Prestes ao suicídio na contramão da BR-116, o motorista nos interpela: “É possível imaginar Sísifo feliz?”

“Só há uma questão verdadeiramente filosófica: o suicídio”. “É preciso imaginar Sísifo feliz”.

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Há 14 anos, assisti a uma matéria num telejornal brasileiro de que eu nunca mais consegui me esquecer.

 A câmera da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) supervisiona o fluxo dos veículos num trecho da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), que liga São Paulo a Curitiba. Súbito, uma cena radicalmente inusitada é capturada: um Celta cinza sai da pista rumo a Curitiba, cruza o canteiro central repleto de grama e pára no acostamento da pista rumo a São Paulo, na contramão! 

Densos como chumbo e relegados como estilhaços, segundos decisivos transcorrem naquele acostamento da BR-116 - eu podia contar cada segundo (um, dois, três!) como os últimos grãos de areia tragados pelo delgado pescoço da ampulheta (três, dois, um…). 

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 O zoom da câmera da CET torna tangíveis os derradeiros afetos e pensamentos do motorista, antes de o Celta cinza ser arremetido na contramão da BR-116 e colidir com uma carreta de 2 toneladas trafegando a 100 km/h. (Fatal para o caminhoneiro e suicida para o condutor do Celta, o desenlace trágico não foi apresentado pelo telejornal, a despeito tanto da pulsão por audiência da emissora e seus anunciantes quanto da voracidade dos telespectadores, que já não precisariam ir ao cinema, no fim de semana seguinte, para lotar as salas de mais um filme de serial killer - assim, eles se sentiriam menos solitários até que, 11 anos depois, um apologista da tortura os representasse como candidato a presidente.) 

 Com a boca seca de agonia e o coração martelando meu esterno furiosamente, entrevi e entreouvi, em cada um dos 37 segundos ao longo dos quais o motorista ficou parado no acostamento da Régis Bittencourt, os afetos e questões mais essenciais da literatura e da filosofia. 

 Por que ele decidira se matar? 

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 Por que ele decidira se matar com o risco (levado a cabo) de naufragar outra pessoa consigo?

 Não houve sequer uma mão de consolo e compaixão - a boia salva-vidas da amizade! - para lhe dizer que ainda há oásis de acalento no deserto de gelo deste mundo? 

 Se, em algum momento, o motorista se sentira ungido com a fé em que uma realidade de comunhão pode ser erigida em algum lugar do cosmos, por que o amor de Deus não conseguiu içá-lo da vala do suicídio? 

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 Que lhe diriam os niilistas, para além de seu coro mórbido de que a vida, finita, não tem sentido algum e de que o pus do desespero é inextirpável? Será que, são e salvos, tais niilistas, sem a coerência e a coragem trágicas e pessimistas do Celta cinza, incitariam o motorista a abandonar a vida ilhada por aquele acostamento da BR-116 ainda mais rapidamente? 

 Súbito, alguém me sussurra (Deus?, a Morte?) o nome do motorista, que, em 37 segundos, ponderou, com cada fímbria de seu corpo, se vale ou não a pena viver: Sísifo. 

 Sísifo fora condenado pelos deuses gregos a rolar uma pesada pedra morro acima, sem que fosse possível alcançar o cume da montanha para pedir a Isaac Newton que intercedesse junto à deusa Gravidade para livrá-lo da condenação perpétua. 

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 Se, açoitado pelo sentimento de que o sofrimento em vão é o fundo e a verdade da vida, Sísifo deixasse de rolar a pedra da existência, ele seria esmagado como um graveto, sobre cuja fragilidade marcha um tanque de guerra. 

 Se, de alguma forma, Sísifo encontrasse forças (a partir de onde?, por quê?) para, a despeito do deserto de gelo deste mundo, rolar a pedra de sua vida morro acima, a Morte o premiaria, ao fim e ao cabo, com o esmagamento de suas esperanças. 

 Não à toa, o escritor franco-argelino Albert Camus, que também reconhece no motorista do Celta cinza um irmão de Sísifo, abriu e fechou seu ensaio O mito de Sísifo com as seguintes máximas em brasa:

 “Só há uma questão verdadeiramente filosófica: o suicídio”.

 “É preciso imaginar Sísifo feliz”.

 Se não tivesse ceifado a vida do motorista da carreta e sua própria vida na contramão da BR-116 - será que a escolha por tal morte teve a ver com a percepção de que uma vida tão dura e feia só faz merecer uma tragédia como arremate? -, o motorista do Celta cinza poderia formular, em seus 37 segundos finais - os mais romanescos da literatura, os mais existenciais da filosofia -, a seguinte réplica para Albert Camus já como um prenúncio das ferragens e dos escombros:

- É possível imaginar Sísifo feliz?

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