Política literária

As notabilidades de aldeia, as personalidades midiáticas, pseudoliterárias, os políticos de maior visibilidade, o que faz a Academia eleger pessoas assim?

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(Foto: Wolfhardt/CC BY-SA 3.0)
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 Estive, certa feita, no gabinete de um editor-chefe do Jornal do Comércio, quando ele ainda era impresso e distribuído nas bancas de revistas, para entregar um artigo destinado à coluna de Opinião escrita por um colega da Filosofia. Tinha sido incumbido de solicitar ao editor do periódico que publicasse o artigo que fazia muitas críticas à   eleição do jornalista Roberto Marinho para uma das vagas da Academia Brasileira de Letras (ABL). 

Dizia o poeta da Geração 45 e Filósofo da Arte, que a eleição do dono da Rede Globo tinha sido fruto de uma “politicagem literária” que manchava a imagem da Casa de Machado de Assis. É como se a sua  escolha pelos imortais da ABL fosse uma moeda de troca  pelas inúmeras adaptações  televisivas das obras literárias de seus futuros pares de imortalidade literária. Diante da minha missão de portador, o editor se saiu com essa: era norma da casa não publicar matérias ofensivas a outros donos de jornal e donos de supermercado!

Fiquei pasmo com o que ouvi. Já tinha ouvido de alguém que a tragédia dos jornais brasileiros e de província é que são propriedade de usineiros, comerciantes, empresários, incorporadores imobiliários etc. Ou seja, gente que não respeita a liberdade de expressão. Quem não se lembra da demissão de um repórter do JC por ter denunciado a existência de trabalho escravo nas terras de conhecido usineiro e dono de jornal?

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Mas essa introdução foi para falar dos impossíveis e elásticos critérios utilizados pelos imortais para a escolha de certas notabilidades para o gozo do convívio dos imortais. Por que se elege personalidades políticas, sociais, do mundo da medicina ou do esporte, do mundo jurídico ou jornalístico para as disputadas vagas da ABL?

As notabilidades de aldeia, as personalidades midiáticas, pseudoliterárias, os políticos de maior visibilidade, o que faz a Academia eleger pessoas assim? – É aí onde entra o critério do clientelismo literário, do compadrio, do toma lá, dá cá. Como se explica que um político criado pela Ditadura  Militar, um genro (e senador biônico) de um coronel interiorano, um advogado, um cirurgião plástico ou o dono de uma empresa de televisão sejam aceitos como expressões da cultura literária nacional? – Só uma politicagem literária pode justificar tal coisa.

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Aí é quando a vida social se confunde com a vida literária. Mas quando se trata de um Marcel Proust, tudo bem. “Um cronista social que publica um romance monumental como”  Em Busca do Tempo Perdido”, está mais do que justificado. Ou um advogado, como Raimundo Faoro, que escreveu o clássico “Os donos do Poder”, ou um jornalista como Antônio Callado, autor de “Quarup”, aí se entende as razões da escolha. Mas um colaborador da imprensa local que reúne suas crônicas em livro ou faz uma incursão no gênero da biografia literária, ou um político que redige uma peça de discurso parlamentar sobre as formas de governo, fica parecendo que a ABL, muito amplo, complacente, politiqueiro de escolha de seus  membros.

O que  diria o bruxo do Cosme Velho ou o caturra e rabugento de Palmeira do índios, grandes escritores brasileiros em ter como pares essa legião de criaturas?

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