Que história o general quer contar

Colunista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, comenta a entrevista concedida pelo general Augusto Heleno, chefe do GSI, ao jornal Valor Econômico; "Um dos mais próximos conselheiros de Bolsonaro fez afirmações alarmistas, talvez com o intuito de tocar o terror na população e, assim, usando o medo como arma, ampliar o "apoio" que ele acha que a população deu ou tem dado ao presidente da República"

Que história o general quer contar
Que história o general quer contar (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - Em entrevista ao Jornal Valor nesta terça-feira 28, o general Augusto Heleno, comandante do Gabinete de Segurança Institucional e um dos mais próximos conselheiros de Bolsonaro, fez afirmações alarmistas, talvez com o intuito de tocar o terror na população e, assim, usando o medo como arma, ampliar o "apoio" que ele acha que a população deu ou tem dado ao presidente da República.

Para ilustrar esse "apoio" usou as "manifestações". Eu prefiro chamar de "desfile de culto à personalidade". Em sua opinião, os atos contaram com um "número significativo" e "nada desprezível" de brasileiros. E justifica: "Pelo que vi pelas fotos, tem muita gente. Muito acima do esperado", afirmou a um site da "República de Curitiba Editora".

Acontece que ao Jornal Valor o general disse também que a imprensa mente, ao tentar justificar falhas do atual governo. Ainda assim, ele se submeteu a uma entrevista para a imprensa. Ou ele considera o Jornal Valor um boletim oficial? E se baseia, pelo visto, em fotos desta mesma imprensa, para acreditar no sucesso das "manifestações. A esta altura é preciso voltar ao general e perguntar em qual imprensa ele acredita e que fatos coloca em dúvida. Do contrário, sua fala soa incoerente.

Talvez por isto - esta sua "desconfiança" na imprensa -, ou pelo fato de ter sido chefe de gabinete do general linha dura Sylvio Frota (o que tentou derrubar o ditador Geisel, por estar querendo promover uma abertura lenta e gradual) é que ele costuma ser áspero com os/as profissionais de mídia quando abordado por eles/elas. Um hábito que trouxe dos tempos de arbítrio. Talvez.

Ao comentar o que considera doutrinamento feito por professores nas escolas, sacou do bolso do terno (ou seria da farda?) um exemplo do desabastecimento de gêneros básicos – arroz e feijão - sofrido pela população, pelos idos do ano de 1962, para justificar o golpe dado em Jango em 1964. Ao relembrar este fato, disse que ele é propositalmente escondido pelos historiadores. Não é não general. O senhor é que anda lendo livros equivocados. Ou talvez nem os leia. Talvez prefira confiar na sua memória do rapazote de 16 anos que era, quando passamos por aquilo.

Para o meu livro: "Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe – 1962/1964", entrevistei senhoras da Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE). Sim, general. Fui à fonte. Colhi depoimentos daquelas que foram para as ruas com rosários às mãos. E sabe o que elas contaram, general? Que iam a reuniões com empresários, com produtores, por orientação do general Golbery do Couto e Silva, o criador do Ipês, para combinar qual dos dois gêneros sumiria naquela semana: se o arroz ou o feijão. E sabe com que objetivo? Sublevar a população contra o governo.

Entrevistei um funcionário da Light. Este, infelizmente, não quis bancar em "on" a sua fala, e por isto não entrou no livro. Ele me contou que recebia um "por fora", dos golpistas, para desligar, às 19h, a luz na Urca, em Copacabana e em outros bairros de classe média. Assim, as mulheres de oficiais e generais não podiam ver "O Direito de Nascer", a novela que encantava corações das senhorinhas, na época. Com qual história o senhor prefere ficar, general? Eu prefiro a minha. Sabe por quê? Ela teve desdobramentos que podem ser comprovados.

Esse "modelo" de articulação golpista foi exportado para o Chile de Salvador Allende. Lá, com o "incentivo" da CIA, os caminhoneiros fizeram uma greve de meses, forçando o desabastecimento. E, tal como foi feito aqui, os empresários estocavam alimentos. Só que os chilenos eram um pouco mais politizados e não se deixavam guiar pela imprensa golpista. Metiam o pé-de-cabra nos armazéns trancados e colocavam os produtos à venda, com preços suportáveis, para os que não estavam conseguindo comprar.

O senhor disse também em sua entrevista que Bolsonaro não encontrou dinheiro em caixa por culpa das "pedaladas" do PT. Alô, general. Michel governou dois anos. Esqueceu? E sabe por que os senhores não encontraram dinheiro em caixa? Porque o dinheiro o Michel usou para comprar os deputados, a fim de barrar os seus processos e não sair do palácio algemado. A história é assim, general. Uma obra aberta...

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