Partido político não é seita, irmandade ou igreja

Um partido pode até parecer uma seita, uma irmandade ou uma igreja. Mas não é. É uma instituição laica, impessoal, com um programa político e normas de funcionamento. Alguns, contudo, ainda se comportam como grupo de afinidades fechadas e falam para si próprios ou seus confrades

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Um partido pode até parecer uma seita, uma irmandade ou uma igreja. Mas não é. É uma instituição laica, impessoal, com um programa político e normas de funcionamento. Alguns, contudo, ainda se comportam como grupo de afinidades fechadas e falam para si próprios ou seus confrades.

Essa endogamia faz os que não são filiados, sentirem-se estranhos ou pouco à vontade nessa comunidade de irmãos. Problema recorrente em certas organizações da esquerda. Uma reunião ampliada para discutir uma agenda especifica para uma candidatura não deve ser um mero álibi, formal, ritual para legitimar esta candidatura.

Deve ser uma rica oportunidade de se construir uma agenda de questões coletivamente, ouvindo a comunidade (mães de família, professores, trabalhadores, ONGs, associações de bairro etc.) Se o candidato quer ser representativo não basta encenar uma performance num coletivo de companheiros e camaradas. Há, muitas vezes, uma tendência de se transformar uma reunião como essa numa espécie de homologação pública de algo já preparado, sugerindo-se a aparência de um processo participativo e colegiado. Mas os que não participam necessariamente da irmandade podem se sentir excluídos desse processo "democrático".

Discutir um programa para a educação, em tempos de aguda exclusão social, para não falar coisa pior, é levar em conta a dificuldade de compatibilizar universalidade e respeito as diferenças. O direito universal à educação pública e de qualidade não pode ser cego ou ignorar as diferenças (étnicas, de gênero, de orientação sexual, de classe social, etc.), sob pena de cometer injustiças culturais. É necessário adotar um olhar multicultural para as necessidades especificas das minorias, preservando os chamados "mínimos éticos". 

As gestões passadas do Partido dos Trabalhadores já nos legaram um formidável acervo de experiências pedagógicas exitosas, numa sociedade tão desigual como a nossa. Lembro aqui o projeto das escolas integradas de educação, trabalho e cultura, da gestão de Dela Soares. E a ideia magnifica de abrir as escolas públicas, nos fins de semana, para o usufruto das comunidades. 

Finalmente, não posso deixar de mencionar aqui uma proposta que foi apresentada nas reuniões das equipes de ensino, durante a gestão de Dela: a distinção entre a formação de cidadão ludens e o cidadão vox. Nossas escolas laicas e republicanas podem ser tudo, menos reles criadouros de uma mão-de-obra barata e informalizada para um mercado de trabalho selvagem e desregulamentado. 

O cidadão lumens é o que cria, inventa, muda a realidade. E o cidadão vox. é o que tem a competência de vocalizar direitos, reivindicar prerrogativas e garantias constitucionais. Uma educação pública, de qualidade, deve procurar unir em seus educandos e educandas essas duas qualidades.

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