Reflexão num primeiro de janeiro de 2019

Vendo em Brasília um festival político absurdo e grotesco, não podemos ceder à facilidade de escorregar num pessimismo fácil. Pelo contrário, temos de somar-nos àqueles que, na contracorrente, procuram descobrir na frente novos horizontes, para além de aparências enganadoras

Reflexão num primeiro de janeiro de 2019
Reflexão num primeiro de janeiro de 2019 (Foto: Esq.: Marcelo Camargo - ABR)

Vendo em Brasília um festival político absurdo e grotesco, não podemos ceder à facilidade de escorregar num pessimismo fácil. Pelo contrário, temos de somar-nos àqueles que, na contracorrente, procuram descobrir na frente novos horizontes, para além de aparências enganadoras.

Sigamos nossos heróis, Quixote e Sancho, pelos caminhos da Mancha:

En esto descubrieron treinta o cuarenta molinos de viento que hay en aquel campo, y así como Don Quijote los vió, dijo a su escudero:- La ventura va guiando nuestras cosas mejor de lo que acertáramos a desear; porque ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta o poco más desaforados gigantes con quien pienso hacer batalla, ... y es gran servicio de Dios quitar tan mala simiente de sobre la faz de la tierra.

-¿Qué gigantes? dijo Sancho Panza. Mire vuestra merced,  que aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento...

-Bien parece, respondió Don Quijote, que no estás cursado en esto de las aventuras; ellos son gigantes, y si tienes miedo quítate de ahí, y ponte en oración... que yo voy a entrar con ellos en fiera y desigual batalla.

O grande poeta mexicano Octavio Paz nos adverte prudente:

¿Son molinos o son gigantes lo que ven Don Quijote y Sancho?  Ninguna de las dos posibilidades es la verdadera, parece decirnos Cervantes: son gigantes y son molinos.

Porém chega desafiante Miguel Unamuno:

Tenía razón el Caballero: el miedo y solo el miedo hacía a Sancho y nos hace a los demás simples mortales ver molinos de viento en los desaforados gigantes que siembran mal por la tierra.

Será indispensável deixar de lado uma situação medíocre e minúscula, para recuperar a ambição dos grandes espaços e dos reais enfrentamentos com ‘desaforados gigantes’ do sistema dominante.

Lenta mas firmemente, há que desvendar práticas vitais alternativas e somar-nos a elas, na construção de outros caminhos ‘portadores de futuro’. Estão nas mãos daquelas ‘minorias abraâmicas’ que ia anunciando nosso Hélder Câmara.

E assim, olhando com distanciamento e desinteresse a ridícula comédia de equívocos que se desdobra em Brasília, descobrimos que há uma realidade mais importante e mais decisiva em curso, no caboclo que luta pela terra que lhe querem tirar, no índio que corre livre pelos espaços verdes, no jovem que descobre a vontade de criar, na mulher que descobre sua dignidade até então pisoteada, no migrante sem teto que quer levantar seu ninho, nas orações de tantas origens que confluem para a mesma fonte, na tenacidade de quem luta pela vida em construção. Há um mundo que lateja energia. Nele se antecipa o amanhã.

Murilo Mendes indica no seu mais profundo aforisma, que tenho citado tantas vezes:

O homem é um ser futuro,

um dia seremos visíveis.

E aclara em seu ‘poema dialético’:

Todas as formas ainda se encontram em esboço,

tudo vive em transformação:

mas o universo marcha

para a arquitetura perfeita.

Adiante o poeta conclui definitivamente:

A aurora é coletiva.

A espada do Quixote aponta novas trilhas. Coletivamente, então, estamos convocados sem apelo à sua invenção. Depende de nós, inexorável, que assim seja.

                                              

 [Quixote de  Portinari]

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