Queda de Macri mostrou pés-de-barro do Estado Mínimo

"Depois de fazer da promessa de crescimento econômico a prioridade da campanha de 2015, Macri acabou derrotado em seu próprio terreno, numa disputa na qual uma população empobrecida e humilhada por cortes nos serviços públicos e tarifas cotadas em dolar, não teve dificuldade em saber quais eram as opções em debate. Se o último mandato de Cristina foi marcado por dificuldades e oscilações na economia e mesmo divisões entre aliados, o desempenho de Macri foi ainda pior", diz o colunista Paulo Moreira Leite

"Eleito com a promessa de recuperar economia argentina, o naufrágio de Macri mostra um desempenho pior no crescimento, na inflação e no nível de emprego", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia. "

O colapso de domingo permite definir o governo de Maurício Macri como um típico gigante com pés de barro -- incapaz de resistir aos testes eleitorais típicos das democracias.

Antes que Macri pudesse terminar quatro anos de mandato, o eleitorado argentino aproveitou as primárias para chamar de volta os representantes  de um projeto político que governou o país entre 2003 e 2015, agora encarnado por Alberto Fernandez-Cristina Kirschner.

Colocado numa rabeira de 15 pontos atrás dos primeiros colocados, margem difícil de ser compensada em qualquer pleito, em qualquer parte do mundo, a prioridade do atual presidente é tentar crescer de qualquer maneira nas próximas semanas para evitar o vexame inesquecível de uma derrota no primeiro turno.

Mesmo reconhecendo que o resultado das urnas pode ser  tão imprevisível como o sexo dos bebês antes da descoberta do  ultrasom, a dificuldade aqui é clara. A experiência concreta da população argentina, que perdeu renda e direitos ao longo dos anos, dificilmente será apagada da memória do eleitorado num prazo tão curto.

Uma noção clara dessa situação  foi a vitória de Axel Kicillof, a face econômica do kirschnerismo, na Provincia de Buenos Aires, com 49,34% dos votos, contra 32,56% de Maria Eugênia Vidal, uma espécie de Tábata Amaral no atual debate político do país. Estigmatizado pelo conjunto da mídia adversária, Kicillof cravou uma vantagem consagradora entre os trabalhadores e a população pobre.

Depois de fazer da promessa de crescimento  econômico a prioridade da campanha de 2015, Macri acabou derrotado em seu próprio terreno, numa disputa na qual uma população empobrecida e humilhada por cortes nos serviços públicos e tarifas cotadas em dolar,  não teve dificuldade em saber quais eram as opções em debate. Se o último mandato de Cristina foi marcado por dificuldades e oscilações na economia e mesmo divisões entre aliados, o desempenho de Macri foi ainda pior.

Mesmo em taxas modestas, o PIB cresceu em três dos  quatro anos de mandato de Cristina. Com Macri, o desempenho se inverteu: um único ano de crescimento e três de recessão. No governo de Cristina, a inflação anual oscilou entre entre 24% e 38,5%. Com Macri, no ano menos ruim a inflação ficou em 24,8% e por três vezes superou a marca dos 40%, batendo em 47,8% em 2018. O desemprego com Cristina ficou entre 7,2% e 6,5%. Com Macri, entre 8,5% e 9,2%. Incapaz de atingir suas próprias metas de austeridade, Macri entregou a administração da economia ao FMI, entidade que faz parte dos grandes pesadelos econômicos da América Latina. 

Sabemos que a reta final das campanhas eleitorais é um terreno fértil para o jogo sujo, em qualquer parte do mundo e não se pode descartar qualquer iniciativa dos derrotados de domingo para enfraquecer a chapa vitoriosa.

A compreensão de quem foi prejudicado em suas principais necessidades e reivindicações constitui o principal obstáculo para Macri tentar uma virada na campanha, porém. A rejeição ao atual governo não é fruto de truques de marketing dos adversários mas tem como base a experiência própria da população, que sentiu na própria pele o desastre do novo governo. Nenhum presidente consegue reeleger-se sem conseguir mostrar a que veio -- e essa é a grande dificuldade de Macri, antes e daqui para a frente.

Essa dura realidade dos regimes democráticos  ajuda a entender a reação de Jair Bolsonaro diante da catástrofe de seu principal aliado na região. Nos últimos meses o presidente brasileiro fez questão de oferecer o ombro amigo para o colega vizinho, deixando claro que tinha um interesse vital na derrota de Alberto Fernandez-Cristina.

Após o resultado, reagiu com frases descontroladas e agressivas, numa postura própria de quem não fora capaz enxergar uma tragédia que se avizinhava.

Considerando as óbvias semelhanças entre os dois governos, irmanados pelas ideias, pela subordinação a Washington e pelo programa de Estado Mínimo, é óbvio que o desastre Macri diz respeito, também, ao futuro de Bolsonaro. 

Incapaz de apresentar qualquer boa notícia para a maioria dos brasileiros, o ministro Paulo Guedes evita até fazer promessas. Admite que será preciso aguardar entre "um ou dois anos" pela melhora da economia.

Neste contexto, o verdadeiro horizonte de Bolsonaro é acompanhar o colega argentino num abraço de náufragos.

Alguma dúvida? 

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