Quem repassa fake news?

O advento da fake news na internet, com sua difusão entre grupos ideológicos fechados representa um paradoxo interessante. Tem servido muito mais a uma idolatria endógena desses grupos, reparando-se intensa circulação entre os ‘mesmos’, mas ostentando certa dificuldade em ‘sair’ para o mundo, ainda que o dano e o prejuízo da circulação confinada já sejam imensos

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De apenas três formas alguém pode repassar uma notícia falsa. Crença, engano ou mentira.

A crença é própria de quem ‘acredita’. Em qualquer coisa. Seja no mundo físico, seja no dos deuses. Quem se acostumou a crer, por cultura, educação ou prazer, ao receber um dado, não questiona e logo o considera correto. O filósofo Gaston Bachelard, em frase lapidar que costumo repetir, já ensinava: ‘Não se acredita porque é simples, é simples porque se acredita’, na obra Ensaio Sobre o Conhecimento Aproximado, 1928.

O crente se vê atrelado ao pensamento primário, pois que não crítico, não científico, não dotado da dúvida sistemática e não investigativo. Assim, a fake wews, dirá ele, ‘parecia’ boa, parecia correta, até ser desmontada por alguém.

Mas repare, o desmonte também poderá vir por outra crença, conhecida por ‘argumento de autoridade’. O responsável pela anulação da informação poderá apresentar um site ou uma personalidade ‘garantindo’ que aquele dado é falso e o crente, novamente, crerá.

Numa subdivisão, a crença pode ser primária ou ideológica.

Na primeira modalidade, está o crédulo no ‘dado’ em si. Ele ouve por aí, na internet, que o remédio xyz é bom para uma doença e passa a acreditar naquilo. Ele não é químico, não é médico, não é farmacêutico. Não é p. nenhuma. Apenas crê no dado. Simpatia. Em alguns casos, pura irresponsabilidade, própria dos imbecis.

Já a crença ideológica é atrelada a uma origem personalista. Um presidente arrisca que a crise econômica de 2009 é uma ‘marolinha’; um outro profetiza que a pandemia de 2020 é uma ‘gripinha’. Pronto. Para crentes idolatrantes, há o suficiente para fechar os olhos – e a própria inteligência- e acreditar doidivanasmente.

Não interessa se o dado em si vai se confirmar ou não no curso da história. A crença se dá no momento da credibilização interna, e se confirma no repasse da notícia, ao qual o agente empenhará seu próprio ‘nome’ na assunção de verdade da notícia, expondo-se a qualquer grau de ridículo. Para a atividade originária de quem crê, o que o futuro histórico e provas dirão são coisas irrelevantes. Ele pega o dado e repassa.

A crença ideológica parte de um referencialismo heterônomo, kantiano mesmo, no qual o agente não crê por uma construção sua, autêntica ou experimental, mas pela dependência que ele se permite ter e viver para com a chancela de alguém que ele respeita, ou venera. Não importa aqui uma possível esdruxularia ou não do dado em si, mas ‘quem’ o propagou. É lógico que haverá aí, obrigatoriamente, uma ardorosa sintonia ideológica que motivou a tietagem mental da crença.

Na contramão do crente ideológico, tudo e qualquer coisa que seu oponente diga, por mais racional, provado ou inteligencial que seja não será aceito. Opera-se aqui a descrença ideológica, não pela ilogicidade do dado, mas pela desconsideração da persona alheia, aí o ‘inimigo fácil’. É como se a ‘desconstrução’ de Jacques Derrida que propôs ‘não existem fatos, somente interpretações’, fosse a visão de mundo do nosso crente ideológico, na medida em que ele ‘teria o direito’ de interpretar qualquer fato. Mesmo que quase sendo um analfabeto funcional. Então tá…

Em segundo lugar, alguém pode repassar uma notícia ou um dado falso por engano. Poderia ser alguém acostumado a perquirir dados e fontes, mas, por algum engano metodológico, de cálculo etc., repassou sem verificar exaustivamente. Em alguns casos, em épocas de fake news, seria um ‘inconsequente’. O Inferno também adora essa gente.

