Plenária Nacional da CUT apoia Lula: é preciso mobilizar nas ruas

Encontro da maior organização sindical do País tem formato e métodos que limitam o necessário debate e a mobilização da classe trabalhadora diante da crise

www.brasil247.com - Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Roberto Parizotti/CUT)
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Por Antônio Carlos, DCO

Escrevemos essa coluna no momento em que participamos, como delegado da Corrente Sindical Nacional Causa Operária, da 16ª Plenária Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O próprio formato do encontro, destinado quase que exclusivamente para dirigentes sindicais de uma parte dos cerca de quatro mil sindicatos filiados à Central, evidencia o enorme fosso existente entre as direções sindicais e o mundo real dos trabalhadores. No momento em que mais de 90% dos trabalhadores que ainda têm trabalho voltaram às atividades “normais” após a pandemia, o evento foi realizado de forma virtual, e num quadro em que milhares de sindicatos permanecem total ou parcialmente fechados, evidenciando um notória falência das organizações que têm como razão de ser a defesa do valor da força de trabalho e a sua própria existência, para o que é preciso estar junto aos trabalhadores nos seu locais de trabalho e na sua luta cotidiana contra os patrões e os governos.

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O encontro ocorreu de forma virtual e profundamente limitada, em uma situação em que centenas de milhares de trabalhadores foram às ruas nos últimos meses protestar contra o governo (“fora Bolsonaro”) e seus ataques em favor do grande capital. Destaca-se também que tudo foi reaberto, como a indústria, o comércio, as escolas e outros serviços, que mais de 50% da população encontra-se integralmente vacinada e que, no caso dos sindicalistas – em sua imensa maioria, acima dos 60 anos, na etapa atual – esse índice deve estar bem perto dos 100%. Não há motivo algum (a não ser uma profunda covardia política) para realizar um encontro esvaziado e não presencial.

Em outras organizações profundamente dominadas pelo esquema burocrático das suas cúpulas, como a maioria dos partidos de esquerda, organizações estudantis totalmente distantes dos estudantes (como a UNE), etc., esse formato aparece como uma consequência normal da política de suas direções de se manterem distantes das bases. No caso da CUT – mesmo com toda sua evolução burocrática dos últimos anos, nos quais a representação de base dos trabalhadores, majoritária nos primeiros anos, foi sendo substituída por representação das entidades, levando a um esvaziamento da Central – essa política se choca diretamente com a necessidade de defesa da existência da Central, única organização de massas criada como parte de um processo de lutas da classe operária brasileira, o mais intenso e combativo de sua história, na década de 80 do século passado.

Esse encontro virtual conta com a “participação” de mais de 900 delegados sindicais, o que representa, em média, menos de um delegado para cada quatro entidades filiadas, o que fez do encontro uma reunião de cúpulas sindicais. Composta por uma maioria de membros de executivas dos sindicatos, quase sempre com mais de duas décadas em cargos nos aparatos sindicais, a plenária nacional foi precedida de encontros regionais com características semelhantes.

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O evento em nada lembra os primeiros anos combativos da Central nos quais seus congressos agrupavam cerca de 5 mil trabalhadores, em sua maioria oriundos dos locais de trabalho, com enorme disposição de luta e com amplos debates, nos quais os problemas coletivos da classe trabalhadora e da suas organizações eram o centro da discussão.  

Em um momento em que é urgente debater a organização e a mobilização dos trabalhadores contra a ofensiva da direita, a Plenária pautou como tema a estratégia dos trabalhadores partindo de um ângulo falso e defensivo: a de que “o movimento sindical brasileiro precisará se reinventar na sua forma de atuação futura”, o que significaria a superação da atuação anterior “até então focada nos locais de trabalho”, segundo repetiam vários dirigentes sindicais em suas falas no começo do encontro.

