Quando o mito vira réu

Acostumado a usar a tribuna do plenário da câmara para vociferar que não tem medo de perder o mandato e para mandar recados, sempre ofensivos e quase sempre desrespeitosos, aos seus adversários políticos, o aprendiz de ditador vai precisar se reinventar

Brasília - Deputado Jair Bolsonaro (PSC/RJ) durante sessão de discussão do processo de impeachment de Dilma, no plenário da Câmara (Wilson Dias/Agência Brasil)
Brasília - Deputado Jair Bolsonaro (PSC/RJ) durante sessão de discussão do processo de impeachment de Dilma, no plenário da Câmara (Wilson Dias/Agência Brasil) (Foto: Nêggo Tom)
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Em tempos de performances pseudos libertárias e outros tipos de manifestações, digamos pouco inteligíveis, um "artista" consegue se destacar dos demais e se manter um longo tempo sob os holofotes, fazendo do seu personagem um ícone da dramaturgia política brasileira. Sem papas na língua, chegado a uma polêmica, defensor de ideias radicais e de comportamento explosivo, certamente ele alavancaria a audiência de qualquer reality show televisivo, mas talvez nunca fosse o campeão da disputa. Por que? Porque ele só está ali para criar polêmica. Essa é a sua função. Nada mais.

Se você pensa que estou falando do deputado Jair Bolsonaro, você acertou. O intérprete do personagem "O mito" talvez seja o político mais performático e o mais convincente na arte de atrair admiradores através da falácia, que já vimos por aqui. Os seus seguidores certamente chamarão, a mim e a qualquer outra pessoa que se recuse a vê-lo como o Darth Vader do congresso nacional, de analfabeto político, de vagabundo, de esquerdista, de comunista, de bolivariano, de beneficiários de bolsa família e etc de baboseiras. Isso a gente já sabe! O que eu gostaria de saber, agora que o STF o indiciou como réu por apologia e incitação ao estupro, é, qual e como será a nova performance política do arquétipo de Hitler?

Acostumado a usar a tribuna do plenário da câmara para vociferar que não tem medo de perder o mandato e para mandar recados, sempre ofensivos e quase sempre desrespeitosos, aos seus adversários políticos, o aprendiz de ditador vai precisar se reinventar. Como mito, ele se coloca e admite que os seus seguidores o coloque, acima do bem do mal. E como réu? Temos casos emblemáticos na nossa teledramaturgia, de grandes atores que não convencem interpretando personagens diferentes dos habituais. Ser pedra é bem mais cômodo do que ser vidraça, mas todos nós já estivemos dos dois lados algum dia. A diferença é que quando não jogamos pedra na vidraça dos outros, temos boas chances de ninguém jogar na nossa.

Revendo o vídeo de 2003, onde o deputado discute com a também deputada Maria do Rosário, percebo o quanto o povo brasileiro está carente de bons exemplos na nossa política e estendo a crítica à deputada envolvida no caso. Ela interfere, sem ser convidada, na entrevista que Bolsonaro concedia a uma emissora de TV. No mínimo falta de educação e bons modos de sua parte. Mas o que se sucede é muito pior, se tratando de um parlamentar que almeja assumir a presidência do país. Ao dizer que não estupraria a deputada por ela não merecer e chamá-la de vagabunda, Bolsonaro explicita a sua falta de decoro, não só parlamentar, como também moral.

Já em outra entrevista, ele reafirma e acrescenta que "Ela não merece ser estuprada porque é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece." Se isso não é apologia ao estupro é o que? A falta de bom senso no uso das palavras expõem a ignorância dos arrogantes e daqueles que julgam que as dominam muito bem. E como todo arrogante que se preza, a justificativa para limpar a caca expelida pela boca é contextualizar o que foi dito, chamando assim de idiota todos aqueles que entenderam de forma diferente, o que só poderia ser entendido dessa forma.

Ah! Mas ela o ofendeu primeiro. Ele apenas revidou. Ok! Esse é o argumento usado por todos que escondem a sua verdadeira face, para externar, num momento de raiva, o que está internalizado dentro de si. O racista no meio de uma discussão chamaria o seu opositor de macaco e depois justificaria dizendo que foi ofendido primeiro, quando na verdade ele apenas usou a discussão como pretexto para expressar o que ele normalmente pensa e reprime no seu dia a dia. Não que Bolsonaro seja um estuprador. Não é. Mas a estupidez e a infelicidade de suas palavras, infelizmente, não admitem outra interpretação. Deu a entender que se justifica o estupro de uma mulher bonita. Um postulante a presidência da república não pode ser tão imprudente e inconsequente em suas declarações.

Se condenado, pode ficar inelegível. O que não seria nada ruim para a sociedade e poderia se aplicar da mesma forma, a deputada vítima no processo e a muitos outros políticos que defendem causas duvidosas e que não visam o bem estar de toda a coletividade. Ao que parece ele já começou a baixar o tom. Em entrevista concedida após a decisão do STF, percebe-se um mito abatido e incrédulo com a situação na qual se encontra. Jamais poderia imaginar que fosse indiciado. Logo ele, o arauto da moralidade nacional, a salvação da pátria, o resgate da ordem e da decência. Sem perceber, pediu clemência ao STF e por tabela a todas as mulheres que se sentiram ofendidas com suas palavras, o que me fez avaliar que ele fica melhor no papel de lobo mau. Como vítima não convence.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos dessa novela. O ator não me parece muito a vontade com o seu novo personagem. Os críticos estarão atentos a sua atuação. Os fãs estarão prontos para lhe oferecer o Oscar, seja qual for o seu desempenho. A justiça se encarregará de escrever o final dessa história. O certo é que o mito, hoje é réu e caso não saia bem dessa fita, terá pela frente o papel mais difícil da sua carreira. O de condenado. E tudo indica que esse será o seu destino, a não ser que ele tire um novo coelho da cartola. Sem performance.

Tchau, mito!

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