Note-se que o crente da primeira modalidade terá como escudo uma grande teimosia para reconhecer estar diante de uma notícia falsa – isso se aceitar-. Já o incauto, da segunda, mudará de opinião em instantes, pois o engano o envergonha.

Por outro lado, a crença em si, para o crente raiz, da primeira modalidade, se lhe é motivo de orgulho. Para ele e seus iguais.

Cientistas e estudiosos seniores enganam-se, em geral em erros refinados. A ciência é feita de erros e aí está sua melhor poesia, e ao mesmo tempo sua segurança. O biólogo Richard Dawkins, na obra Desvendando o Arco-íris: Ciência, Ilusão e Encantamento, já ensina: ‘A ciência progride corrigindo os seus erros, não faz segredo do que ainda não compreende.’

O engano é próprio do ser humana, por meio da percepção teorizada do erro. Ainda que quem ‘acredite’ tente capitalizar nos erros da ciência para imprestabilizá-la, negá-la e questionar triunfalmente: ‘Está vendo? A ciência não sabe tudo’. Como se este lógica de botequim prestasse para desqualificar uma área que evolui justamente com seus erros.

Na terceira modalidade vêm os mentirosos, categoria em certa medida até interessante. Alexandre Dumas cunhou ‘Prefiro os canalhas aos imbecis. Os canalhas, pelo menos descansam de vez em quando’.

O mentiroso que repassa uma fake news tem vida curta. Deveria ter. Entre pessoas com bom senso, que perceberão a mentira, certamente terá. Estas se afastarão daquela fonte de dados ‘loucos’ e apenas desacreditarão o cismático.

Já para os crédulos ideológicos, a subespécie da primeira modalidade que busca confirmar sua alegoria ambulante em forma de mito, o mentiroso e fabricador de fake news poderá ser um alento. O mentiroso será considerado criativo e operoso para difundir dados e notícias falsas, fazendo a alegria de seguidores e ‘entusiastas’. Asseclas mentais da cepa ideológica.

A internet é um mar ilimitado de tudo. De ilicitude, construção de bombas e pedofilia, a deuses e paraísos santificados com virgens remuneratórias. Há para todos os gostos. Parece que o que ficou em xeque, então, será a escolha da fonte.

Jornalistas, cientistas, estudiosos e qualquer um que trabalhe com reprodução de dado ou informação, têm a obrigação lógica de perscrutar suas fontes, rever seus dados.

O advento da fake news na internet, com sua difusão entre grupos ideológicos fechados representa um paradoxo interessante. Tem servido muito mais a uma idolatria endógena desses grupos, reparando-se intensa circulação entre os ‘mesmos’ – uma espécie de clube de masturbação ideológica-, mas ostentando certa dificuldade em ‘sair’ para o mundo, ainda que o dano e o prejuízo da circulação confinada já sejam imensos. Ali há os mentirosos – aproveitadores em alguma medida que ‘fabricam’ o dado falso-, mas também estão os dois bolsões, o de crédulos puros e o de crédulos ideológicos, invariavelmente toda uma massa com dificuldade de pensamento crítico.

Estudo de 2018, publicado na revista Science, de Sinan Aral, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, mostraunnamed que a notícia falsa se espalha 70% mais rápido que a verdadeira.

Certamente o crente repassador de fake news se apavora, se impressiona, adota teorias conspiratórias – mesmo que visivelmente estapafúrdias-. E reproduz qualquer coisa que lê.

O mesmo Gaston Bachelard citado acima, agora na obra A Formação do Espírito Científico, circunscreve as 3 almas: a alma pueril ou mundana; a professoral; e a com dificuldade de abstrair e de chegar à quintessência.

Os dois crentes aí são o perfeito exemplo da alma pueril, ‘animada pela curiosidade ingênua, cheia de assombro diante do mínimo fenômeno instrumentado’.

Sendo que qualquer tipo de estupidez com notícia, em épocas de internet, é desgraçadamente danoso. Principalmente se se considerar uma mortífera pandemia.

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