Por que Bolsonaro quer armar a população?

O jornalista Florestan Fernades Jr. escreve sobre a declaração de Bolsonaro, que pretender "armar a população": "De que povo Bolsonaro está falando? Sem dúvida, do povo que tem dinheiro sobrando para pagar no mínimo 4 mil reais por um revólver 38 (o mais simples), ou bem mais que isso, para ter pistolas 40 e 9 mm que antes eram de uso restrito das Forças Armadas".

Por que Bolsonaro quer armar a população?
Por que Bolsonaro quer armar a população? (Foto: Alan Santos/PR)

Por Florestan Fernandes Jr. para o Jornalistas pela Democracia - O decreto 9.785, de 2019, que afrouxa o porte de armas no Brasil, não é apenas uma retribuição do presidente ao apoio que recebeu da indústria das armas na eleição do ano passado. Em uma solenidade neste fim de semana em Santa Catarina, Bolsonaro deu a entender que quer armar seus seguidores para defendê-lo nas ruas num futuro próximo. "Nossa vida tem valor, mas tem algo muito mais valoroso do que a nossa vida, que é a nossa liberdade. Além das Forças Armadas, defendo o armamento individual para o nosso povo, para que tentações não passem na cabeça de governantes para assumir o poder de forma absoluta."

De que povo Bolsonaro está falando? Sem dúvida, do povo que tem dinheiro sobrando para pagar no mínimo 4 mil reais por um revólver 38 (o mais simples), ou bem mais que isso, para ter pistolas 40 e 9 mm que antes eram de uso restrito das Forças Armadas.

E que liberdade estaria ameaçada e que Bolsonaro quer defender com sua tropa civil armada? A liberdade de poder fechar o Congresso, cumprindo assim a declaração que fez em 1999 de que, se eleito presidente, "daria um golpe no mesmo dia", implantando uma ditadura e fechando o Poder Legislativo.
Se tem uma coisa que o capitão nunca escondeu na sua carreira como político foi a admiração pelos ditadores latino-americanos e pelo sistema de repressão implantado por eles: Pinochet, Stroessner, Médici e até do primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador durante os anos de chumbo no Brasil, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Quando era deputado federal, Bolsonaro manifestou em uma entrevista seu descaso pela democracia. "O voto não vai mudar nada no Brasil...Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando com FHC."
Incentivar o uso de armas pela sociedade civil para fins políticos é algo extremamente grave. Numa democracia, cabe a cada um dos três poderes garantir e avaliar o funcionamento dos demais. Já as Forças Armadas têm como missão zelar pela defesa da Pátria, pela garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa destes, da lei e da ordem. Subverter esta ordem é colocar em risco os princípios que norteiam os direitos e deveres do cidadão.

O Brasil necessita como nunca de amor e não de violência. Em nosso país ocorrem mais de 62 mil homicídios por ano, 71% deles provocados por arma de fogo. Um dos piores índices da América do Sul, comparável a Honduras e El Salvador. E 30 vezes maior que o da Europa. Incentivar o uso de armas só vai piorar este quadro e ampliar o rio de sangue em nossas cidades. Para um presidente que se diz religioso como Bolsonaro, é bom lembrar que o principal inimigo de Deus e do homem é a violência. E o responsável por ela é Satanás, o Diabo, a quem Jesus chamou de "homicida".

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