Porta do Alvorada: uma sugestão

"E se alguém conseguir reunir mais cinco ou seis, me disponho a ir até lá e perguntar, por exemplo, sobre Adriano, sobre Queiroz, sobre o trio de filhotes que fazem a milagrosa multiplicação não de pães, mas de saldos bancários. Também perguntaria outras coisas, claro", escreve Eric Nepomuceno, propondo uma visita à porta da Alvorada, local onde Bolsonaro emite suas declarações

Jair Bolsonaro deixa Palácio da Alvorada
Jair Bolsonaro deixa Palácio da Alvorada (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

Dia desses, Tereza Cruvinel publicou aqui um texto duro e justíssimo protestando contra chefes de redação que despacham todas as manhãs repórteres em sua maioria novatos para a porta do Palácio Alvorada, para serem ofendidos por um Jair Messias que já desperta destrambelhado.

Não só concordo inteiramente como, numa coluna para o blog Nocaute, do Fernando Morais, abordei exatamente o mesmo tema dizendo que se eu fosse chefe me negaria a mandar um repórter para a farsa matutina, e que se fosse repórter me negaria a ir. Como já não sou nem uma coisa nem outra, nada a fazer. E como nenhum chefe ouvirá o sábio conselho da Tereza, nada será feito. Assisto quase todos os dias a esse espetáculo patético: Jair Messias, cercado de guarda-costas, desce do carro, se dirige até o cercadinho onde se concentram seguidores arrebanhados, dispara meia dúzia de idiotices e depois se dirige aos jornalistas para disparar dúzia e meia de estupidezes. Com a prepotência típica dos ressentidos, Jair Messias se dá ao luxo de responder o que quer, ofender quem quer e, numa demonstração de até que ponto sabe ser ingrato dispara fúrias contra quem participou ativamente do golpe que derrubou Dilma Rousseff, condenou sem provas e mandou Lula para a cadeia, ou seja, jornais e redes de televisão que foram cúmplices da sua chegada à presidência.  Pensando no texto da Tereza e no que poderia ser feito, já que nenhum meio deixará de despachar repórteres para o altar da humilhação, me ocorreu uma ideia: que tal mandar numa dessas manhãs um nutrido grupo de correspondentes estrangeiros que Jair Messias nem pensa em receber? Que tal fazer com que ele encare gente do El País, do The Guardian, do Le Monde, do New York Times, da agência Reuters, da BBC e por aí vai? Terá ele coragem (ia escrever ‘dignidade’, mas essa qualidade é totalmente inexistente na sua figura) de encarar uma tropa dessas e disparar as patetices e bestialidades que dispara contra os jornalistas que dão plantão todas as manhãs ao lado dos arrebanhados dispostos a aplaudir Jair Messias sabe-se lá a troco de quê? A propósito: não sou correspondente de nenhum meio, mas sou colunista e articulista de dois. 

E se alguém conseguir reunir mais cinco ou seis, me disponho a ir até lá e perguntar, por exemplo, sobre Adriano, sobre Queiroz, sobre o trio de filhotes que fazem a milagrosa multiplicação não de pães, mas de saldos bancários. Também perguntaria outras coisas, claro.

Hoje mesmo alguém perguntou sobre a iniciativa de seu (de Jair Messias) ídolo, Donald Trump, e que prejudicará fortemente o Brasil.

A resposta de Jair Messias foi a de cada vez que perguntam alguma coisa que ele detesta ouvir: virou as costas e pronto. Fiquei pensando: e se quem perguntou fosse do New York Times ou do Washington Post? Claro que ele faria a mesma coisa. Só que a repercussão seria outra, formidável. 

Bem: esta é a minha sugestão.       

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