Que país temos após a crise?

Sem dúvida a conjuntura foi alterada, forças sociais entraram em cena; A eleições de outubro ainda permanecem uma incógnita, o ponto central segue sendo Lula e a falta de opções dos setores golpistas; O governo se mantém, mas já não existe.

Brasília - O presidente Michel Temer e o presidente da Petrobras, Pedro Parente participam da divulgação do Plano de Negócios e Gestão 2018-2022 da Petrobras (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília - O presidente Michel Temer e o presidente da Petrobras, Pedro Parente participam da divulgação do Plano de Negócios e Gestão 2018-2022 da Petrobras (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) (Foto: Maister F. da Silva)

Fazer qualquer balanço definitivo neste momento é simplesmente impossível. A crise ainda não está encerrada, mesmo que a tendência já seja de retorno a "normalização", ou o que signifique "normal" nesse país em transe.

Porque o governo golpista sobreviveu?

- Desde o início da crise - que teve como centro as políticas neoliberais e a entrega da Petrobras para o capital financeiro - o governo deixou claro que, tanto o atual presidente da Petrobrás Pedro Parente, quanto a política de reajustes, que atende somente os "acionistas" internacionais, seriam mantidos. Ao que tudo indica, caso a crise de fato colocasse em xeque a existência do governo, muito mais provável seria a saída de Temer do que a de Pedro Parente.

- Tratou-se de uma disputa pelo espólio econômico do Estado e, em segundo lugar, de uma disputa pela direção política do projeto golpista vigente.

- Nenhuma das forças desafiantes ao governo apresentou um projeto alternativo. Mesmo os pedidos de intervenção militar e seu pseudo patriotismo, que se alastraram e ganharam base social, não tocaram em nada central da política econômica atual. As frações burguesas do golpe em sua maioria, aparentemente, ainda apostam no processo eleitoral que legitime seu projeto. A proximidade das eleições torna mais proveitoso o desgaste a médio prazo

Quais os problemas que permanecem?

- O motivo da greve/locaute. A política de preços não pode ser alterada sem que mude o governo. Ela é parte do projeto antinacional.

- Ficou clara a contradição do projeto neoliberal liderado por Temer. Num contexto de crise econômica não é possível manter uma política de austeridade e, ao mesmo tempo, manter base de apoio da burguesia interna. O capital financeiro deixou claro em que margens a burguesia interna pode atuar, demonstrou de modo cristalino que este é o SEU governo.

- Outras questões que atingem mais diretamente a vida cotidiana, como gás e gasolina, simplesmente permanecem como estão, com aumentos permanentes. Continua em aberto o espaço que pode ser ocupado pelos setores progressistas. Quem vai pagar a conta desse acordo em que o governo se comprometeu, de modo escandaloso, a continuar drenando riqueza nacional para o capital financeiro? E os impactos das perdas bilionárias oriundas da paralisação? As contradições já existentes se acentuaram e outras surgem como consequência da crise.
Como fica a direita?

- Os setores fascistas saíram mais uma vez com sua tática de desestabilização. Ainda não está claro se desde o início possuíam a força que demonstraram a partir do dia 24/05 (quando arrastaram a paralisação e setores da sociedade para a pauta da intervenção militar) ou se de fato foram crescendo ao longo dos dias. O fato é que saíram vitoriosos. Vão permanecer ativos no próximo período e tendem a ser ativos não só até as eleições, mas também no próximo governo.

- A simbologia nacionalista da ultra direita não encontra correspondência na política econômica entreguista que ela defende. A esquerda pode tirar grande proveito desta contradição: como defendem a pátria e ao mesmo tempo permitem a entrega das riquezas nacionais, a privatização da Petrobrás, entre outras coisas? Como defendem os trabalhadores e ao mesmo tempo negam pautas que melhorem a vida destes? Não é um debate novo, porém, cada vez mais se mostra urgente.

- Se de início a postura de setores como a mídia, da direita, inclusive o próprio governo, foi de apoio, no final foram praticamente obrigados a denunciar a escalada intervencionista e saíram em defesa das eleições. Por mais que saibamos que estes setores golpistas não respeitam nem democracia e nem eleições, não se pode negar que, neste momento, tal defesa se faz importante.

Como fica a esquerda?

- Ficou presa no debate entre locaute ou greve. A princípio não compreendeu que seu papel era disputar na sociedade, e não a paralisação em si (como não houve uma tentativa real de apoio ou disputa é impossível afirmar se havia ou não espaço para os setores progressistas). Alguns setores agora dizem "eu avisei", outros lamentam a falta de disputa. O fato é que houve poucas iniciativas que não foram suficientes para a disputa que se apresentava. É fato que o conservadorismo era presente na paralisação, assim como é em tantas outras categorias, mas até onde se sabe é exatamente a tarefa da esquerda politizar e conquistar tais setores.

- Mostrou que tem dificuldade em agir fora de contextos e situações já conhecidas. Além disso, tem base social organizada limitada e encontra limitações para agir em conjunturas onde horas e dias são decisivos. Teme se arriscar nas águas turvas da luta de classes, como se esperasse sempre uma categoria organizada e com horizonte de esquerda para daí poder apoiar.

E os militares e setores de segurança?

- Estes claramente fizeram jogo duplo. Apesar dos anúncios bombásticos do uso da força pelo governo, em muitos lugares foi visível, literalmente, o apoio das forças de segurança. A demora do alto comando das Forças Armadas em negar de modo firme os pedidos de intervenção militar também ficou visível. Entretanto, não se consegue definir se há um apoio amplo em toda a hierarquia ou se é difuso e com mais peso nos setores de patente baixa. Ainda que componham com o governo, também flertaram com o golpismo, fizeram seu teste de até onde possuem apoio popular

- As forças militares se consolidaram como força política e com potencial para se tornar um "poder moderador" dos demais poderes da República. Não fazem questão de esconder sua falta de apreço com este governo. Porém, também parece que não querem se arriscar numa aventura golpista.

Para onde vamos?

Sem dúvida a conjuntura foi alterada, forças sociais entraram em cena. A eleições de outubro ainda permanecem uma incógnita, o ponto central segue sendo Lula e a falta de opções dos setores golpistas. O governo se mantém, mas já não existe. Não cai porque um novo arranjo neste momento é inviável. Os setores fascistas saíram à luz do dia e ganharam seu espaço. A esquerda ficou atordoada. A inquietação social, o desespero de um país que se esfacela, são combustíveis para novas explosões sociais. Devemos estar preparados!

Lula Livre!

Fora Temer e Pedro Parente!

Por eleições livres e Democráticas!

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