Protelações

Todo ano é a mesma coisa. Jura que não deixará para a última hora. Os cretinos mudam anualmente o formulário para a declaração de Imposto de Renda só pelo prazer de aporrinhar

Protelações
Protelações (Foto: LUIS MACEDO)

Todo ano é a mesma coisa. Jura que não deixará para a última hora. Os cretinos mudam anualmente o formulário para a declaração de Imposto de Renda só pelo prazer de aporrinhar.

Taxar as participações nos lucros dos empresários nunca lhes ocorre. Querem mesmo é ferrar com os assalariados.

De hoje não passa, como o título do livro do Edu Goldenberg e do Júlio Bernardo que leu de enfiada na madrugada anterior.

Sabadão, acordou de ressaca e, como sempre que tinha uma tarefa inadiável, com mania de organização. Olhou as roupas no armário, deu preguiça. Abriu e fechou rapidamente aquela pesada gaveta entupida de tralhas onde enfia tudo aquilo que não sabe onde guardar. Tá louco? Nem pensar. Espiou a despensa. Um dia arrumará aquela zona. Hoje não.

Tomou café. Foi ao demorado banho. Fez a barba, fio-dental semanal, cotonetes, voltou ao chuveiro para retirar o excesso do xampu tonalizante, preto de cabelos brancos fica com cara de Pai Tomás, gargarejou, e seguiu com vontade de arrumação, naquela sua catártica, onanista, incontornável pulsão pela postergação. Cortou as unhas dos pés e das mãos. Tudo para adiar o que tinha para fazer.

Olhou a pilha de CDs. E desolhou. Para que arrumar, se não serão mais ouvidos? Coisa antiga, anacrônica, depois do espotifái. Teve vontade de pelo menos fazer voar os da Nana Caymmi, do Fagner, do Djavan e do Alceu Valença. Deu preguiça, não merecem nem isso. Olhou os sapatos. Excessivos. Está na hora de se livrar da maioria deles. E das camisetas desbeiçadas.

Fumou na varanda enquanto caçava com o que tergiversar. Nada. Organizaria o nada. Super fácil. Pronto. E a vontade não passou.

Perdeu tempo no Instagram e no feice. Taí. Organizará mentalmente os políticos com mandato e algumas celebridades.

O Boulos e o Wyllys não combinam com o PSOL. São de esquerda. Vão para o PT. O Ciro põe aonde? No DEM. É a cara dele. A Manu, pós-moderna, vai para o PSOL. Quem mandou querer lacrar criticando o apelido de tchutchuca? Merece o castigo. Os que sobraram no PSDB e no MDB? Deixa de lado por enquanto. Requião, no PT. Aquela turminha de pragmáticos petistas põe junto com a turma do PSDB e do MDB. Os do PDT é melhor dividir, metade para o DEM, metade para o PSB. Não existe mesmo, que suma do mapa. E o que fazer com os do PSB fornido de pedetistas? Faz um partido novo. Não aquele. Outro. E põe nele também os do PTB. E os do Partido Novo? Deixa lá junto com o PSDB, MDB e os pragmáticos do PT.

Pensando melhor, junta todos do PSDB, do MDB, a direita do PSB e enxerta com os pragmáticos do PT, uns gatos-pingados do PDT que não colocou no DEM, completa o balaio com o PTB, o Novo e ainda sobra espaço.

E o PSOL? Parte coloca no PSTU. O moralismo de esquerda merece ser aglutinado em um partido puro, trotskista, daqueles que não coligam, não negociam, limpinho e cheiroso como o PPS, cheio de funcionários públicos. E a esquerda do PSOL coloca lá junto com o PT, a esquerda do PSB e do PDT, e o PCdoB. E o Freixo? Sei lá. Fica onde ele achar mais fácil se reeleger. É o jeito dele. E o REDE? Existe ainda? Acho que sumiu junto com a Marina.

O que fazer com aquela penca de partidecos da bancada bolsonara? Junta todos e coloca também o DEM com Ciro, com tudo.

Pronto. Ficou bonito. Três frentes partidárias. A bolsonara de Direita, sob a liderança do Onyx para o Ciro dele divergir. Não sobrevive sem polemizar; a de Centro, com os partidos tradicionais sob a liderança de algum cacique do PSDB ou do MDB; e a Frente de Esquerda, com uns 40 e tantos deputados atuais do PT mais o Boulos e o Jean Wyllys, parte do PSB e do PDT, com o PCdoB, com a esquerda do PSOL e com os políticos de centro-esquerda dos demais partidos. Na eterna oposição a tudo e a todos, representando as pautas identitárias e o moralismo barnabé, os troskos, só por farra, forçados a conviver uns com os outros. Divertiu-se.

Pensou melhor ainda.

Esparramou o tabuleiro político, cansou de brincar de lucidez e coerência. Abriu uma cerveja e foi arrumar aquela gaveta onde enfia tudo o que não sabe onde guardar. Muito mais fácil, e útil, concluiu.

A declaração do Imposto de renda ficará para o próximo final de semana.

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