Público é para quem fracassou e privado é para quem venceu?

O alto escalão da classe média passou a perder sua distinção social do povão, que era primeiro ter um diploma de universidade pública, e com isso poder ter o serviço da empregada doméstica por pouco mais de nada ainda mantendo o ar de caridoso, de estar “ajudando a pobrezinha”. O que foi mexido aqui é uma herança muito pesada e incômoda.

(Foto: ABr)
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Por Aline Rodrigues e Igor Corrêa Pereira - Este texto surge de um bate papo de um servidor público de uma Universidade com uma professora de escola estadual, os dois saudosos das atividades presenciais, mas completamente convencidos do isolamento social, importante registrar. A conversa versava sobre comer no restaurante universitário, e foi se desenrolando no papel da merenda em escolas. O que vai aqui escrito não pretende generalizar, parte de experiências pessoais, visões particulares, sem correr o risco em generalizações. Vamos partir de dois exemplos, dois causos, um citado pela professora, outro citado pelo servidor, os dois sobre o papel da alimentação pública em seus locais de trabalho. 

O primeiro causo tem a ver com um episódio comum numa escola pública do interior de São Paulo. Um aluno se queixa de estar com muita fome, já chegando perto do fim do dia letivo. A professora intrigada pergunta porque o aluno não comeu a merenda da escola, ao que ele responde não gostar do sabor, fazendo cara de desdém. A comida é mesmo sem sabor ou o aluno acha que comer merenda é assinar atestado de pobreza, de fracasso, assumir o vergonhoso estatuto de ser usuário da assistência social? Essa é a pergunta que a professora faz para si mesma. 

O segundo causo é sobre a utilização do Restaurante Universitário de uma instituição pública da cidade de Porto Alegre. A quem serve esse restaurante?  Financiado pela assistência estudantil, prevaleceu o entendimento que servidores técnico-administrativos e docentes  que o utilizassem seriam de alguma forma indevidamente usuários de uma verba destinada a estudantes carentes. Seria até mesmo antiético, sem contar que também seria de certa forma uma vergonha social. Tanto é que recentemente os servidores passaram a ter que pagar o valor integral para fazer suas refeições no Restaurante Universitário. 

O que podemos refletir das duas histórias, o que elas têm em comum? Elas nos expressam valores, visões de sociedade, o papel do que é público no imaginário coletivo, no senso comum. Entendemos aqui o senso comum aquilo que é reproduzido sem um grande pensamento, aquilo que é naturalizado e reproduzido pela maioria das pessoas sem que se faça maiores reflexões ou questionamentos. É senso comum que um serviço público de alimentação como a merenda escolar ou o restaurante universitário seja destinado a estudantes carentes, marginalizados, pobres. Portanto, comer a merenda ou no bandeijão universitário carrega uma certa vergonha, da qual pouco se fala mas muito se sabe. As pessoas tentam até disfarçar essa vergonha com alguns argumentos supostamente desvinculados disso, como por exemplo alegar que é uma comida de baixa qualidade, sem sabor, mal preparada, pouco saudável, etc. Mas será isso mesmo? 

A alimentação em escolas e universidades muitas vezes tem parâmetros de qualidade superior a restaurantes privados por uma razão muito simples. Enquanto que a alimentação pública obedece a normas de saúde, e tem fornecimento diário, tudo o que não é utilizado num dia, geralmente é descartado. É muito mais difícil haver reaproveitamento de alimentos de um dia para o outro. Já no restaurante privado, ingredientes velhos muitas vezes são reutilizados, mascarados com truques para parecer novos, porque o proprietário do estabelecimento visa o lucro, que seria reduzido com desperdício de ingredientes. Então, se for fazer uma comparação criteriosa, muitas vezes a alimentação de um restaurante privado pode até falhar mais em critérios de higiene e conservação de alimentos do que um público. Então, a ideia de que comer em lugares públicos é comer com baixa qualidade é muito mais do domínio do preconceito, da ideologia, do que baseado em evidências da realidade. 

Nós temos uma noção de que o público é destinado ao pobre, ao que não tem dinheiro. Portanto, ser usuário de uma alimentação pública é assinar um atestado de pobreza, de carência. Da mesma forma, é ser usuário de serviços públicos de saúde. Representa um sinal de ascensão social ser usuário de restaurantes privados, de saúde privada, de previdência privada e até mesmo e sobretudo a privatização do lazer. Esse pensamento é comum mesmo e sobretudo em servidores públicos, que muitas vezes enxergam como um elemento de distinção social a possibilidade de utilizar serviços privados, mesmo que para isso, tenham que se submeter a longas, extenuantes e adoecedoras jornadas de trabalho, entregando uma parte preciosa de seus tempos de vida para poder pagar esses supostos privilégios. 

A intenção aqui não é ser fiscal de comportamento de ninguém, mas promover a reflexão livre, cada um com sua consciência. O que estamos observando é uma sociedade do desequilíbrio, da abundância da escassez. Em nome dessa divisão entre um seleto grupo que pode pagar por serviços privados e uma massa de desvalidos que é objeto de serviços públicos alegadamente ruins, estamos observando de um lado uma pequena porção de trabalhadores extremamente explorados, que trabalham quase sem descanso, enquanto que uma multidão cada vez maior de precários, marginais, subempregados, desempregados, sem nenhuma perspectiva. Poucos têm empregos com alguma condição trabalhista formal, e para isso pagam o preço alto de jornadas adoecedoras, altamente fatigantes, e ainda não raro se consideram numa posição de privilégio por supostamente serem melhor remunerados, ou seja, vencedores de acordo com a perspectiva neoliberal de que somos livres para vendermos nossa força de trabalho pelo máximo tempo possível, e assim “ganhar a vida” . Quem vive de perto o cotidiano de hospitais, universidades, escolas, sabe o quanto profissionais da saúde e da educação trabalham num ritmo alucinante. Por qual motivo? Enquanto isso, tanta gente sem emprego. Não é justo, e todos sofrem, quem está empregado e quem não está empregado...

Retomando a pergunta inicial desta pequena reflexão. Público é para quem fracassou e privado é para quem venceu? Essa divisão quantas vezes é feita sem que sequer pensemos sobre ela, mas simplesmente naturalizemos como um dado da natureza. O vento venta, a chuva chove, e público é para quem fracassou, enquanto que privado é para quem venceu. Se isso é correto, as universidades públicas seriam da elite por quê? Por que a elite quer estudar na universidade pública? Quando a filha da empregada doméstica ingressa na Universidade Pública, estruturas de privilégio foram mexidas. O alto escalão da classe média passou a perder sua distinção social do povão, que era primeiro ter um diploma de universidade pública, e com isso poder ter o serviço da empregada doméstica por pouco mais de nada ainda mantendo o ar de caridoso, de estar “ajudando a pobrezinha”. O que foi mexido aqui é uma herança muito pesada e incômoda. Nosso passado escravista assombra com seus fantasmas essa relação de uma pequena elite cultural formada pelas universidades, essas classes médias urbanas que foram se amarrando com compromissos demais ao andar de cima.  

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