Por que Dilma cai, mas os adversários não sobem?

Sem futurologia, a reeleição de Dilma vê-se bastante garantida. Mas é pouco. A reeleição é meio, jamais é fim

Há um acirramento social no ar. Dizer que a sociedade está mais agressiva já é chavão. Mas está. Buzina-se no trânsito querendo xingar; consumidores reclamam de tudo; empresas prestadoras de internet, TV a cabo e celular só mentem nas publicidades. Por um lado é a era da fraude. Por outro, da intolerância.

Quando isso chega à política os efeitos podem não ser simétricos. Se Dilma Rousseff cai 1 ponto nas pesquisas, cada adversário deveria subir uns 5. Não conseguem subir nem meio. Fazer alguém subir é simpatia, confiança e apoio social. Ou ideológico. A sociedade da intolerância parece só querer desapoiar. O problema é que não se pode afundar todos igualmente. A conta não fecha. Alguém precisa vencer. Mas aí também há paradoxos.

Um dos pontos fundamentais de pujança de partidos como PT e Psol é a militância que age mais ou menos como uma crença fundamentalista. Partidos historicamente mornos e muristas como PSDB e PMDB adorariam ter uma militância assim, hiperativa e roxa. Mas nunca conseguiram. Já os partidos reacionários, como DEM conseguem atrair órfãos e dementes ultrarradicais da ditadura que vivem pedindo intervenção militar, general no poder e outras sandices.

O fato é que como um todo a sociedade se radicaliza. Isto nunca pode ser considerado ganho. Qualquer radicalização é cega; ou meramente imbecil. O fanático não aguenta um debate político minimamente equilibrado. A conversa se transforma em guerra e, claro, ofensa pessoal. As vitórias não são festas, mas ração para alimentar a busca por humilhação do derrotado com berros de ódio ‘chupa!’. A eleição de 2014 virá nesse clima. A Copa, se sua magia não se impuser, também.

A impressão é que, fora a militância radical dos partidos, não há mais adesão fixada ou ideologia minimamente aderida e constante. Se isso for comparado com o futebol há um imenso paradoxo aí. Virar casaca, como se diz, soa como ofensa na coisa do ‘time do coração’. Mas para efeito político partidário ainda impera uma grande alienação. A caneta de 10 centavos a unidade ou a camiseta que se desfaz na segunda lavada, doadas como brinde ainda garante votos em grandes bolsões e currais eleitorais.

O fenômeno Dilma nunca com o cordão umbilical a Lula cortado, aliado à máquina do Estado a seu favor, parece lhe garantir uma vitória folgada. Some-se, claro, uma oposição viciadamente claudicante e adestrada para a insegurança. Sem futurologia, a reeleição de Dilma vê-se bastante garantida. Mas é pouco.

A reeleição é meio, jamais é fim. Se o somatório de uma militância poderosa, à máquina do Estado na mão, e uma oposição débil garantem a reeleição, a sociedade continua bastante credora de uma assistência social concreta e verdadeira. Dinheiro, já se percebeu, que existe. Ninguém mais invoca a bobajada delfiniana de que o bolo precisa antes crescer para só depois ser dividido. Já cresceu e muito pouco foi feito. A divisão ficou reservada como aborto capitalista que se salvou somente para poucos.

É muito grave na história do país todo ano de eleição ser um ano perdido, mentiroso e perdulário. Um ano tipicamente vigarista por parte do Estado, seu traço histórico visível. Para-se tudo em nome dessa gosma eleitoral como se ela produzisse alguma cura. Isso se dá nos três âmbitos, municipal, estadual e federal.

O problema é que muitos não veem isso. Inclusive a militância que ‘pertence’ ao social. Num cálculo primário, fica importando somente a vitória, ou melhor, a derrota do ‘inimigo’. Mesmo que a vida em sociedade, ética, educada, instruída, com saúde, sem violência, continue inexistindo no Brasil, em grande escala. Um padrão social infame e dos piores. Nada disso uma eleição conserta. Só a educação, a cultura e a crítica têm esse poder.

O grande debate não é reeleição, vitória ou perda. Mas a continuada subsistência social – o povo- desrespeitada. Idosos sem um atendimento efetivamente condigno. Enquanto isso uma submilitância alienada e patética ainda apoia Joaquim Barbosa querendo salário de juiz a 40 mil reais. O grande credor é o povo. Em quinto lugar é que vêm Estado e suas ‘autoridades’. A boa notícia é que esse povo parece ter começado a olhar mais para si. Como um ente orgânico. Essa será a grande militância social do futuro do Brasil. 

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