Quem é contra a união das esquerdas?

O Estado brasileiro é fraco, raquítico. Por isso, a História do Brasil é uma longa sequência de golpes de Estado. A besteira liberal de um Estado mínimo desconhece a história e a política brasileiras. Não entendem que justamente pelo Estado brasileiro ser historicamente mínimo é que tivemos, desde a primeira constituinte, em 1824, uma sucessão de golpes que começa com Dom Pedro I e chega até o último golpe

Manifestantes com faixa contra o golpe durante Protesto Fora Temer realizado no Centro Cívico em Curitiba, PR.
Manifestantes com faixa contra o golpe durante Protesto Fora Temer realizado no Centro Cívico em Curitiba, PR. (Foto: Heraldo Tovani)

Eu sou!
O Ciro Gomes também é.
O Lula é.
O Reinaldo Azevedo, baluarte da direita, também é.
O PSDB, o DEM, os fisiológicos do PMDB, os partidos nanicos de centro e direita, todos são.
O Bradesco, FIESP, Itaú, a Folha, Santander, FEBRABAN, Rede Globo, a Isto é, a Ambev, Votorantim, Pão de Açúcar, OAS, Odebrecht… são todos contrários à união das esquerdas.

Por motivos distintos e variados, muitos são contra a união das esquerdas.

Para os representantes do capital, as razões parecem obvias: quanto mais unidas, mais fortes as esquerdas serão. Aqui valem-se da máxima antiga de “dividir para dominar”.
Obvio, também, que os partidos contrários apostem na divisão, para enfraquecer as esquerdas, nos embates eleitorais.
No caso do Reinaldo Azevedo, o debate é mais divertido. Ele, na sua verborragia ferina, chama de “vigarista intelectual” àqueles que propõem uma frente ampla das esquerdas.

Boba e superficial, como a maioria das crônicas direitistas, as palavras do Reinaldão só ficam na aparência e desprezam completamente a essência. Fala de “oportunismo”, “de uma falácia que serve para alimentar a pregação de mistificadores” e repete uma afirmação que venho assistindo em vários discursos da direita: que os discursos da esquerda são atrasados e antigos. Esquecem, ou desconhecem que o discurso liberal, que eles defendem como atual e inovador, é anterior à própria Revolução Francesa, é anterior à tomada do poder pelo capitalismo e serviu de base sobre a qual Marx formulou suas críticas, quase um século após. Atrasados e antigos são eles!

O Lula, com todas as pesquisas eleitorais para 2018 colocando-o como o favorito, aceita uma união de esquerda, desde que seja em torno de seu nome. No jogo eleitoral, essa posição é lógica, compreensível e aceitável. Mas, só no jogo eleitoral.
Ciro Gomes alega incompatibilidades teóricas sobre os princípios macroeconômicos para o Brasil para recusar a união das esquerdas. Se as incompatibilidades estão nos princípios, como haver união sobre os meios e fins?

A pobreza de toda essa discussão é desconcertante.
Carece de fundamento, carece de direcionamento, carece de povo.

Não queremos uma união das esquerdas para formar um grupo de amigos, para simplesmente arregimentar votos. Uma união dessas até mesmo o Dória, em um hipotético segundo turno contra Jair Bolsonaro, conseguiria. Vide o que aconteceu nas últimas eleições da França.

Vamos falar da união das esquerdas?
Antes de qualquer coisa, porém, é necessário responder a uma questão básica: união em torno de quê?
A união é o resultado da confluência dos ideais sobre um determinado ponto programático, caso contrário, é simples fisiologismo.

Se quisermos fugir do fisiologismo precisamos de um projeto.
Para muito além das questões eleitorais, o que se faz prioritário para todos os brasileiros que estão no campo do TRABALHO, em oposição ao campo do CAPITAL, é a construção de um projeto de Brasil.
Vale dizer, um projeto de Estado.
Um projeto para pelo menos 50 anos.

Um projeto que responda e aponte, a princípio, para as seguintes questões:

Como construir um projeto que acabe com a corrosiva concentração de riquezas no Brasil?
Como construir, desenvolver e direcionar um projeto industrial brasileiro, um projeto nacional de educação, um projeto nacional de cultura? Como construir um projeto, explorar, investir e dividir os recursos do Pré-Sal? Como preservar nossas riquezas naturais e como preparar o Brasil para as catastróficas consequências das alterações climáticas globais? Como garantir e perenizar nossa soberania nacional? Como fortalecer e preservar nosso Sistema de Seguridade Social? Como erradicar a miséria, o analfabetismo? Como alcançar o saneamento básico universalizado em nosso país? Como melhorar e ampliar o atendimento nacional à saúde? Como reorganizar a Polícia Militar e como dar às polícias uma função democrática de prestadora de serviços de interesse ao cidadão e não somente de força repressora e opressora da população pobre? Como desalienar, educar e politizar principalmente a nossa juventude? Como garantir a universalização do acesso ao salário e renda? Como desenvolver a cidadania? Como barrar a criminosa ganância do sistema financeiro? Como radicalizar a democracia? E outras questões centrais e estruturais do país.

Um projeto de país exige um Estado robusto e forte para defendê-lo e impulsioná-lo.

O Estado brasileiro é fraco, raquítico. Por isso, a História do Brasil é uma longa sequência de golpes de Estado. A besteira liberal de um Estado mínimo desconhece a história e a política brasileiras. Não entendem que justamente pelo Estado brasileiro ser historicamente mínimo é que tivemos, desde a primeira constituinte, em 1824, uma sucessão de golpes que começa com Dom Pedro I e chega até o último golpe, sobre Dilma Rousseff, passando pelo golpe da maioridade, de D. Pedro II; da Regência; do trabalho escravo, abolido do dia para a noite; da quartelada que proclamou a República, em 1889; do golpe de Getúlio Vargas, que implantou o Estado Novo, até o seu suicídio, que barrou um novo golpe em andamento; do golpe militar de 1964….

Sem contar os pequenos golpes cotidianos à Constituição, desde a sua promulgação, em 1988. Ao contrário do que propagandeiam os conservadores liberais, um Estado forte não é um Estado ditatorial, centralizador ou propenso necessariamente à corrupção. Um Estado forte deve ser entendido como um permanente defensor e mantenedor dos direitos constitucionais. Deve estar acima dos poderes que o compõem, deve defender a isonomia dos poderes constituídos e garantir que o poder seja exercido em nome do povo, soberanamente.

O Estado brasileiro é fraco porque não tem, como objetivo de sua existência, um projeto de Brasil. Um projeto soberano que tenha sido forjado na luta, na história e na cultura do povo brasileiro. Um projeto popular de Brasil.

É justamente porque o Estado brasileiro é fraco que vivenciamos o atual desmonte do Estado de Bem Estar Social, no Brasil.
Justamente por não termos um projeto popular de país é que prevaleceu o projeto “Ponte para o Futuro”: esse contrato pobre e nefasto firmado entre Michel Temer e as elites nacionais, que avalizou seu plano de tomada do governo.

A união das esquerdas só se justifica programaticamente. Só se justifica com o fim maior de redigir um Projeto popular de país, que conte com ampla participação da sociedade civil organizada em centrais sindicais e sindicatos, faculdades, associações, OAB, ABI, CNBB, FGV e outras e que seja respaldado por um amplo debate com participação nacional.

Somos contra a união das esquerdas.
Somos radicalmente favoráveis à união das esquerdas com o Brasil.

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