Quantos Ítalos ainda precisarão morrer de maneira violenta?

A impressão que uma tragédia dessas nos causa é que fracassamos enquanto civilização e também na tentativa de construir um Estado

A impressão que uma tragédia dessas nos causa é que fracassamos enquanto civilização e também na tentativa de construir um Estado
A impressão que uma tragédia dessas nos causa é que fracassamos enquanto civilização e também na tentativa de construir um Estado (Foto: Beth Sahão)

Em meio à enorme turbulência que toma conta da vida pública do país, tornou-se quase consenso, entre os brasileiros, dizer que atravessamos tempos sombrios. Alguns poderão alegar que esse olhar é pessimista, porém, fatos concretos de extrema gravidade vêm a confirmar a ideia.

O episódio ocorrido no início de junho e que resultou do garoto Ítalo Ferreira de Jesus Siqueira, de 10 anos, faz com que passemos a questionar as próprias bases da sociedade brasileira.

A impressão que uma tragédia dessas nos causa é que fracassamos enquanto civilização e também na tentativa de construir um Estado. A intenção, aqui, não é prosseguir com o debate insano que se seguiu ao ocorrido – se o menino mereceu ou não o destino que lhe foi infligido pelos policiais, discussão que é mais um exemplo da completa falta de empatia que toma conta de uma parcela da população -, mas, sim, abordar as causas que levam um garoto de 10 anos de idade a ser lançado em uma situação de violência extrema.

Quando analisamos a curta trajetória de Ítalo, identificamos inúmeras tragédias, grandes e pequenas, antecessoras da maior que lhe ceifou a existência. A começar pelo histórico de vulnerabilidade que marcou sua vida familiar.

Por onde andavam as autoridades e o poder público, enquanto Ítalo convivia com todo tipo violência e abandono no próprio lar? O mesmo podemos questionar em relação aos abrigos públicos que o receberam, por conta das passagens dos pais pela prisão.

Em tese, esses locais deveriam oferecer formação e apoio, capazes de garantir um futuro à criança vulnerabilizada. Sem querer incorrer em falsas generalizações – pois sabemos que há abrigos e instituições socioassistenciais que realizam um trabalho sério e competente -, o que vimos, no caso de Ítalo, foi o completo fracasso desse sistema.

A pergunta que nos atormenta é esta: quantos Ítalos ainda precisarão morrer de maneira violenta, até que o Estado brasileiro passe a tratar as crianças e adolescentes como prioridade?

Não faz muito tempo que, aqui em São Paulo, vimos uma intensa mobilização de estudantes da rede estadual, que foi impulsionada, justamente, pela insana decisão do governo de fechar escolas e salas de aula.

Se, oficialmente, o governo de Geraldo Alckmin afirma ter desistido da ideia, o fato é que centenas de salas vêm sendo desativadas nos últimos meses, na capital e no Interior. O que se esperar, portanto, de um Estado que fecha escolas, enquanto milhares de adolescentes e crianças são jogados em salas de aula lotadas, com 40 ou até 50 alunos?

O que se esperar de um Estado em que até a compra da merenda escolar se torna objeto de esquemas espúrios de corrupção e desvio de dinheiro público? Que futuro estamos oferecendo às novas gerações?

É muito simples para as autoridades ficarem com malabarismos retóricos e discussões inúteis e hipócritas acerca da responsabilidade do menino nessa tragédia. Tudo isso serve apenas para camuflar as reais causas do problema, que estão na omissão da sociedade e do poder público em oferecer formação, apoio e boas perspectivas às crianças e adolescentes, especialmente os que vivem em situação de vulnerabilidade.

Enquanto não tivermos a coragem e a decência de encarar o verdadeiro debate e adotar ações concretas para combater as causas que conduzem meninos de 10 anos ao mundo do crime, não conseguiremos superar a situação de descrédito que acomete o Estado e as instituições republicanas. Estaremos condenados a vagar nas sombras da dúvida e do autoengano, banhados no sangue dos que se perderam por culpa de nossa omissão.

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