PT 40 anos – Os desafios do presente

"Apesar do PT no governo promover políticas que permitiram a ascensão social de diversos segmentos mais pobres faltou consolidar a adesão popular a um novo projeto de nação", escreve o professor e ex-deputado Chico Alencar (PSOL-RJ)

Militância e bandeira do PT
Militância e bandeira do PT (Foto: PAULO PINTO)

Por Chico Alencar

(artigo originalmente publicado no site A Terra é Redonda)

Virtudes originais

“A vida começa aos quarenta”, dizem: experiência acumulada nos daria o instrumental para, amadurecidos, lidar melhor com os desafios da existência. Para as efêmeras organizações partidárias no Brasil, atingir quarenta anos é raro – a maioria morre precocemente, por artificialismo. Completar essa idade vale no sentido de renovação – ou mesmo refundação, em certos casos.

Em 1995, compus um samba muito ruinzinho, salvo pela melodia que o Dudu Botelho, compositor da Acadêmicos do Salgueiro, colocou. Um dos versos dizia: “o PT faz anos, eu canto, afinal partido aqui não dura tanto…”. Eu militava na legenda e completávamos quinze anos.

O samba amador era precário mas continha alguma verdade. A história dos partidos políticos no Brasil é relativamente recente. Legendas de caráter nacional, com algum escopo doutrinário, só surgiram entre nós depois do Estado Novo, com a democratização de 1945 – à exceção do Partido Comunista, que, fundado em 1922, sobreviveu entre perseguições e clandestinidade. E de movimentos como a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Libertadora (ANL), nos anos 1930, versão aqui, com suas singularidades, da ascensão do nazifascismo e das frentes populares de resistência da Europa.

Antes, o que tínhamos eram ajuntamentos de interesses, sem organização e estatutos programáticos, como o “Partido Brasileiro” e “Português” à época da Independência, os assemelhados “Liberal” e “Conservador” do Império, os partidos republicanos localistas da República Velha. Eles eram expressão de nuances ou da disputa entre setores da mesma classe dominante.

O Partido dos Trabalhadores, nascido em 1980, há 40 anos, foi uma novidade no padrão costumeiro: veio das praças para os palácios, não era pacto de elites políticas. Uma novidade também na esquerda: nasceu criticando as experiências autoritárias e burocráticas do “socialismo real”. Afirmava-se comprometido com os interesses populares e com a organização dos despossuídos. Não queria ser mera legenda para prélios eleitorais, não queria mera delegação, não aceitava substituir a cidadania consciente, e sim representá-la e animá-la.

Anticapitalista por definição, o PT propunha uma sociedade onde as relações sociais seriam de cooperação, onde o interesse público prevaleceria sobre os do mercado, onde a diversidade se afirmaria sobre a uniformização consumista (inclusive do pensamento), onde a relação com a natureza fosse de integração, onde o trabalho se viabilizasse como direito de todos à realização pessoal e social

O socialismo do programa do PT só o seria se fosse obra de milhões, combatendo todas as desigualdades de classe. E as discriminações de gênero e de etnia. Um partido igualitarista, libertário, crítico e criativo. Com esse ethos cresceu e ganhou influência.

Graças à essa nitidez se tornou, até hoje, o partido mais reconhecido no cipoal de legendas de fantasia, a despeito da maré montante da antipolítica. Segundo todas as pesquisas de opinião, depois do avassalador “nenhum” (em torno de 70 a 75%), o partido que tem mais simpatia entre a minoria que prefere algum ainda é o PT.

Pedras no caminho

O crescimento da inserção do PT na institucionalidade trouxe contradições. Parte expressiva de sua cúpula foi perdendo o zelo por práticas que apoiassem e estimulassem os movimentos sociais, associativos, culturais e sindicais, sem intrumentalizá-los. Com o PT alcançando evidência parlamentar e conquistando governos, setores de suas direções deixaram de considerá-lo ator entre outros atores, com diferentes papéis e um texto de elaboração coletiva a ser encenado – em diversos cenários públicos – no teatro social: o da construção de um novo sistema, vale dizer, de um novo modo de pensar e agir na política. O hegemonismo petista avultou.

O PT, ocupando espaços crescentes na máquina estatal, reduziu sua dimensão de partido pedagógico. Pedagógico é aquele fala às massas, interage com elas, conversa cotidianamente com o povo. Partido pedagógico que – e este é um desafio para todas as organizações de esquerda – reelabora sua linguagem e, desburocratizado, dá significado coletivista e potência política às inquietações e anseios populares, que estão no coração e nos poros de cada militante. Partidos educadores que aprendem a utilizar os novos instrumentos da tremenda revolução na comunicação que a internet trouxe, sem querer domesticar a rebeldia – tragicamente canalizada conjunturalmente pela extrema-direita (não só no Brasil).

O PT construiu uma bela interface da aproximação dos movimentos sociais com a inserção nos espaços institucionais. Isso se refletiu nas políticas sociais que desenvolveu quando no poder central, com Lula e Dilma. Faltaram as reformas estruturantes, democratizantes, profundas. Do Estado, da política, do sistema tributário, da terra, com viés ecológico, da urbi, confrontando a especulação. Do modelo econômico.

