Por que Trump agora quer dialogar com o Irã

Tudo tem a ver com o Estreito de Ormuz. Bloquear o Estreito pode cortar o petróleo e o gás de Iraque, Kuwait, Bahrein, Qatar e Irã – 20% do petróleo mundial. Houve algum debate sobre se isso poderia ocorrer – se a Quinta Frota dos EUA, que está estacionada nas proximidades, poderia impedir Teerã de fazer isso e se o Irã, que tem mísseis antinavio em seu território ao longo da fronteira norte do Golfo Pérsico, chegaria a esse ponto

Trump: um doido ou um inimigo?
Trump: um doido ou um inimigo? (Foto: Joshua Roberts - Reuters)

Tradução voluntária de Olívia Ramos - Ao contrário do que diz a lendária canção "Smoke on the Water" do Deep Purple – "We all came out to Montreux, on the Lake Geneva shoreline" (Todos fomos para Montreux, à margem do Lago de Genebra), as 67 reuniões do grupo Bilderberg não produziram fogo nem fumaça no luxuoso Hotel Fairmont Le Montreux Palace.

Os 130 convidados de elite desfrutaram de momentos alegres – e teoricamente tranquilos – no "fórum de discussão informal sobre questões importantes". Como de costume, pelo menos dois terços eram tomadores de decisão europeus, com o restante advindo da América do Norte.

O fato de que alguns dos principais participantes desse "Valhalla Atlantista" estão intimamente associados ou diretamente interferindo com o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) na Basileia – o banco central dos bancos centrais – é, naturalmente, apenas um pequeno detalhe.

A principal questão discutida este ano foi "Uma Ordem Estratégica Estável", esforço elevado que pode ser interpretado como a elaboração de uma Nova Ordem Mundial ou apenas um esforço benigno das elites altruístas para guiar a humanidade rumo a um entendimento.
Outros itens de discussão foram muito mais pragmáticos – desde "O futuro do capitalismo" a "Rússia", "China", "Armando as mídias sociais",

"Brexit", "O próximo passo para a Europa", "Ética da inteligência artificial" e por último, mas não menos importante, "Mudanças climáticas".

Os discípulos de Antístenes argumentariam que esses itens constituem precisamente as minúcias e pormenores da Nova Ordem Mundial.

O presidente da comissão de coordenação do Bilderberg, desde 2012, é Henri de Castries, ex-CEO da AXA e diretor do Instituto Montaigne, um importante think tank francês.

Um dos principais convidados deste ano foi Clement Beaune, europeu e conselheiro do G20 para o presidente francês Emmanuel Macron.

O Bilderberg se orgulha de aplicar a Regra de Chatham House, de acordo com a qual os participantes são livres para usar todas as informações preciosas que desejam porque os participantes dessas reuniões são obrigados a não divulgar a fonte de qualquer informação sensível ou o que exatamente foi dito.

Isso ajuda a garantir o lendário sigilo do Bilderberg – o motivo de inúmeras teorias de conspiração. Mas isso não significa que o estranho segredo não possa ser revelado.

O eixo Castries/Beaune nos fornece o primeiro segredo aberto de 2019. Foi Castries, no Instituto Montaigne, que "inventou" Macron – aquela perfeita experiência de laboratório de um banqueiro de fusões e aquisições servindo o estabelecimento, fingindo ser progressista.

Uma fonte do Bilderberg informou discretamente que o resultado das recentes eleições parlamentares europeias foi interpretado como uma vitória. Afinal, a escolha final foi entre uma aliança neoliberal/Verde e o populismo de Direita; nada a ver com valores progressistas.

Os Verdes que venceram na Europa – ao contrário dos Verdes dos EUA – são todos imperialistas humanitários, para citar o esplêndido neologismo cunhado pelo físico belga Jean Bricmont. E todos rezam no altar do politicamente correto. O que importa, do ponto de vista do Bilderberg, é que o Parlamento Europeu continuará a ser dirigido por uma pseudoesquerda que continua defendendo a destruição do Estado-nação.

Assim como Castries e seu pupilo Macron.

O relógio dos derivados não para

O grande segredo do Bilderberg de 2019 tinha a ver com o porquê, de repente, o governo Trump decidiu que quer falar com o Irã "sem condições prévias".

Tudo tem a ver com o Estreito de Ormuz. Bloquear o Estreito pode cortar o petróleo e o gás de Iraque, Kuwait, Bahrein, Qatar e Irã – 20% do petróleo mundial. Houve algum debate sobre se isso poderia ocorrer – se a Quinta Frota dos EUA, que está estacionada nas proximidades, poderia impedir Teerã de fazer isso e se o Irã, que tem mísseis antinavio em seu território ao longo da fronteira norte do Golfo Pérsico, chegaria a esse ponto.

