Quem com Temer fere, com Temer será ferido

"Li com certa perplexidade a confissão de Dilma de que seu grande erro foi fazer uma grande aliança com o PMDB, entregando a vice-presidência da República a Michel Temer", diz o colunista Alex Solnik; "Desconhecer a história do PMDB é inadmissível. Se ela não sabia deveria ter perguntado a Lula, que é de São Paulo e, desde a fundação do PT entendia que o maior adversário do partido era o PMDB"

Brasília - A presidenta Dilma Rousseff e o vice-presidente, Michel Temer, participam da solenidade onde recebem os cumprimentos de oficiais-generais no Clube do Exército (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Brasília - A presidenta Dilma Rousseff e o vice-presidente, Michel Temer, participam da solenidade onde recebem os cumprimentos de oficiais-generais no Clube do Exército (Antonio Cruz/Agência Brasil) (Foto: Alex Solnik)

Li com certa perplexidade a confissão de Dilma de que seu grande erro foi fazer uma grande aliança com o PMDB, entregando a vice-presidência da República a Michel Temer.

   Vá lá que ela não conhecesse o passado de Temer, já que ele é de São Paulo e ela é mineira que se criou no Rio Grande do Sul.

   Vá lá que ela não soubesse que, quando foi secretário da Segurança Pública de São Paulo, durante a ditadura militar, Temer teve que lidar com bandidos como o maior bicheiro paulista, Ivo Noal e com contrabandistas de uísque importado para boates que estavam na moda.

   Mas desconhecer a história do PMDB é inadmissível. Se ela não sabia deveria ter perguntado a Lula, que é de São Paulo e, desde a fundação do PT entendia que o maior adversário do partido era o PMDB.

   É imperdoável Dilma não saber, antes de fechar com o maior partido do país que ele se tornou o maior partido por ter herdado os grotões do eleitorado que um dia foram da Arena, o partido da ditadura militar, depois intitulado PDS.

   Quando, em 1985, Sarney, o oportunista, renunciou à presidência do PDS para migrar-se para o PMDB e assim assumir a vice-presidência de Tancredo trouxe com ele esse eleitorado dos grotões e as práticas fisiológicas do partido da ditadura militar.

   Juntou-se com outros notórios fisiológicos, como Orestes Quércia, em São Paulo, Jader Barbalho, no Pará, Chagas Freitas, no Rio de Janeiro e com eles criou um grande partido dividido em dois. A outra metade era a do PMDB autêntico, comandado pelo impoluto Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas.

   Enquanto Ulysses esteve vivo, embora tivesse que conviver com Quércia, de quem disse um dia “ruim com Quércia, pior sem Quércia”, os peemedebistas autênticos batiam no peito e diziam: não sou do partido do Quércia, não sou do partido do Sarney; sou do partido do Ulysses.

   Os autênticos sempre foram minoria no PMDB, eram o que sobrou do MDB, mas, quando Ulysses morreu essa minoria ficou menor ainda. E o PMDB fisiológico, de Sarney, de Barbalho e de Quércia não parava de crescer.

   Antes de fechar com o PMDB, Dilma deveria saber que o primeiro governo do PMDB, o de Sarney, foi uma catástrofe; deveria saber que o governo de Quércia quase faliu o estado para eleger seu sucessor, Fleury, vendendo a torto e a direito, e sem critério, estatais como a Vasp, para notórios fora-da-lei e liquidando impiedosamente o Banespa.

   Ela deveria saber, ao menos, que o PMDB foi a grande pedra no sapato do governo Lula e que foi para ter o partido ao lado do governo que se criou a aventura fisiológica que ficou conhecida como “mensalão”, que foi a única fórmula encontrada por José Dirceu para iniciar o projeto petista de diminuir as desigualdades entre ricos e pobres no Brasil.

   Mas ela ignorou a história e permitiu que o PMDB entrasse com tudo em seu governo, dando-lhe os melhores e mais rentáveis ministérios e deu no que deu.

   O PMDB fez o que fez, avançou nos cofres públicos e a culpam sobrou para o PT.

   O pior, no entanto, é que o PSDB está repetindo o erro de Dilma, tendo já conhecimento de tudo o que o PMDB é, como age e como agiu no governo de Dilma.

   O PSDB conhece o PMDB de longa data. Quando Quércia chegou à presidência do partido, os maiores líderes de São Paulo, com exceção de Ulysses, caíram fora para não serem confundidos com ele. Fundaram o PSDB.

  Não poderão dizer, portanto, mais à frente, que não sabiam com quem estavam lidando.

   Temer é o herdeiro de Quércia na presidência do PMDB. Herdou todas as suas práticas e as suas práticas ficaram escancaradas depois que ele morreu, pois deixou herança bilionária cuja origem jamais foi e jamais será explicada.

   O PSDB usou Temer para tirar Dilma do poder, depois de ter perdido as eleições e também as acusações de fraude eleitoral, depois de a contagem de votos ter confirmado a reeleição de Dilma.

   Perdeu o discurso da fraude, mas embarcou na fraude armada pelo mais atrevido e ousado peemedebista de toda a história, chamado Eduardo Cunha, tornando-se sócio num processo de impeachment que não resiste a 15 minutos de análise jurídica.

   O PSDB associou-se para derrubar Dilma e agora se associa ao governo Temer.

   Não poderá alegar, mais tarde, que não sabia quem era ele e o que era seu partido.

   Não poderá alegar que ele abriu as portas dos principais ministérios destinados ao PMDB para as mais tenebrosas transações, como a Lava Jato está revelando ao país.

   Não poderá alegar que não conhecia a personalidade de traidor que Temer revelou ao abandonar Dilma à sanha de conspiradores e aderir freneticamente à conspiração.

   O PSDB imagina, vai ver, que Temer vencerá o impeachment, terá dois anos de governo que será um desastre, como já se antevê, e em 2018 finalmente seu candidato, seja Serra, Aécio ou Alckmin receberá a consagração das urnas, contando, para isso com o apoio do PMDB.

   O PSDB imagina que o PMDB vai retribuir, daqui a dois anos, o apoio que está recebendo agora.

  Pobres e iludidos tucanos! Como diz aquela comédia de sucesso, trair e coçar é só começar.

  Em pouco tempo, o PSDB poderá inspirar outra peça de teatro cujo nome poderá ser “Quem com Temer fere, com Temer será ferido”.      

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