Por quem dobram os sinos no caso dos desempregados da Lava Jato?

Na curta idade das trevas que estamos vivendo, o martelo das bruxas se volta contra progressistas, keynesianos e desenvolvimentistas que valorizam o trabalho em face do capital financeiro

Um poema de John Donne, o mais notável poeta inglês do século XVI, citado por Hemingway no frontispício de "Por quem os sinos dobram", ressoa desde o Paraíso Celeste sobre o que me parece ser hoje as consequências brutais do desemprego em torno da operação Lava Jato: "Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; cada ser humano é parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse o solar do teu amigo, ou o teu próprio. A morte de cada homem me diminui, porque eu faço parte da humanidade; eis porque não perguntes por quem os sinos dobram: os sinos dobram por mim."

Será que os promotores da Lava Jato e o juiz Moro entendem o significado profundo desse poema? Será que Joaquim Levy, engenheiro naval, com mestrado na Fundação Getúlio Vargas, a mais neoliberal de nossas universidades, e com doutorado em Chicago, a mais neoliberal e prestigiada universidade do mundo, entendem o que significa desemprego para um pai de família? Será que Dilma Roussef, dominada pelos demônios do neoliberalismo, não sabe que a experiência neoliberal na América do Sul, a partir do Chile, foi promovida por gente como o facínora Pinochet, com mãos sujas de sangue? Se sabem disso e mantêm a política, são torturadores de famílias inteiras.

Entretanto, não são apenas eles, esses neoliberais assumidos ou no armário, os que empunham o martelo das bruxas para desempregar e matar inocentes em nome do combate à corrupção. Muitos dos que poderiam ser os advogados de defesa desses milhares e milhões que vão para o matadouro comportam-se como cúmplices dos assassinatos. Na Idade das Trevas o martelo das bruxas serviu para mandar para a fogueira milhares de mulheres acusadas de feitiçaria. Na curta idade das trevas que estamos vivendo – curta, porque não acredito que isso vai durar para sempre à revelia da indignação popular -, o martelo das bruxas se volta contra progressistas, keynesianos e desenvolvimentistas que valorizam o trabalho em face do capital financeiro.

Falo especificamente em capital financeiro porque é ele o principal fator de degeneração do capitalismo. Enquanto uma articulação respeitosa entre capital e trabalho – respeitosa, sim, porque não há trabalho organizado sem capital ou sem uma forma capitalista dele sucedânea -, o capitalismo pode funcionar decentemente, sem trabalho escravo, sem super-exploração do trabalhador, sem especulação improdutiva. A grande peste é o capital financeiro especulativo que assume fingidamente hábitos produtivos para abocanhar a parte principal da renda social. Esse cancro tem que ser extirpado. E não é necessário expropriar os bancos. Basta manter uma parcela significativa do sistema bancário em mãos do setor público para forçar os bancos privados, pelo mecanismo da concorrência, a assumirem um capitalismo decente.

Mas não pensem que os culpados pela infâmia do desemprego ampliado sejam apenas os patrões. Na realidade, no contexto atual, eles são tão vítimas como os desempregados na medida em que estão sendo obrigados a fechar suas empresas por força de multas estapafúrdias arquitetadas na Justiça. Há muita culpa também na área sindical. Ontem, enquanto se noticiava mais uma leva de milhares de desempregados no Comperj e em Macaé, sindicatos em torno da Petrobrás discutiam em termos prioritários sobre quanto seria a participação nos lucros deste ano. É claro que isso é simplesmente asqueroso. E indica uma estrutura sindical absurdamente anacrônica que, por certo, não atende o interesse efetivo do trabalhador na medida em que é mantida por contribuição compulsória referente a uma situação sindical que não existe mais.

Da mesma forma, a representação sindical patronal tornou-se uma excrescência. Instituições como os 4S (hoje 5S) criadas originalmente para estruturar um sistema de assistência social e de formação do trabalhador nos anos 40, perpetuam-se de forma absolutamente anacrônica na institucionalidade atual. Financiada por tributos (dizem contribuições para-fiscais, mas na verdade é um tributo), Sesi e Senai, assim como Senac e Sesc, são dirigidas por empresários que, obviamente, manipulam seu dinheiro à vontade, independentemente de seus fins. No sistema CNI, algumas federações, como as do Rio e de São Paulo, tem a insolência de cobrar dos alunos pelos seus cursos, enquanto no Sesc/Senac nacional trava-se uma guerra mortal entre o maior pelego da estrutura sindical brasileira, Antônio de Oliveira Santos, e um desafiante que não pensa em mudar a estrutura, mas simplesmente usá-la em interesse próprio.

Os neoliberais não falam tanto em reformas do Estado? Pois vamos começar colocando o sistema 5S sob governança tripartite, sem contaminação com as contas das representações empresariais como CNI e Fiesp, CNC e Fecomércio. Estas, se quiserem sobreviver ou manter campanhas contra impostos, que busquem recursos junto a seus filiados empresariais, e não com um tributo pago por todos, na medida em que as contribuições específicas para esses serviços são cobertas por tributos indiretos. Ao fim, será uma grande profilaxia no sistema sindical brasileiro. E possibilitará a empresários e empregados tratarem de questões pertinentes, como desemprego, com maior franqueza e sinceridade. Num nível superior de organização, será possível que venhamos a pensar seriamente numa sociedade de trabalhadores e empregados pactuada em torno de interesses objetivos, e não de ideologias do passado, boas em seu próprio tempo.

 

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