Uma fonte americana disse que uma série de estudos chegou à mesa do presidente Trump e causou pânico em Washington. Estes mostraram que, no caso do Estreito de Ormuz ser fechado, seja qual for a razão, o Irã tem o poder de martelar o sistema financeiro mundial, fazendo com que o comércio global de derivados seja destruído.

O Banco de Compensações Internacionais disse no ano passado que o "valor nocional em aberto para contratos de derivados" era de US$ 542 trilhões, embora o valor de mercado bruto tenha sido de apenas US$ 12,7 trilhões. Outros sugerem que é de US$ 1,2 quatrilhão ou mais.

Teerã não expressou abertamente essa "opção nuclear". E, no entanto, o general Qasem Soleimani, chefe da Força Quds da Guarda Revolucionária Iraniana e ovelha negra do Pentágono, evocou-a em discussões internas iranianas. A informação foi devidamente divulgada para França, Grã-Bretanha, Alemanha e membros da UE-3 do acordo nuclear do Irã (ou Plano de Ação Conjunta Abrangente), também causando pânico.

Os especialistas em derivados de petróleo sabem bem que, se o fluxo de energia no Golfo for bloqueado, poderá levar o preço do petróleo a atingir US$ 200 por barril, ou um valor muito mais alto durante um período prolongado. Derrubar o mercado de derivados criaria uma depressão global sem precedentes. Steve Mnuchin, ex-secretário do Tesouro da Goldman Sachs, deve estar ciente disso.

E o próprio Trump parece ter entregado o jogo. Ele agora está essencialmente declarando, publicamente, que o Irã não tem valor estratégico para os EUA. De acordo com a fonte americana: "Ele realmente quer uma maneira de sair do problema que seus conselheiros Bolton e Pompeo o colocaram, preservando sua reputação. Washington agora precisa de uma saída para manter as aparências. O Irã não está pedindo reuniões. Os EUA estão.

E isso nos leva à longa e não programada parada do secretário de Estado, Mike Pompeo, na Suíça, às margens do Bilderberg, só porque ele "adora queijo e chocolate", em suas próprias palavras.

No entanto, qualquer doido de pedra bem informado registraria que precisava desesperadamente amenizar os temores das elites transatlânticas, além de suas reuniões de portas fechadas com os suíços, que representam o Irã nas comunicações com Washington. Após semanas de nefastas ameaças ao Irã, os EUA disseram que "nenhum pré-requisito" seria estabelecido nas negociações com Teerã, e essa declaração foi emitida a partir do solo suíço.

A China traça suas linhas na areia

Bilderberg não poderia deixar de discutir a China. A justiça geopoética decide que, praticamente ao mesmo tempo, a China estava enviando uma mensagem poderosa – para o Oriente e o Ocidente – no Diálogo de Shangri-La em Cingapura.

O Diálogo de Shangri-La é o principal fórum anual de segurança da Ásia e, ao contrário do Bilderberg, funciona como um relógio no mesmo hotel na Orchard Road de Cingapura. Tanto quanto Bilderberg, Shangri-La discute "questões de segurança relevantes".

Pode-se argumentar que Bilderberg enquadra as discussões como na recente reportagem de capa de um semanário francês, de propriedade de um oligarca amigo de Macron, intitulado "Quando a Europa governava o mundo". Shangri-La, em vez disso, discute o futuro próximo – quando a China, na realidade, pode estar governando o mundo.

Pequim enviou uma delegação top de linha para o fórum deste ano, liderada pelo ministro da Defesa, general Wei Fenghe. E no domingo, o general Wei estabeleceu as linhas vermelhas inconfundíveis da China; uma severa advertência às "forças externas" que sonham com a independência de Taiwan e o "direito legítimo" de que Pequim amplie as ilhas artificiais no Mar da China Meridional.

A essa altura, todos já haviam se esquecido do que o secretário de Defesa dos EUA, Patrick Shanahan, havia dito no dia anterior, acusando a Huawei de estar perto demais de Pequim e representando um risco de segurança para a "comunidade internacional".

O general Wei também encontrou tempo para arrasar com Shanahan. "A Huawei é uma empresa privada, não uma empresa militar (...) Só porque o chefe da Huawei era do Exército, não significa que sua empresa integre as forças militares. Isso não faz sentido."

O Shangri-La é pelo menos transparente. Quanto a Bilderberg, não haverá vazamentos sobre o que os Mestres do Universo disseram às elites ocidentais a respeito da lucratividade da guerra ao terror; a motivação para a digitalização total do dinheiro; domínio total de organismos geneticamente modificados; e como as mudanças climáticas serão transformadas em armas.

Pelo menos o Pentágono não escondeu, mesmo antes de Shangri-La, que a Rússia e a China devem ser contidas a todo custo – e que os vassalos europeus devem andar na linha.

Henry Kissinger foi um participante do Bilderberg em 2019. Os rumores de que ele passou todo o tempo sem fôlego conectando seu "Nixon ao revés" – seduzindo a Rússia para conter a China – podem ser muito exagerados.

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