Quem patrocina o racismo institucional pode ser referência na luta antirracista? O Carrefour responde

Em entrevista a Istoé, Diniz, que é um dos principais acionistas do grupo, condenou a violência cometida contra João Alberto, a que ele chamou de “uma tragédia e uma enorme brutalidade”

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Imagine um empresário que tenha financiado a campanha presidencial de um candidato racista, desses que compara negros a animais, calculando o seu peso em arrobas, declarando que a sua empresa será referência na luta antirracista. Você acha crível? Pois bem! É jogando aviõezinhos de dinheiro, no maior estilo Silvio Santos, que Abílio Diniz, um dos membros do conselho de administração do Carrefour global e do Carrefour Brasil, pretende limpar a mancha de sangue que ficou impregnada na logomarca de sua empresa.

Após o assassinato de João Alberto Freitas, cometido por dois seguranças da rede e sob orientação de outra funcionária do supermercado, a empresa desandou a publicar notas nos principais veículos de comunicação, informando que estará revertendo o seu faturamento para movimentos anti racismo e se engajando em causas sociais que visem combater o preconceito racial no Brasil. Na visão colonialista dos “donos de baús” da elite brasileira, o dinheiro compra tudo. Até a dignidade da existência de toda uma etnia.

Em entrevista a Istoé, Diniz, que é um dos principais acionistas do grupo, condenou a violência cometida contra João Alberto, a que ele chamou de “uma tragédia e uma enorme brutalidade”, e disse que pretende fazer do Carrefour “um agente transformador na luta contra o racismo estrutural no Brasil” Ele também classificou o racismo como “execrável e inaceitável”, tal como o comportamento do presidente que ele ajudou a eleger, à frente do cargo que ocupa. Esse grifo é meu e de outros milhões de brasileiros.

Nesta declaração, percebe-se o quanto a elite econômica do país subestima a capacidade de raciocínio, daqueles que estão na base da pirâmide. Ao mesmo tempo em que financia o racismo e a perpetuação da estrutural desigual que favorece aos seus negócios, elegendo um governo comprometido com o empresariado e com a manutenção dos privilégios da branquitude dona do capital, Abílio Diniz foi capaz de manifestar a face mais cruel de um racista, dizendo que vai fazer do seu abatedouro de carne preta, uma referência no combate ao racismo no país. A dissimulação.

Um racista dissimulado pode matar mais pretos, do que todos os seguranças do Carrefour juntos. E ainda vai ao enterro, beija a viúva e paga todas as despesas do féretro. Ao sair do funeral, já está pronto para matar mais um preto e recitar o discurso de condolências que carrega no bolso do paletó. Pode soar radical, mas não consigo fazer outra leitura mais otimista, quando lembro que o mesmo empresário investiu em Bolsonaro – o mesmo que disse que quem gosta de pobre é o PT - por acreditar que ele traria paz e unidade para o país. O que o faria mudar de ideia tão radicalmente? A morte de um preto que não poderá ser.

O mito da igualdade e da democracia racial está sendo substituído pelo mito da mudança estrutural. E haverá quem caia em mais esse conto de uma noite de remorso, escrito pelos responsáveis por todo o suor e sangue pretos, que estampam as logo marcas de boa parte das empresas do país. Nenhum desses grandes empresários têm o real interesse em romper com essa estrutura que racializa pessoas, não só pela cor da pele, mas também pela condição social, porque é justamente essa estrutura que garante o seu grande lucro. É através da exploração de uma mão de obra racializada, onde os pretos possuem a menor remuneração, que os seus impérios se alicerçam e se expandem.

Se João Alberto não tivesse morrido, será que o Carrefour estaria pensando num branding voltado para o combate ao racismo? Outros crimes contra pretos já foram cometidos dentro das dependências da rede e não houve nenhuma manifestação nesse sentido. Na verdade, a morte de um preto dentro de uma das suas lojas, não gera comoção alguma para o conselho diretor da empresa. O que gera, é uma grande apreensão diante dos prejuízos financeiros e institucionais que a repercussão do caso pode causar. Business e compaixão não harmonizam na melodia capitalista. Empatia é uma nota dissonante na escala financeira das grandes corporações.

A mudança estrutural que precisamos fazer, não pode ser feita por aqueles que defendem a manutenção desse sistema racista e moedor de pobres, patrocinando a eleição de representantes alinhados ao pensamento escravagista que está entranhando na elite brasileira. O racismo estrutural só pode ser combatido por quem sofre na pele e no bolso, as consequências sistêmicas que ele causa. Como? Podemos começar, por exemplo, elegendo candidatos comprometidos com essa mudança. Temos que empoderar lideranças dos chamados grupos minoritários, dando a elas cacife político para promover essa mudança.

Pretos, indígenas, mulheres, trans, coletivos periféricos e outros grupos de minoria representativa, tradicionalmente são vítimas da racialização estrutural que estabeleceu esse abismo social entre pobres e ricos. Quantas pessoas trans o Carrefour emprega? Quantos pretos fazem parte do conselho gestor da empresa? Quantos indígenas são funcionários da rede? Quantas mulheres ocupam cargos diretivos por lá? Se essas mesmas perguntas forem feitas a outras grandes empresas do país, as respostas serão dadas na mesma proporção. É a força da representatividade dos excluídos que promove mudança. E não uma paradoxal boa vontade do opressor.

Que o clamor por mudança estrutural seja o nosso mantra. E que não permitamos que vozes dissonantes tentem se infiltrar em nosso coro, fingindo que sabe entoá-lo, para provocar desarmonia. É preciso luta e resistência para derrubar toda essa estrutura.

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