Partido, numa hora dessas!

"É necessário, neste momento, fortalecer os partidos de esquerda. Fortalecer os projetos estratégicos para o Brasil, agrupar e formar os militantes, recuperar a imagem do partido de esquerda para o conjunto do movimento popular. Não deve haver um fetichismo do partido, ele é um instrumento para a realização de objetivos políticos gerais. Mas tampouco se deve rebaixa-lo a um instrumento para realizar fins pessoais imediatos, como ser candidato a algum cargo, sem compromisso fundamental, programático, profundo com o partido", escreve o colunista Emir Sader

03/10/2015 - São Paulo - SP - Manifestantes da CUT realizaram um protesto “em defesa da Petrobras e da democracia” na manhã deste sábado (3) na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/ Agência PT
03/10/2015 - São Paulo - SP - Manifestantes da CUT realizaram um protesto “em defesa da Petrobras e da democracia” na manhã deste sábado (3) na Avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/ Agência PT (Foto: Emir Sader)

Quando se aproximam eleições, o papel dos partidos políticos de esquerda volta a despertar atenção. Para que servem? Têm utilidade? Foram substituídos pelos movimentos sociais? Servem para que se entre em algum deles se se quer ser candidato a algo?

A direita tem muitos partidos, se vale deles ou de outras insâancias para expressar e fazer valer seus interesses. Podem ser o PSDB ou o DEM, as FFAA, a mídia, entidades empresariais. Usa os partidos ou outros instrumentos, conforme o momento que vive e os objetivos que querem alcançar.

Os partidos de esquerda surgiram e se fortaleceram ao representar alternativas políticas de direção e transformação das sociedades, representando a programas e a forcas sociais diferenciadas. Se aliaram conforme elementos programáticos ou táticos comuns ou competiram, conforme concebam que têm concepções contraditórias de projetos para o pais.

Os militantes de esquerda podem pertencer a um partido ou militar apenas em organizações sociais. Estando apenas nestas, lutam por reivindicações especificas – reforma agrária, moradia, temas educacionais ou de saúde publica, questões salariais e de emprego, entre outras. Mas não pertencem a um projeto mais geral de transformação da sociedade, que englobe a esses temas, mas a uma transformação geral da sociedade, da estrutura mesma da sociedade. Muitos dos militantes de esquerda participam de movimentos sociais e de partidos de esquerda, combinando a luta por reivindicações específicas com a luta por projetos mais gerais para toda a sociedade.

Os intelectuais também podem estar em partidos ou não. Os intelectuais marxistas, sendo coerentes, têm sempre que estar militando em partidos políticos. Não faz sentido para o marxismo intelectuais independentes, livre atiradores, que não vinculam sua pratica com a de um partido politico de esquerda, para quem assume uma teoria para a qual esta, só quando penetra nas massas, se transforma em força material.

Uma onda ideológica atual passou a desqualificar os partidos. Seja por burocráticos, seja por ter direções desvinculadas das bases, em contraposição aos movimentos sociais, que aparecem, nesse esquema, como empapados de povo, de massa. Um raciocínio muito simplista e que não leva senão ao espontaneismo e ao próprio corporativismo, um risco sempre presente em movimentos sociais vinculados a reivindicações específicas.

É muito positiva e exemplar a atitude do Lula de reivindicar o PT da forma como ele o faz. Ele poderia se autonomizar em relação ao partido, tal o prestigio que ele tem. Mas sabe que a historia do PT e a sua historia estão intrinsecamente vinculadas, quem não teria existido sem o outro.

Atitude radicalmente distinta de quem se propõe a se candidatar, talvez, por algum partido de esquerda, mas espera até o ultimo momento do prazo da convenção, para se definir. Se está de acordo com o programa e a estratégia desse partido, deveria entrar e ajudar a construir esse projeto, independentemente de se será candidato ou não a qualquer que seja o cargo. Ser candidato é uma consequência e não um condicionante prévio. Senão o partido pode ser instrumentalizado em função de alguma candidatura, pode funcionar como barriga de aluguel. Pode ser uma atitude oportunista, feia, que ao invés de valorizar os partidos, os desqualifica, dizendo que eles só servem no momento das eleições, se se quer ser candidato a algum cargo.

Ao contrario, é necessário, neste momento, fortalecer os partidos de esquerda. Fortalecer os projetos estratégicos para o Brasil, agrupar e formar os militantes, recuperar a imagem do partido de esquerda para o conjunto do movimento popular. Não deve haver um fetichismo do partido, ele é um instrumento para a realização de objetivos políticos gerais. Mas tampouco se deve rebaixa-lo a um instrumento para realizar fins pessoais imediatos, como ser candidato a algum cargo, sem compromisso fundamental, programático, profundo com o partido.

As relações do partido com os movimentos sociais sao fundamentais para ambos. Quem organiza o conjunto da massa da população são os movimentos sociais. O partido deve organizar os militantes, aqueles que estão comprometidos com os seus objetivos em todas as circunstancias, chova ou faça sol, no governo ou na oposição, na legalidade e na ilegalidade, na luta de massas e na luta politica institucional.

De qualquer maneira, ambos são essências para garantir, mais além de oportunismos imediatos, os objetivos programáticos da luta, enquanto aos movimento sociais cabe garantir o caráter de massas dessa luta e a congruência entre os objetivos políticos gerais e os interesses e os sentimentos do povo.

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