Reagir ao liberalismo é um ato civilizatório

O Brasil caminha a passos largos para uma condição insustentavelmente excludente. Desde a supressão da democracia, em 2016, há em curso o processo de construção de um sistema com uma ainda maior concentração de renda nas mãos de, no máximo, 25% da população

(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)

Somente com ruas absolutamente tomadas é que o Brasil voltará a ser dos brasileiros. Sem reação popular, o açambarcamento do País e a miserabilidade da maioria da população serão o fim da possibilidade civilizatória brasileira. Sem medo de errar ou de ser exagerado, o Brasil caminha a passos largos para uma condição insustentavelmente excludente. Desde a supressão da democracia, em 2016, há em curso o processo de construção de um sistema com uma ainda maior concentração de renda nas mãos de, no máximo, 25% da população, e o abandono de quem não tem o que comer, onde morar, onde trabalhar, se transportar, estudar, ter lazer. Enfim, um modelo social no qual se assume que a brutal desigualdade brasileira é um fato tacitamente normalizado Essa política só é possível porque os 75% permitem, devido à pouca organização para obstaculizar os meios de produção e os poderes públicos, a fim de demonstrar, de forma contundente, que não haverá retrocesso das históricas conquistas à custa de muita organização e luta da classe trabalhadora.

Em todos os campos, o governo Bolsonaro é um desastre, para o Brasil e para a classe trabalhadora, incluindo, aí, a classe média, que pensa que não é. Desde a economia, ao político, passando pelo ambiental, o presidente pode levar o Brasil a uma crise sem precedentes. Os abutres dizem que investimentos somente depois de o governo entregar todas as empresas estatais, os recursos naturais e os direitos dos trabalhadores. A biota brasileira sofre mais um ataque diante da omissão e da inoperância do Ministério do Meio Ambiente, que não tomou ainda as medidas de mitigação e para identificar e punir os responsáveis pelo derramamento de óleo que, desde o fim de agosto, emporcalham cerca de 80 municípios dos nove estados do Nordeste. A inabilidade política e a ganância de Bolsonaro pela disputa do controle de mais de R$ 200 milhões, do Fundo Partidário, produziram um racha no PSL, partido no qual é filiado, desde 2018. Por tudo e muito, Bolsonaro pode levar o Brasil ao colapso, como observou o jornal britânico, “Financial Time”.

Enquanto Bolsonaro atrai holofotes ávidos pela caricaturização do espetáculo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, acelera o processo de açambarcação do Estado brasileiro, com a entrega das lucrativas empresas brasileiras e de propriedade de toda uma nação, não de um governo. Os Correios são a bola da vez, mas as propostas de privatização do sistema Eletrobras, da Petrobras, entre outras fundamentais para a soberania já estão a caminho. Guedes usa, recorrentemente, o Chile como referência para defender as suas políticas recessivas e supressivas de direitos, também conhecidas como liberais. Pois bem, o Chile está em chamas, não apenas pelo anúncio do aumento das passagens, tampouco o Equador convulsionou-se apenas pelo absurdo reajuste do combustível. Essa é a resposta das ruas contra a intromissão do Fundo Monetário Internacional na economia dos países. A reação popular desnuda a condição de um brutal desnível social, resultado das mesmas políticas aplicadas por Guedes, no Brasil. Os equatorianos, os chilenos e os argentinos estão reagindo. O caos nas ruas do Equador e do Chile obrigou os respectivos presidentes retrocederam nos reajustes. Já os argentinos, arrependidos de eleger o candidato do mercado financeiro, apoiado, inclusive, por Bolsonaro, Maurício Macri, voltarão às políticas dos períodos Kirchner.

Todos esses países, e o Brasil, depois de um período sob governos progressistas e inclusivos, experimentaram a via do ultraliberalismo de viés excludente e fascista. O resultado foi a explosão do desemprego, da fome e da miséria. Já a Bolívia, cresce a 5% ao ano, desde 2006, quando foi instaurado o governo progressista e socialista de Evo Morales, que deve se reeleger sob um crescimento de 4%. O do Brasil será menos de 1%. Bolsonaro provoca desconfiança em empresários comprometidos com a produção de bens e serviços e também nos especuladores atraídos pela deliberada política de rapina, capitaneada pelo ministro da Economia. O patrimônio brasileiro está sendo negociado entre um ministro perdulário, entreguista e vendilhão e o mercado que deprecia o objeto em função do destrambelhado governo Bolsonaro.

O brasileiro está lidando com um Ministério da Economia que fraudou a planilha de cálculos que justificam a proposta de reforma da Previdência. Um dos erros encontrados pelo estudo, A falsificação nas contas oficiais da Reforma da Previdência: o caso do Regime Geral de Previdência Social, do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica – IE/UNICAMP, é um escândalo com poder de interromper a reforma. Uma das negligências encontradas foi o uso de cálculos da aposentadoria por idade mínima (AI) para calcular a aposentadoria por contribuição (ATC), a fim de criar um número que apontasse deficit na ATC. Esses estudos devem ser levados para análise de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.

Enfim, o Brasil vive o resultado da supressão da democracia, em 2016. A atual conjuntura foi construída por um conluio que retirou Luiz Inácio Lula da Silva das eleições de 2018. O grupo Moro/força-tarefa atentar contra a democracia, é o pior dos crimes, além de causar um prejuízo ao Brasil superior a R$ 140 bilhões, milhões de desempregados e a entrega dos recursos energéticos e das empresas brasileiras para o desenvolvimento de outros povos. Moro e a força-tarefa cometeram crime de traição à nação, mas, estranhamente, continuam em seus postos de mando. Porém, a sociedade está atenta e eles começaram a colher os frutos. A mais nova da série mostra o então juiz deferindo busca e apreensão, sem o pedido de quem é de dever e direito, o Ministério Público. Já o chefe do grupo, no Ministério Público, Deltan Dallagnol, recentemente foi vaiado e impedido de finalizar uma palestra. A grande imprensa, que cultivou a operação Lava Jato, não consegue esconder os fatos. Que essas manifestações se multipliquem e redundem em ruas tomadas nos mais de cinco mil municípios.

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