Precisamos falar sobre o "gabinete do ódio"

Resta-nos, agora, acompanhar como será desenvolvida a narrativa bolsonarista para combater as “inverdades” a respeito do "transparente" acordo que vem sendo costurado entre o governo federal e o centrão.

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Por sugestão de um amigo muito inteligente, tenho acompanhado o Twitter de influenciadores digitais bolsonaristas. O desdém com que a esquerda trata a turma que atualmente está no poder é necessário, mas não deve ser aplicado se acompanhado de um distanciamento excessivo, que, em vez de aprimorar o ponto de vista crítico, aliena-o do objeto visado, como se tudo se resumisse a “robôs que derrotaram o Haddad”. 

Não. Existe uma potente produção de informações que, na prática, alcança resultados de engajamento popular sonhados por qualquer marketeiro político. Chamado de "gabinete do ódio", prefiro nomeá-lo, aqui, "gabinete do conflito". Se há uma notícia negativa sobre o presidente, lá está o "gabinete do conflito" para contrapor a informação e recriar a narrativa com memes, prints e textos, sem fonte detectável, que mostram "o complô dos bandidos contra o presidente".

Nesse contexto, é ingenuidade não notar que uma das consequências da saída de Sergio Moro do governo Bolsonaro foi a radicalização no discurso dos que seguem apoiando o presidente da República. Também é ingenuidade acreditar que tal radicalização é sinal de enfraquecimento de Bolsonaro, principalmente quando por trás existe um cálculo "work in progress" de irracionalidades. 

Não que a saída do ex-ministro da Justiça estivesse planejada pelo "gabinete do conflito", como num roteiro pré-definido. Longe disso, aliás. Mas o conflito da demissão foi e está sendo usado pela rede organizada de apoiadores do presidente como trampolim para um chamamento aos “genuínos bolsonaristas”. Não sem motivo uma das hashtags ‘levantadas’ na última semana no Twitter dizia #DireitaRaizEBolsonaro, como se a raiz da direita encontrasse a verdadeira representação em Jair Messias, o traído pelo incorruptível. 

Tudo o que acontece no cenário político em torno do chefe do Executivo é incorporado, como um organismo vivo em constante mutação, a uma narrativa iniciada lá atrás, talvez quando Dilma ainda era presidente, e que vem sendo construída e atualizada pela rede virtual bolsonarista de acordo com o desenrolar dos episódios da política brasileira. 

Importante observar, portanto, sem a intenção de detalhar porcentagens de apoio ou de rejeição, que parte da população brasileira vive, atualmente, subordinada a uma crença cada vez mais fortalecida, radicalizada, de que o pai do zero quatro luta, sim, contra o establishment, à revelia do Maia “Botafogo”, do Toffoli “sei lá das quantas”, da “ameaça comunista” e do, agora, Moro “traíra”. 

“Querem derrubá-lo porque está tentando combater toda essa podridão”, dizem, genericamente, as vozes em defesa do “tão combatido” Mito, repercutindo o "gabinete do conflito" e acusando de conspiração Globo e toda a imprensa corporativista, poder Legislativo, STF, Lula, petistas, peessedebistas, comunistas, o haitiano, enfim, todos aqueles que negam a movediça cartilha bolsonarista.

Capturados por essas crenças-raiz, os “genuínos bolsonaristas” encontram nas imagens, memes e vídeos que recebem pelos grupos de whatsapp coerência de sobra para a sustentação de um enredo, que, “contra tudo e contra todos”, reforça a imagem do Bolsonaro outsider, o único capaz de dar jeito “na podridão que toma conta de Brasília”. Seja qual for a acusação contra o presidente, a militância sempre terá um desmentido, produzido pelo "gabinete do conflito" como forma de "restabelecer a verdade sobre o complô que tenta derrubar o Messias".

E nessa guerra de narrativa vale lançar mão de muita coisa. Desde foto "suspeita" de uma mulher segurando um caixão com apenas dois dedos, a vídeos “espontâneos” de um “cidadão de bem” que “flagra” covas rasas sendo cavadas para que, “provavelmente”, caixões sejam enterrados vazios, revelando para o mundo, graças à internet e ao Bolsonaro, "a farsa do coronavírus".  

“Não chequei a fonte, mas que é impossível uma mulher segurar daquele jeito um caixão com um cadáver dentro, é”, disse um amigo bolsonarista, imbuído da certeza de que não ter a “Globo lixo” ou outro veículo para contrapor a versão não é sinal de que a notícia é falsa, e sim de que a informação é tão verdadeira que a “extrema imprensa vendida” não a divulgaria jamais.

Por essa mesma lógica bolsonarista, a lógica do conflito organizado, faz sentido criar um estranhamento na suposta perda de interesse da mídia em relação ao coronavírus, como afirmado na semana passada. De acordo com tal pensamento, o destaque midiático às acusações de Moro contra o Mito provaria que os meios de comunicação, mais do que preocupados com as vidas perdidas em decorrência da covid-19, estariam focados na derrubada do presidente do Brasil. 

Ou seja, a partir dessa percepção, alimentada pelo "gabinete do conflito" e absorvida pela massa bolsonarista, o embate entre Moro e Bolsonaro não traz acusações graves contra o Jair, senão apenas mais ataques infundados contra o Messias. Afinal, para “comprovar” a preocupação com a pandemia, os que apontam falhas na forma como o Mito conduz a crise deveriam continuar a falar somente da desgraça que representa mais de cinco mil mortos, ignorando que possíveis crimes cometidos por Bolsonaro tenham vindo à tona pelas mãos do ex-incorruptível Sergio Moro, hoje, traíra.

Resta-nos, agora, acompanhar como será desenvolvida a narrativa bolsonarista para combater as “inverdades” a respeito do "transparente" acordo que vem sendo costurado entre o governo federal e o centrão. Ou, para ficarmos no linguajar bolsonarista, entre os representantes da nova e os da velha política, esses últimos tão destratados até aqui pelos influencers do Messias. 

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