Pixote vive

Hoje completam-se 30 anos que a polícia assassinou, em Diadema, o ator Fernando Ramos da Silva, que fez um sucesso enorme no filme Pixote. Fernando deixou uma filha de dois anos. Um dos três policiais que o mataram disseram antes de atirar: "dessa vez você não escapa, Pixote"

Hoje completam-se 30 anos que a polícia assassinou, em Diadema, o ator Fernando Ramos da Silva, que fez um sucesso enorme no filme Pixote. Fernando deixou uma filha de dois anos. Um dos três policiais que o mataram disseram antes de atirar: "dessa vez você não escapa, Pixote"
Hoje completam-se 30 anos que a polícia assassinou, em Diadema, o ator Fernando Ramos da Silva, que fez um sucesso enorme no filme Pixote. Fernando deixou uma filha de dois anos. Um dos três policiais que o mataram disseram antes de atirar: "dessa vez você não escapa, Pixote" (Foto: Lelê Teles)

hoje completa 30 anos que a polícia assassinou, em Diadema, o ator Fernando Ramos da Silva, que fez um sucesso estrondoso como Pixote.

perdemos um grande ator.

podiam ter mandado uma psicóloga à casa dele, uma assistente social, um preparador de elenco, um agente da indústria do cinema.

mas preferiram mandar a polícia.

fugindo assutado, como o faz todo pobre pardo ou preto ao ver os homens de farda, Fernando foi parar dentro de casa, abrigo inviolável segundo a constituição.

desesperado, se escondeu debaixo da cama sob a proteção de um colchão fino.

o policial meteu o pé na porta e disparou à queima roupa.

oito tiros.

Fernando deixou uma filha de dois anos.

um dos três policiais que o mataram disseram antes de atirar: "dessa vez você não escapa, Pixote".

mataram por ele ser quem era, não por suspeita de que se tratasse de um bandido.

não, não é o determinismo biológico que vitima os mal alimentados, é o determinismo ideológico.

o genocídio do povo negro é uma política de estado, como o foi o estupro quando a ordem era eugenizar.

é uma forma de se livrar dessa gente.

principalmente dos talentosos, dos "ousados", dos "insolentes" que não aceitam seu lugar na nossa disfarçada sociedade de castas; onde uns servem apenas para servir aos outros.

quando assisti Pixote eu tinha a idade do ator e morava numa periferia bem violenta.

foi a primeira vez que fui ao cinema.

e foi arrebatador.

assisti ao filme incontáveis vezes.

Fernando ainda é o rosto infantil mais expressivo da história do nosso cinema.

só o comparo a Enzo Staiola, o moleque que brilhou no neo-realista Ladrões de Bicicleta, o melhor de todos os filmes já feitos.

Pixote contracenou com Marília Pêra, Jardel Filho, Tony Tornado e Elke Maravilha com a dignidade de um gênio, mudou falas, improvisou no roteiro, imprimiu uma marca.

ele fez, ainda, uma participação no filme Eles não Usam Black-Tie (Leon Hirszman) e uma nova na Globo (O Amor é Nosso).

sim, hoje também completa anos da morte de Nietzsche e de Neil Armstrong.

mas esses dois morreram velhos e loucos.

e Fernando era só um jovem de 19 anos, com um brilhante futuro pela frente.

quando não conseguem nos matar de fome, metem-nos bala na nuca.

palavra da salvação. 

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