Poesia e castigo

Como se não tivesse sorvido o cálice amargo do senhor sob o chapéu, dona Dulcineia se volta para ele e sorri com bonomia...

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(Foto: Divulgação)
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Coimbra, Portugal, 29 de fevereiro de 2021, uma segunda-feira, ao redor das 10h, num antiquário pitoresco e acolhedor na Baixa, a poucas quadras das margens sinuosas do rio Mondego.

Na fila, à espera de atendimento, uma senhora distinta e sorridente, com os cabelos envoltos por um lenço amarrado sob o queixo, e um senhor sob um chapéu à la Fernando Pessoa, que mais parece uma barricada para seu rosto taciturno. 

Com um charuto semiapagado no canto esquerdo da boca, o vendedor interpela a cliente:

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– Bom dia, dona Dulcineia. Em que posso ajudá-la? – Bom dia, sr. Miguel. Será que já chegou o abridor de nuvens que eu encomendei na semana passada? 

– Ainda não, senhora. Será preciso esperar até a próxima chuva. Sinto muito…(Sob o chapéu, o senhor taciturno franze o cenho.)

– Não tem problema. Mas eu aposto que o senhor ainda tem aquele amolador de sonhos que me ofereceu no mês passado, não tem? Eu me arrependi muito de não o ter comprado daquela vez, o preço era mesmo uma pechincha... 

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– Infelizmente, dona Dulcineia, um espanhol que passou por aqui no sábado comprou o amolador de sonhos. (Ele disse que o daria de presente para a esposa.) Sinto muito…– O casal, com certeza, está fazendo melhor uso dele do que eu. O vendedor esboça um risinho cúmplice, sem jamais se desvencilhar do charuto semiapagado. 

(Sob o chapéu, o senhor taciturno entorta a boca.)

– Última tentativa: uma vez, eu vi por aqui um tapete voador belíssimo. Se o senhor ainda o tiver, eu pago o que for por ele. 

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– Hoje não é mesmo seu dia de sorte, dona Dulcineia: há pouco mais de uma hora, se tanto (eu mal tinha aberto o antiquário), um marroquino passou por aqui e o levou. Sinto muito…

Sob o chapéu, o senhor taciturno pula o muro de sua solidão e, ranzinza, dispara:

– Ora, ora, minha senhora, tenha a santa paciência! Abridor de nuvens? Amolador de sonhos? Tapete voador? Para que servem essas bugigangas? Qual o sentido dessas tralhas? Ora, ora, minha senhora, não me faça perder o tempo que eu já não tenho!

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Como se não tivesse sorvido o cálice amargo do senhor sob o chapéu, dona Dulcineia se volta para ele e sorri com bonomia. Súbito, seus olhos vivazes se estreitam como frestas e, depois de perscrutar o rosto vincado do senhor, dona Dulcineia sentencia:

– Para que serve o resultado da biópsia, que, daqui pouco, o senhor vai se arrepender de levar para seu oncologista? Qual o sentido de ter vindo aqui para comprar um presente para a sua esposa? Gratidão ou remorso? (O charuto semiapagado cai da boca entreaberta do vendedor.)

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Flávio Ricardo VassolerDoutor em Letras pela Universidade de São Paulo (Brasil), com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (Estados Unidos). É autor das obras O evangelho segundo talião (nVersos, 2013), Tiro de misericórdia (nVersos, 2014), Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo (Hedra, 2018) e Diário de um escritor na Rússia (Hedra, 2019) e Metamorfoses, os anos de aprendizagem de Ricardo V. e seu pai (Nômade, fiel como os pássaros migratórios, 2021). É colunista do site Brasil 247, para o qual escreve ficções, semanalmente, sobre sua experiência nômade no continente europeu. Colabora para os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, bem como para as revistas Veja, Carta Capital e Piauí. Canal no YouTube: www.youtube.com/c/FlávioRicardoVassoler

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