Justamente quando enfrentou o maior desafio de sua história, o de ser governo da República, o PT se enredou num ambiente de ambiguidades, perda de referências e até esquecimento de princípios: implementou medidas que nunca proclamou em campanha, fez alianças – como é imperativo na política – sem estabelecer fronteiras éticas, por mero pragmatismo. Houve uma espécie de “corrupção programática”. O ex-ministro e ex-governador da Bahia, atual senador Jaques Vagner (PT/BA), reconheceu publicamente que o PT se “lambuzou” na corrupção sistêmica, estrutural, antiga de quinhentos anos – que a direita vitoriosa hoje viraliza como tendo sido inaugurada pelo petismo.

O saudoso Chico de Oliveira (1933-2019) definiu como uma “nova classe” um grupo dirigente nascido na era petista: capitalista moderado, formado por ex-dirigentes sindicais e profissionais da política que, a partir dos fundos de pensão, das instituições financeiras e dos aparelhos do Estado, transformou-se em gestor do mercado e mediador das tensões políticas em favor da institucionalidade conservadora. Falar em “nova classe” me parece um exagero, mas merece consideração o fato de que um estamento da “nomenklatura” petista, longe da militância de base, adaptou-se à dinâmica do sistema, arrefecendo o combate às suas mazelas.  

Do Sul, onde a identidade programática petista sempre foi forte, vem a crítica de Olívio Dutra e Tarso Genro, reconhecidas lideranças, que já ocuparam o governo do estado e a prefeitura da capital, além de ministérios nacionais. Tarso diz que o PT “não pode ser hegemônico pré-datado”, inclusive nas instâncias partidárias (onde ele, Tarso, quase sempre foi marginalizado, por sua postura mais crítica e independente). Enfatiza a urgência – que vale para toda a esquerda – “de se aprender a falar com este novo mundo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede”.

Tarso vai além: “não adianta prometer se renovar e pregar a restauração da CLT. Os processos de trabalho foram fragmentados e hoje há autônomos, horistas, PJs, precários, intermitentes… Trata-se, neste caso, de organizar outro sistema público protetivo que envolva esses crescentes excluídos das legislações trabalhistas (…) Além de absorver demandas da tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual”. Arremata, cutucando todas as forças progressistas: “estamos falando em vão, com formas discursivas que amplos setores da sociedade não prestam mais atenção”.

O escuro e as luzes do futuro

A tendência é que o PT siga sendo uma sigla razoável de voto, ainda que um tanto “peemedebizado”. Seu afastamento do poder talvez revitalize seu rigor com a ética pública, seu compromisso com o trabalho de base e até – quem sabe? – a sua mística socialista. Há demandas de sua militância nessa direção.

O PT foi um marco histórico na esquerda brasileira que não conseguiu, no governo, democratizar radicalmente as relações de poder e enraizar, no imaginário popular, a política como protagonismo cidadão que melhora a vida das pessoas. Nascido para encantar, gerou, em vários setores, diferentes graus de desencanto. Mas também é inegável que trouxe avanços. Diante do desmonte das políticas sociais e de continuadas manifestações de truculência, ojeriza aos pobres e ignorância do poder agora controlado pela extrema-direita, cresce também uma espécie de “saudosismo” da era petista, em especial dos governos de Lula… Só que o imperativo para não ter desastre fatal é olhar para a frente, e não se consolar com o retrovisor.

Jogado na vala comum dos demais grandes e médios partidos, com muitos dos quais fez aliança eleitoral e de governo, o PT viu crescer um “antipetismo” que tem forte caráter reacionário, elitista, preconceituoso. Que mal disfarça uma rejeição às políticas que permitiram a ascensão social de diversos segmentos mais pobres. Com o PT, setores populares chegaram às prateleiras do consumo, da linha branca, dos automóveis. Faltou a consolidação de uma nova consciência política e cidadã. Faltou também consolidar a adesão popular a um novo projeto de nação, que o assistencialismo ou uma liderança carismática, por mais brilhante que seja e genialidade intuitiva que tenha, não garantem.

O Partido dos Trabalhadores, como qualquer outro que se queira mudancista, tem que entender as mudanças que o tempo promove: sua base operária não é mais, nem numérica nem qualitativamente, a mesma dos anos 1980. A sociedade brasileira mudou muito nos últimos 40 anos! Diversas funções foram extintas e categorias como a metalúrgica e a bancária – para citar dois exemplos – sofreram drástica redução. Hoje o “precariado” avulta, e o “acolhimento neopentecostal”, com forte inserção popular e viés conservador, se amplia. A esquerda não tem conseguido dialogar com esses fenômenos sociais.

Outro fato para análise do “quarentão”: jovens com 18, 20 e 25 anos só conheceram o PT do poder federal, com todo o desgaste que ser governo traz. O poder político, que não é todo o poder, ilude e acomoda. A esquerda custou a reconhecer a crise de participação e mobilização – da qual também é vítima. Partido político não será mais “a vanguarda do proletariado”, muito menos o “guia genial dos povos”. Ele continua fundamental, mas há novas formas de representação e expressão. Qualquer transformação social profunda só acontecerá se promovida por uma miríade de movimentos, que tenham um polo de convergência, hoje inexistente.

O desafio do momento é buscar, solidariamente com todas as outras formas organizativas da sociedade, inclusive as não tradicionais, ligadas às artes e religiões, modos e meios de superar a apatia e o desinteresse pelos rumos da sociedade. Reencantar em torno de projetos coletivos.

Não se faz autocrítica dos outros. Mas que essa boa tradição da esquerda precisa ser revitalizada, em todas as organizações progressistas, lá isso precisa. Seria socialmente útil, e tão importante quanto constituir uma frente democrática, progressista, antineofascista. Para, com ela e com a humildade de quem recomeça, redescobrir os endereços do povo.

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