Putativo

Apequenou-se. Um bastardo implorando pelo reconhecimento de um pai inventado que só tinha olhos para seus filhos biológicos a quem chamava por números. Nem todos, apenas os varões.

 

Sempre foi descontadinho das ideias. Feio, baixinho, orelhas de abano. A voz, aguda e desafinada, lhe rendeu o ornitológico apelido. Um caipira, semianalfabeto que teve sorte.

Circunstacialmente conseguiu uma posição onde podia exercer seus micropoderes com certa dose de desequilibrada psicopatia e passou a ser admirado por outros medíocres, com contornos de devoção, como ele.

Enfim, falto de virtudes, por acaso, virou celebridade envergando a arrogância dos vaidosos. E ali começou sua desgraça.

Apequenou-se. Um bastardo implorando pelo reconhecimento de um pai inventado que só tinha olhos para seus filhos biológicos a quem chamava por números. Nem todos, apenas os varões. A menina, resultado de uma fraquejada, não foi distinguida com esse carinho paterno.

O xodó do velho era o 01, sucessor nas relações com a milícia. O 02 foi presenteado com um emprego no exterior, bom menino que estuda história e relações internacionais pelo YouTube; o 03 é problemático, muito confuso, mas que família não tem um meio alopradinho? Já o 04, um garanhão que ficou com todas as meninas do condomínio do traficante de armas onde moram.

Abanando o rabinho emplumado fica ciscando, marreco que é, mendigando afagos, sem se preocupar com os coleguinhas aluados, nem com a pervertida - crente do baixeiro quente - que se excita com a ideia de crucifixo na vagina, nem com o terraplanista, nem com os demais bizarros de seu convívio.

Mesmo às vésperas de ser desossada, a triste figura decadente segue bajulando o pai por adoção, implorando para ser reconhecido como o 05. Acompanha-o aos jogos do Flamengo, copia-lhe os gestos e o estilo. Uma coisa deprimente, vergonhosa, mas nem liga. Quer deixar de ser bastardo.

O orelhudo que prefere camisas negras é digno de pena, mas não se importa, soberbo. Tem a convicção de que ele, que quer ser adotado, gerou o pai venerado. Haverá de ser reconhecido. Pai é quem cria.

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