Para onde vai o sistema político?

Há uma mega delação que está fazendo falta ao País: a conjunta de PT, PMDB e PSDB, do nível municipal ao federal, do legislativo ao executivo, sobre a Rede Globo. Desde a redemocratização até este 19/05 de 2017

Jornal Nacional, JN, rede globo
Jornal Nacional, JN, rede globo (Foto: Leopoldo Vieira)

Há uma mega delação que está fazendo falta ao País: a conjunta de PT, PMDB e PSDB, do nível municipal ao federal, do legislativo ao executivo, sobre a Rede Globo. Desde a redemocratização até este 19/05 de 2017.

É evidente que o conglomerado opera abertamente para que o Brasil seja governado por uma junta financeira, sob uma presidência de fora da política eletiva fraca, mas que signifique a Lava Jato no Palácio do Planalto.

Em outras palavras: a operação intocável para seguir mantendo o sistema político submetido às demandas do mercado sem qualquer mediação democrática e sem haver, consequentemente, qualquer solução política para a crise ampla, geral e irrestrita que se abate sobre a nação.

Não digo que este seja o objetivo da operação, mas de quem joga com ela e com os efeitos dela sobre o sistema político.

Da divisão do sistema político, adveio o Impeachment de Dilma Rousseff.

Desta mesma divisão, a inviabilização do governo Michel Temer. E, agora, este mesmo vetor impede um desfecho institucional que não seja a manietação permanente e infinita da sociedade, do parlamento e do governo.

Enquanto a sociedade e os políticos se engalfinham entre foras e ficas, diretas e indiretas, vai sendo semeado um alien: o Brasil gerido pela antipolítica que, por sua vez, será apenas a hospedeira de grandes forças corporativas imunes à cidadania.

Medo do Lula para cá, torcida pela prisão dele para lá, comemorações de inferno de Temer para cá, odes por, enfim, tucanos chamuscados para lá, não terão nenhum desfecho favorável a qualquer destes setores se a música seguir sob a regência de editoriais como o da Globo de hoje. Todos serão alvejados e, provavelmente, simultaneamente num grande espetáculo que marcará o fim não da Nova República por algo melhor, mas para uma selvageria distópica.

E as bases de cada setor destes supracitados sequer saberão contar o que realmente aconteceu neste quadrante da História, porque estão sob condução de ideólogos que apenas se dão conta do que está em curso quando já é tarde demais. Reféns de narrativas que não se sustentam em pé ao menor questionamento mais sóbrio.

Exemplos são fartos: Temer quer se segurar no mercado, com medidas impopulares a fórceps, porque não pode se autocriticar pelo Impeachment. Dilma sustenta o golpe porque não pode se autocriticar pelos erros de condução de governo. FHC quer pular da pinguela porque quer flertar com a antipolítica para um PSDB que não será nem sombra sua tenha chance em 2018 e se opõe às Diretas Já só porque teme que, com eleições em 2017, Lula, do PT, vença-as. E por aí vai...

La nave va e todos acabam manobrados para se flagelarem enquanto são flagelados, como num infantil PacMan. Estão na tela do Atari tentando escapar de uma bolinha amarela virtualmente carnívora e os verdadeiros players estão com seus controles comendo pipoca.

A preocupação democrática do sistema político, que lhe é inerente (leia-se popularidade), está virando a ideia da qual não conseguem se libertar para sair da situação atual. É refém de ideologias de controle social.

Como gnus e elefantes, que assistem morrer aquele que não consegue seguir com o grupo diante do ataque de leões, os políticos estão sendo caçados e parecem aceitar isso com tranquilidade "eleitoral". Mas não é de eleição que se trata.

A Lava Jato não apresentou até hoje uma solução ao impasse político, econômico e institucional que criou. Deveria formular uma e pô-la à prova democrática. À sociedade profunda, de cada cidadão e cidadã, é normal que reaja, em larga medida, por estímulos emocionais, sem refletir sobre que futuro quer.

A lógica da democracia brasileira - ou a liberal, representativa - é justamente delegar a representantes eleitos soluções às reivindicações concretas por bem-estar, segurança e prosperidade no dia-a-dia.

Assim, ou o sistema político, com seus erros, como parte desta crise toda trouxe à tona, e acertos, como a conquista da democracia, da estabilidade da moeda e da mobilidade social, aproveita este ponto de ebulição e se impõe definitivamente, honrando os votos que bem ou mal, mais ou menos "conscientes" que recebeu, ou sabe-se lá.

E é a mesma sociedade que parece clamar por "fora todos", mas que flerta com um salvador da pátria de fora de "toda esta sujeira" ou com alguém que lhe represente o retorno de bons tempos para a reprodução do ganha-pão, que padecerá.

O programa para a saída é evidente, é justamente o corolário de acertos do sistema político até aqui: construir mecanismos fiscais que permitam manter a inflação controlada com geração de empregos. O demais é para a frente. O processo também está nu: uma Constituinte originária (não a exclusiva para maquiagem eleitoral) que reorganize, seja no pacto, seja no enfrentamento democrático por lideranças legitimadas nas urnas, as instituições, os direitos e garantias, e o projeto constituinte brasileiro.

E quando falo em "lideranças legitimadas nas urnas" não discuto, embora seja passível de, o governo Michel Temer, mas a renovação de milhões de votos que deixem claro que a sociedade escolheu, no meio de toda esta confusão, seus líderes para reinaugurar a República.

E o aspecto programático e processual pode e deve ser consensualizado e coordenado, pelo menos, pelos maiores e mais fortes partidos atuais, deixando as nuances à direita, à esquerda, ao centro, para cima ou para baixo, a cargo das candidaturas que se apresentarem.

Não é possível um governo de salvação nacional emerso da derrubada traumática de forças políticas e sociais relevantes. Não é possível um governo de salvação nacional resultante de uma eleição sem participação da sociedade, porque esta, mesmo dividida, quer se ver no poder. Não é possível um governo de salvação nacional sob as verdadeiras regras do jogo institucional do País na atualidade.

Também não será na base de uma guerra campal travestida de eleição, da qual desponte um líder de pequena margem majoritária, que se dará conta de todas as questões afloradas na crise atual. O conflito entre a sociedade persistirá, porque "comunistas" não quererão "fascistas" lhes governando e nem vice-versa.

Da mesma forma, não é o diálogo em torno de respostas para a sociedade que haverá respiro, porque o foco do impasse hodierno não é só uma questão da relação daquela com seus representantes. É estrutural.

A democracia virou pós-verdade líquida e só o jogo de forças com regras claras pode lhe devolver substância. Só que para recomeçar o jogo, é necessário uma junta que defina as regras para se reorganizar as regras.

É esta a disputa na mesa. E os dois lados da contradição sistema político x Lava Jato ainda não tem a solução, apenas ímpeto. Só que um tem um estado-maior do ímpeto. O outro tem uma multidão em estado de choque e um instituto de sobrevivência como o dos prisioneiros do filme Jogos da Morte, do tipo "para não morrer de fome preso a uma corrente, use uma serra para cortar seu pé", o que implica morrer de hemorragia logo adiante ou sequer conseguir se levantar após a mutilação.

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