Quando é preciso pôr um fim ao relacionamento
E então vem a pergunta que não quer calar: se o filme já estava praticamente pago, por que tanta preocupação em conversar pessoalmente com Vorcaro?
A imprensa só fala sobre isso. Parece existir um fetiche em torno do término de relacionamentos de famosos. Não, não estou falando sobre o fim do namoro entre o jogador de futebol e a influencer. É sobre o casamento entre o clã Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Relacionamento, aliás, que já teve de tudo: lua de mel financeira, troca de favores quase sexuais, presentes milionários e, claro, aquele velho romantismo de quem descobre que o amor verdadeiro também pode vir em PIX. Mas agora, ao que parece, a relação entrou na fase da DR. E não qualquer DR: uma daquelas "olho no olho", no melhor estilo novelesco, com direito à visita domiciliar ao tornozelado mais famoso do sistema financeiro nacional.
A cena tem algo de folhetim das nove misturado com episódio de "Os Sopranos". Depois de o patriarca do clã ter entregado ao banqueiro um verdadeiro dote - um banco turbinado, relações políticas privilegiadas e um ambiente regulatório amigável -, eis que surge o rumor de crise no matrimônio. O conto de fadas do chamado "BolsoMaster" parece ter sido atropelado pela inconveniência das investigações da Polícia Federal.
E então vem a pergunta que não quer calar: se o filme já estava praticamente pago – como declarado pela própria produtora -, por que tanta preocupação em conversar pessoalmente com Vorcaro? Ora, ninguém atravessa o país para visitar um banqueiro em prisão domiciliar apenas para discutir enquadramento de câmera ou roteiro de campanha. Muito menos um senador presidenciável que, convenhamos, não costuma desperdiçar a agenda.
Talvez tenha sido uma visita de cortesia. Quem sabe um gesto humanitário. Um "como vai essa tornozeleira?". Ou então uma tentativa de salvar o que restou da união estável entre o bolsonarismo raiz e o sistema financeiro camarada. Porque, quando a Polícia Federal começa a puxar o fio, muita gente percebe que o amor era menos ideológico do que patrimonial.
O curioso é observar como o discurso moralista da extrema-direita brasileira sempre acaba tropeçando em pilhas de extratos bancários. São pessoas que passam anos berrando contra corrupção, mamata e "velha política", mas que parecem desenvolver uma irresistível tara por banqueiros generosos, operadores discretos e empresários de coração aberto - especialmente quando precisam financiar filmes, campanhas, narrativas patrióticas ou vidas nababescas nas terras de Tio Sam.
A visita de Flávio Bolsonaro ao banqueiro também desmonta aquela velha tese de que tudo não passava de amizade casual. Porque amizade casual não exige reunião reservada em meio a investigações explosivas. Isso já entra na categoria de terapia de casal. E uma terapia complicada: de um lado, um banqueiro acuado; do outro, um senador tentando impedir que o ex-parceiro resolva abrir o álbum de memórias do relacionamento.
No fim das contas, o "BolsoMaster" talvez entre para a história como o casamento arranjado mais caro desde o Império. Um enlace em que o dote foi público, os benefícios foram privados e a fidelidade durou apenas até a chegada dos mandados judiciais.
E como toda relação desgastada pela desconfiança, resta agora o medo da separação litigiosa. Porque, em Brasília, muita gente aguenta crise política, denúncia e até operação policial. O que ninguém suporta é ex-aliado ressentido com acesso a documentos, conversas e lembranças comprometedoras.
Afinal, no amor e na política, o problema nunca é o começo do romance. O perigo sempre aparece quando alguém resolve contar como a história realmente aconteceu.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




