Religião e Política na pandemia

Na pior ameaça de saúde pública dos últimos cem anos, até o presidente da República chegou a convocar o povo para um dia de jejum de modo a nos livrar de todo o mal. Estou entre aqueles que acham isso tudo muito complexo. O que a um parece “incontestável” a outro não será. O que fulano vê como imperdoável não corresponde com a opinião de beltrano

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No futebol brasileiro já virou hábito ver atletas que abrem um círculo no campo e rezam com o elenco. O mesmo anda acontecendo na política. Na pior ameaça de saúde pública dos últimos cem anos, até o presidente da República chegou a convocar o povo para um dia de jejum de modo a nos livrar de todo o mal. Um velho ritual para novas doenças.

Estou entre aqueles que acham isso tudo muito complexo. O que a um parece “incontestável” a outro não será. O que fulano vê como imperdoável não corresponde com a opinião de beltrano. 

Sim, é complicado falar de religião. Agora, a coisa fica ainda mais enroscada quando há um achegamento da religião com a política. Não custa lembrar que, diante do Palácio do Alvorada, já teve até grupos de religiosos que fizeram um “corredor de oração” com transmissão ao vivo em redes sociais (veja aqui). Com a licença da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, viu-se ali uma espécie de “drive thru da fé”, assunto que assinala a imediata necessidade de levantarmos o debate público sobre as igrejas ocuparem o vácuo deixado pelo Estado. (aqui)

E, se querem saber, é difícil, também, encontrar alguém que não se deparou com vídeos no celular sobre “ajoelhamentos de rua”, que são rezas coletivas para “assustar o vírus” (ver aqui). Boa parte dessas postagens puxam um “drop” de comentários escritos meio a sério, meio de brincadeira, como “quanto mais a gente reza, mais assombração aparece” ou “vamos ter que melhorar a reza e a política”. 

Há um pouco de tudo e essas manifestações públicas propagam o caráter multireligioso do país, mesmo sabendo que existe um desencanto com a religião em diversos grupos etários. 

Sem falar do óbvio: o presidente Bolsonaro põe Deus acima de todos, mas pratica o descaso acima de tudo. Em tempos de pandemia de Covid-19, o tal do “e daí?”, “não sou coveiro”, “não faço milagres” reverberaram esquisitos para um homem que se autoproclamou cristão. 

Mas vamos lá: claro que não queremos desprezar a boa intenção dos que acreditam na religião milagreira, nem praguejar o comportamento de quem descrê. São visões de mundo que se chocam o tempo inteiro em todo o planeta. Não é disso que se trata o texto. A questão é tentar uma reflexão cavada no campo da psicanálise. O ponto é exatamente esse.

Vamos ver. Foi o Dr. Freud quem enfrentou a questão e conseguiu propor uma das mais ousadas respostas à questão da religião, levantando um pouco o véu do problema por meio de uma obra marcante, intitulada “O futuro de uma ilusão”, livro escrito em 1927. E o ponto do psicanalista era a inquietação com o rumo da humanidade. Por isso ele seguiu uma linha em construção contínua, a fim de se ocupar do fenômeno religioso, associando-o à neurose. 

É que para Freud a religião funciona como um exemplo perfeito do Pai-protetor. Os seus estudos apontaram para o fato de existir uma tênue camada de fantasia (ilusão) na vertente religiosa. 

Afinal, diante dos sofrimentos e agruras, as pessoas precisam de um pai (Todo-Significativo e Poderoso), um pai (imaginário) que possa proteger a todos e todas contra a rudeza dos altos e baixos da vida. 

Para ser adepto disso, ter como verdadeiro ou dar crédito, entram as questões de autoimagens idílicas, difundidas durante séculos, a fim de talhar a redução de impactos no desamparo. O pano de fundo é que nada está sob o nosso controle e sempre aguardamos o passo imediato da cura, da saída do problema ou o achatamento do pico da doença, sem querer pedir colo na ciência. Queremos, num passe de mágica, as soluções das perturbações. 

E se ninguém pode colocar na ciência uma fé inabalável, porque ela também se equivoca, a aposta para sair das tormentas só pode vir por meio da ajuda de um pai (Redentor). E por quê? Ora, exatamente porque ele é o único habilitado a pôr fim ao torpor. Ele pode aliviar o sentimento pesado. Essa seria uma regra de ouro? A resposta, infelizmente, é “não”. O problema é se não há o onipotente.

A questão é que a psicanálise trabalha na desintegração dessa providência, sem ser pessimista, mas também de maneira não-otimista. 

A leitura mais insuficiente da religião é que ela não vem acompanhada de fatos que a justifiquem. É como se fosse uma ponte suspensa no ar. Ela é baseada numa hipótese superior e arranja um jeito de não deixar nenhuma pergunta sem resposta. 

Para Freud, a religião é uma ilusão porque é uma fantasia; ela aponta para um caminho de superação do infantilismo ao ponto de o homem criar deuses à imagem de seus pais no momento do desemparo cotidiano. 

É sempre difícil entrar na zona da dor alheia. No fundo, não dá para aferir com grau de precisão o que Deus representa para as pessoas em estado de desespero. Se ela tem fé, é possível que despreze a verificação e as relações com a realidade e passe a imaginar um redento, porque o ponto-chave da religião é dar à vida um plano mais alteroso. Claro: por isso é que entra o Pai (Todo-Poderoso). 

A psicanálise vai se colocar em oposição às explicações religiosas. Vê-se que a religião tem a marca mais característica na atitude de doutrina, conservando tempos. Aliás, as doutrinas conservam. É crer ou não crer. Esse é o ponto. Lembremos que é aí que entra a questão da fé. Nisso, há um lugar de subordinação acrítica na religião, aliás, um ponto bem fossilizado. 

A psicanálise acaba sendo o olhar crítico que provoca constrangimentos nas certezas morais. E assim por diante, nessa perspectiva, a psicanálise é incompatível com a religião porque passa a encorajar a demolição de ilusões (fantasias, onirismos), colocando um ponto de interrogação em dogmas do campo sagrado.

Caminhando para a conclusão, vale insistir que a literatura psicanalítica de Freud é notável, não só por ela apresentar-se singular, mas também por ter instaurado uma fenda na paisagem religiosa. Cabe a nós, hoje, abordar a magnitude do trabalho freudiano que não utilizou as crendices bíblicas para ilustrar seu ensino. 

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