Por que Ciro Gomes não apoia Lula Livre?

"Ciro Gomes não apoia a campanha Lula Livre porque sua estratégia é deixar Bolsonaro exercer o seu mandato até 2022", escreve o colunista Valério Arcary. "Tem a ilusão que a devastação econômico-social criada pela extrema-direita no poder, e a desmoralização política do PT vai favorecer a sua possível eleição"

(Foto: Reuters | Ricardo Stuckert)

Ciro Gomes decidiu apoiar a LavaJato na campanha eleitoral. Por isso, não pode defender Lula Livre. Admite que houve excessos na ações de Dallagnol e dos procuradores, mas apoia a LavaJato. Do que decorre uma ambiguidade em relação à campanha Lula Livre. O PDT, em consequência, não se incorporou ao Comitê Lula Livre. Mas esta localização está ficando, a cada dia, mais insustentável.          

A divulgação pelo site The Intercept dos áudios entre procuradores da operação LavaJato atestam o desdém diante do drama humano de Lula quando da morte de sua companheira. Trata-se de mais uma confirmação de que a lisura, imparcialidade, e boa-fé que se espera da Justiça não foram respeitados. A LavaJato foi instrumento de uma guerra política. O alvo era toda a esquerda brasileira, em especial o PT. Lula foi sua principal vítima.          

Apesar de tudo que hoje se sabe, ainda existem diferentes posições sobre a campanha Lula Livre na oposição a Bolsonaro. Elas remetem à atitude de cada partido, corrente ou liderança diante das três derrotas mais importantes que os trabalhadores e o povo sofreram nos últimos quatro anos: o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro.        

Todas as outras derrotas, e não são poucas, como a aprovação da PEC do Teto dos gastos, a Reforma Trabalhista, a Lei das Terceirizações, o avanço na privatização da BR Distribuidora, a intervenção no INPE, ou a Reforma da Previdência, decorrem desta dinâmica reacionária.         

Não é possível compreender o impeachment em 2016 sem identificar o papel central da operação LavaJato. Mas não é possível, também, compreender a prisão de Lula e, em consequência, a eleição de Bolsonaro sem considerar o papel da LavaJato. Portanto, quem não está disposto a denunciar a LavaJato, mesmo depois da revelações feitas pelo site Intercept, não pode ter uma posição, minimamente, coerente na oposição a Bolsonaro.          

Mas não devemos ser ingênuos. As posições dos líderes e partidos políticos não respondem somente às necessidades de coerência intelectual. Obedecem a interesses políticos e eleitorais. Uma oposição pela metade não é oposição. Só uma luta orientada pela estratégia de derrubar Bolsonaro pode abrir o caminho para tirar Lula da prisão.          

Ciro Gomes não apoia a campanha Lula Livre porque sua estratégia é deixar Bolsonaro exercer o seu mandato até 2022. Tem a ilusão que a devastação econômico-social criada pela extrema-direita no poder, e a desmoralização política do PT vai favorecer a sua possível eleição. Não foi assim no ano passado e por isso Ciro Gomes não foi ao segundo turno. Não vai ser assim em 2022.        

A premissa que sustenta essa aposta é que ainda hoje pelo menos metade da população se posiciona contra a liberdade para Lula. Essa proporção vem oscilando na medida em que aumenta o desgaste de Bolsonaro. Ela é maior que os 30% que apoiam o governo. E muitíssimo mais ampla que o núcleo duro de extrema direita que responde ao discurso neofascista do bolsonarismo. A sua base social é a classe media, mas se estende até setores dos trabalhadores, sobretudo, no sudeste e sul do país.         

Ciro Gomes e todos aqueles que apostam que esta situação vai se manter nos próximos anos estão, profundamente, errados. O Brasil é muito maior e mais complicado do que pensam os ideólogos da extrema-direita. Não será necessário esperar mais três anos para que o apoio a Bolsonaro na presidência diminua. E há boas razões para duvidar que consiga manter o mandato.        

Todas as correntes, partidos ou lideranças de oposição a Bolsonaro que imaginam que irão se beneficiar da sanha da extrema direita em destruir o PT, e silenciam diante da prisão de Lula vão se desmoralizar. Só terão autoridade política aqueles que tiverem agora a honestidade moral de defender Lula.        

Mesmo discordando, energicamente, da avaliação que a direção do PT faz dos seus governos, contra Bolsonaro e a LavaJato, o PSol se coloca lado a lado do PT na campanha Lula Livre.

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