Primeira lição chilena

"Produto de uma mobilização de caráter insurrecional, mudanças políticas do Chile voltam ao centro das atenções na América do Sul," escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Reuters)
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Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Os números finais da apuração chilena têm grande utilidade para países vizinhos que, como o Brasil, procuram exemplos e caminhos que podem ser úteis a seu próprio esforço para reconstruir o regime democrático e retomar um projeto de  desenvolvimento capaz de beneficiar a maioria da população. 

Não há dúvida de que o governo Sebastián Pinera, herdeiro civil da ditadura de Augusto Pinochet, que impôs uma tirania de 17 anos ao país a partir do golpe de 1973, foi o grande derrotado nas urnas.  

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Conseguiu 37 assentos num plenário de 155 vagas da Constituinte. Não só ficou longe da maioria, o que já era esperado, mas não conseguiu reunir sequer um terço dos votos, posição que lhe daria poder de veto em função de uma regra que exige maioria de 2/3 para se aprovar qualquer alteração na ordem legal vigente. 

Repudiada pela grande maioria do país, a direita chilena tinha como projeto uma estratégia puramente defensiva, de quem pretendia construir uma fortaleza para interceptar mudanças há muito ansiadas pela maioria dos chilenos. 

Mas a apuração também mostrou que a chamada centro esquerda, de onde sairam três presidentes que governaram o país após o fim da ditadura, não se encontra em  situação muito diferente. Conseguiu 25 cadeiras, desempenho longe do confortável. 

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A Frente Ampla, que reune comunistas e outras correntes mais à esquerda, ficou com 28 assentos.   Embora uns e outros possam dar as mãos para propor e tentar mudanças consideradas relevantes, esta  unidade também estará longe da maioria numérica de dois terços.  

Tanto aqueles que tem interesse em preservar uma herança marcada pela influência de Augusto Pinochet, como aqueles que tentarão fazer mudanças, serão obrigados a buscar apoio entre os independentes -- expressão que designa um total de 65 eleitos, de todas as matizes que se possa imaginar e mesmo fora da imaginação política convencional. 

Heterogenea e em grande parte desconhecida,  a nova força da política chilena emergiu de uma fatia específica do eleitorado. 

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Não só abomina a herança de Pinochet, mas mantém a devida distância a política de Concertação que elegeu três presidentes de centro esquerda após o fim da ditadura, como Eduardo Frei, Ricardo Lagos e Michele Bachelet.  

Há quatro décadas, quando as sociedades humanas viviam outro período histórico, a vitória de Salvador Allende tornou-se o centro das atenções de lideranças e militantes latino-americanos. 

Na época, Santiago tornou-se o destino de visitas prolongadas de uma juventude de vários países do Continente, que ali enxergavam uma alternativa às ditaduras sufocantes instaladas em seus próprios países.  

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É cedo para saber se o mesmo efeito irá se produzir em 2021 mas já convém prestar atenção ao que se passa naquele país. 

Produto de uma mobilização de caráter insurrecional, a energia política que reescreveu a  história chilena a partir da luta nas ruas de 2019 trouxe um espírito combativo e uma recusa a programas de conciliação pelo alto que não foram capazes de oferecer respostas à altura a questão central da sociedade chilena de nossos dias -- a desigualdade. 

Este é o enigma a ser decifrado pelo Chile no próximo período. A eleição criou um novo momento político e abriu alternativas, que não podem ser exageradas nem minimizadas.  

Alguma dúvida? 

(Quem assistiu a entrevista da socióloga Laís Abramo no Boa Noite 247 sabe a importância de sua contribuição para a elaboração deste texto. Deixo aqui meus agradecimentos).

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

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