seja crente -- nem católico nem santeiro --, penso que é preciso agradecer não só ao papa Francisco, como fizeram Raúl Castro e Obama: seria preciso ir mais acima e agradecer a Deus, porque em circunstâncias assim não me resta outra opção senão acreditar em sua existência", como noticiou a Folha de São Paulo de 18/12.

Outro dia falei a um auditório lotado de católicos e evangélicos que vivemos tempos de banalização e traição do cristianismo original. Afirmei que muitos ditos seguidores de Jesus montaram igrejas de espetáculos e empresas eclesiásticas que são poderosas máquinas de arrancar dinheiro do povo desesperado. Cristãos apáticos e heréticos saem confortados de seus cultos e missas, transitam entre escombros de injustiças completamente alheios e pecaminosamente esquecidos do que Jesus ensinou sobre o amor ao próximo e de sua ação preferencial pelos injustiçados. Essas igrejas fazem de tudo menos apontar para o que foi Jesus na Palestina e o que fizeram as primeiras comunidades cristãs na compartilha do pão e da dignidade entre os pobres e explorados, uma verdadeira experiência socialista. Tertuliano disse sobre aquela prática: "vede como se amam". Eles agiram para não deixar ninguém passar necessidades, como escreve o autor Lucas em Atos dos Apóstolos.

O Papa Francisco, felizmente, é cristão. Seu gesto e iniciativa na reaproximação dos povos cubano e estadunidense e na libertação de presos encarcerados em Miami por pura perseguição e injustiça, é o mais eloquente testemunho do que a fé deve ser.

Falta muito, mas os avanços são eloquentes!

Leonardo Padura tem razão. Eu também creio em gestos cristãos como os do Papa Francisco.

Viva a fé que se faz amor revolucionário ao próximo, cujos frutos são educação que elimina o analfabetismo e a marginalização; em saúde que extirpa gratuitamente as doenças; em atendimento à infância, não permitindo que nenhuma criança passe fome e morra nas ruas; em segurança de Estado que protege os cidadãos e em participação política que educa para a cidadania.

Viva Cuba!

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