Isto porque o problema central não é a forma de atuação supostamente ultrapassada, mas o fato de que o movimento sindical colocou-se em “quarentena”, fechou os sindicatos (e até as sedes da CUT), deixou de publicar até mesmo informativos sindicais (na imensa maioria dos sindicatos) e se dirigiu – quando muito – a uma atividade de tipo parlamentar, buscando “negociar” ou mendigar mudanças da parte dos patrões e dos governos sem organizar qualquer luta real dos trabalhadores para fazer valer seus interesses.

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Muito se escreveu e se falou de uma suposta “revolução digital” que estaria ocorrendo em todo mundo e que o Brasil estaria, inclusive, atrasado nisso, se referindo à indústria dos aplicativos e às condições degradantes de trabalho que os monopólios do setor impõem. No entanto, os debates muito pouco tocaram no fato de que não só os sindicatos estão bloqueados para agrupar os novos setores, como também fecharam suas portas para os setores tradicionais e que são, ainda, a ponta de lança da luta da classe trabalhadora no País.

Nada sobre a inexistência de campanhas reais sobre problemas cruciais, como a necessidade de redução da jornada de trabalho para – no máximo – 35 horas semanais para gerar milhões de empregos; a luta por proteger os salários diante da inflação como a defesa do “gatilho salarial” (reajuste geral toda vez que a alta do custo de vida atingir um certo patamar); a luta contra as privatizações e a destruição dos serviços públicos (limitada pelos sindicalistas, a ações inúteis nos parlamentos dominados pela direita), etc.

Muito se falou de “reorganização”, mas sem que se tenha como base uma ruptura com a política de paralisia anterior, destacadamente no que diz respeito à necessidade de abandonar a política de colaboração e seguidismo com a direita. O que, neste momento, deveria significar, em primeiro lugar que a CUT, junto com outras organizações de luta dos trabalhadores, aponte para a luta contra o regime golpista que, neste momento, visa construir uma “terceira via” para dar continuidade ao regime de destruição e morte imposto com o golpe de 2016.

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Para tanto, faz-se necessário discutir na CUT, nos sindicatos e nos locais de trabalho, a mobilização dos trabalhadores em torno de uma perspectiva própria, a defesa da candidatura de Lula, por um governo dos trabalhadores da cidade e do campo, apoiando sua candidatura de forma incondicional, ao mesmo tempo em que se aprova um programa de luta dos trabalhadores por suas reivindicações, seja qual for o governo.

Neste sentido, a resolução proposta pela direção cutista, se opondo à terceira via e apoiando Lula é um progresso, ainda que sem um viés classista, da defesa de um governo dos trabalhadores.

Assinala o documento da CUT:

“A CUT denuncia as articulações chamadas pela grande imprensa de “terceira via” como portadoras da mesma política que favorece o grande capital privado contra as necessidades básicas e urgentes do povo, cujo sentido é o de, de forma fraudulenta, traçar um sinal de igual entre Bolsonaro e Lula (“nem um, nem outro”). Não há terceira via, mas somente dois projetos em disputa, um de caráter democrático e popular que tem em Lula sua maior representação; e outro de caráter neoliberal que tem se mostrado incompatível com a democracia. As posições desses partidos nas votações que dizem respeito aos interesses de nossa classe, é que é o critério de seleção de quem são os verdadeiros aliados da classe trabalhadora e quem são seus inimigos, ainda que disfarçados de ‘democratas’”.

De modo progressivo a Resolução aponta também no sentido de um programa próprio dos trabalhadores para intervir na crise, ainda que com as limitações dos setores pequeno burgueses, minoritários na sociedade, mas majoritários nas direções do movimento sindical. Nela se aponta:

"E deve intervir no debate eleitoral com a Plataforma da Classe Trabalhadora, apresentando propostas para as questões que afligem o povo trabalhador: para enfrentamento do desemprego, da precarização das condições de trabalho; deve também organizar e mobilizar para a luta em torno de bandeiras mais universalistas: salário mínimo, redução de jornada, regulamentação crescente de direitos para trabalhadores de aplicativos e plataformas, defesa da renda básica e políticas públicas, sustentabilidade ambiental visando alcançar o conjunto da classe".

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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