Paulo Gustavo será o símbolo da crise

Por Jean Menezes de Aguiar

Por Jean Menezes de Aguiar

Cazuza representou o atraso involuntário da ciência com a Aids, em que a medicina não tinha muito como lutar, e todos acompanharam seu sofrimento definhante. Foi o marco inicial no país para mudanças sérias e humanistas no setor.

Paulo Gustavo representa a continuação de uma nova política, desumanizada e por isto mesmo parainconstitucional e criminosa, além de apoiada inacreditavelmente em crendices. Tem que ser o marco, não inicial, mas final, no país, para mudanças sérias e um retorno de um humanismo brasileiro que sempre otimizou as relações.

A malandra reinvenção da polarização política que vem separando famílias e amigos não é traço de sabedoria, mas de estupidez. Pessoas que em vez de suportar críticas precisam ofender em retorsão, não mostram, jamais, traços de educação e equilíbrio.

O imaginável sofrimento entubado de Paulo Gustavo, entre sobrevivência e morte, consciência e luta por uma nesga de possibilidade, com sua belíssima história pessoal é simplesmente revoltante, arrasador.

Paulo Gustavo representa os inúmeros e desconhecidos João, Fernando, Maria, Sérgio, Renata, Paulo, Igor etc. que sofreram identicamente e ninguém chegou a saber.

O número de 400 mil óbitos, em puro analfabetismo logístico estatal, retrata uma indecência, uma vergonha, uma canalhice do Poder Público. Retrata a necessidade de se rever verbas milionárias indecorosas e patifes para políticos e gestores; vinhos importados e lagostas para ministros; salários, subsídios e safadezas terminológicas administrativas para remunerar, mensalmente, uma coisa óbvia do ser humano que se chama ‘trabalho’. Até quando durará este provincianismo patrimonialista no Estado brasileiro?

O Brasil está dando provas de, sim, ser um lodo de terceiro-mundismo, ter uma sociedade piegas que chorará por não mais que 24 horas a morte de Paulo Gustavo e no dia seguinte estará frenetizada em BBBs, likes, seguidores e tantas outras futilidades de um momento vazio em que mortes não subvertem, não revoltam, não revolucionam, não indignam, nada.

Paulo Gustavo e todos os Joãos e Marias terão morrido em vão se as instâncias, os poderes, os gabinetes e as ‘autoridades’ não perderem, sim, filhos, netos, esposas, mães e só aí, parece, conseguirem saber o que a dor da Covid tem causado a centenas de milhares de famílias brasileiras.

Neste momento boçalmente paradoxal em que a estupidez de plantão de um ‘patriotismo’ – seja lá que traste conceitual isso possa ser-, é invocada, dir-se-á viva Samuel Johnson que já desde o final do século 18 cunhou que o ‘patriotismo é o último refúgio dos canalhas’.

Obrigado Paulo Gustavo, por me dar forças de escrever algo assim.

Triste Paulo Gustavo. Triste Brasil atrasado e ‘país de merda’.

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