Paraisópolis: uma tragédia dentro da outra

"No caldeirão de ignorância e miséria de Paraisópolis, onde a ação da PM matou nove pessoas encurraladas na saída de um baile funk, 70% dos eleitores votaram em João Doria. Trata-se de uma tragédia dentro da outra", escreve o jornalista Leandro Fortes

Moradores de Paraisópolis protestam contra ação da PM
Moradores de Paraisópolis protestam contra ação da PM (Foto: Twitter/Sâmia Bomfim)

Por Leandro Fortes, para o Jornalistas pela Democracia

Logo depois de eleito, no final de 2018, João Doria avisou: a partir de 1° de janeiro de 2019, a Polícia Militar de São Paulo iria "atirar para matar". 

Não que não o fizesse, antes. "Rota 66", livro-reportagem de Caco Barcelos, de 1992, foi o primeiro relato sobre os métodos de extermínio da PM paulista contra os suspeitos de sempre: a gente preta e pobre das periferias. Por muito tempo, o jornalista foi ameaçado de morte por ter ousado denunciar essa máquina estadual de tortura e assassinato .

Doria, subproduto do fascismo perfumado dos Jardins da capital paulistana, apenas tornou explícita uma política de repressão racial e de classe, até então dissimulada por seu antecessor tucano, Geraldo Alckmin.

O fato de Doria ter sido massivamente votado pelos pobres que pretende enquadrar e exterminar à bala diz muito sobre a armadilha social que as eleições se tornaram, no Brasil, por conta do grau de manipulação do fluxo de informações, seja pela mídia tradicional, seja, principalmente, pela ação das igrejas neopentecostais.

No caldeirão de ignorância e miséria de Paraisópolis, onde a ação da PM matou nove pessoas encurraladas na saída de um baile funk, 70% dos eleitores votaram em João Doria.

Trata-se de uma tragédia dentro da outra.

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