Pilar

Elegante, chegou no horário marcado ao restaurante. Linda, altiva. Comentei que a escolha do local para o repasto dominical havia sido de um amigo em comum. Tomou-nos pelas mãos e nos fez atravessar por entre as mesas até uma pilastra onde reluzia uma plaquinha com os nomes e um remoto mês de junho

Pilar
Pilar

Elegante, chegou no horário marcado ao restaurante. Linda, altiva. Comentei que a escolha do local para o repasto dominical havia sido de um amigo em comum. Tomou-nos pelas mãos e nos fez atravessar por entre as mesas até uma pilastra onde reluzia uma plaquinha com os nomes e um remoto mês de junho.

Pois foi ali que pela primeira vez se encontraram.

Generosa, com afeto e com firmeza para que jamais esqueçamos do sentido profundamente humano da palavra companheirismo, resplandeceu quando tratamos da campanha LulaLivre e da necessária reconstrução democrática no Brasil. Deu-nos o Último Caderno de Lanzarote e, com ele, coragem e esperanças.

É um diário do homem que usava as “palavras como punhos”. Dele, como aperitivo, separei algumas frases, apenas de janeiro, critério aleatório, por ser o primeiro mês de um longínquo 1998.

“As desgraças são facilmente recidivas” (11/01)

“O tempo tem razões que os relógios desconhecem, para o tempo não existem o antes e o depois, para o tempo só existe o agora” (14/01)

“O ridículo não é uma doença mortal, mas cá em casa parece ter-se tornado incurável” (15/01)

“Estamos todos deitados num berço que se move suavemente e há uma voz que murmura ao ouvido do mundo: ‘Dorme, dorme tranquilo, que nós te governaremos. Sobretudo, não sonhes, não sonhes, não sonhes, não sonhes ...’ E nós, obedientes, dormimos e não sonhamos”. (18/01)

“O que está em preparação no planeta azul é um mundo para ricos (a riqueza como uma nova forma de arianismo) um mundo que não podendo, obviamente, dispensar a existência de pobres, só admitirá conservar os que forem estritamente necessários ao sistema” (22/01)

“... há que escolher entre o Mercado e o regresso aos modelos fracassados do Leste da Europa, entre a liberdade e o mais cru estatismo. Trata-se do velho truque de construir artificialmente um inimigo contra o qual resulte fácil lutar. Aceitar essa alternativa implica cair na preguiça mental que caracteriza a atual situação da esquerda: em lugar de recolher criticamente a experiência do passado e atrever-se a elaborar um projeto que desenvolva as velhas aspirações de justiça e igualdade que marcaram o pensamento progressista (o que Rousseau fez no seu tempo), prefere aceitar a omnipotência do Mercado e a limitar-se a corrigir os seus desvarios com tímidos matizes de conteúdo humanitário” (23/01)

Portugal, há 21 anos, mas, como se em antevisão, o autor falasse deste Brasil de Bolsonaro, da estranha gente que o elegeu, e de nós. De todos nós.

O gigante Saramago se fez presente durante aquelas quase três horas de agradável conversa. Pilar del Río, nos seus sessenta e poucos, sem aparentá-los, é daquelas pessoas que, como sua paixão, existirá para sempre, com sua irrestrita solidariedade e suas certezas comoventes. A gigante, enorme em sua miudeza física, ladina, arguta, escolheu o livro que precisávamos ler.

Bárbara, minha filhota de 17 anos, que me acompanhava, quando saímos, suspirou, queria dizer algo, seus olhinhos não me enganam. Diga. Quero ser como ela. Respondi, na lata, eu também.

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