Reunião ministerial: o prejuízo maior, até agora, é dos ruralistas

"Ficou explícito o que todos já sabiam: o governo Bolsonaro é inimigo da Amazônia, quer passar a boiada nas leis ambientais e apenas tolera a China, nosso maior comprador de alimentos", diz o jornalista Leonardo Attuch, editor do 247

(Foto: José Cruz/Agência Brasil)
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Praticamente todos os analistas já fizeram sua análise sobre os impactos políticos do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. Fecho com Tereza Cruvinel, que diz que Bolsonaro se safou e Moro se estrepou. Concentro-me aqui no impacto econômico. No mundo dos ativos financeiros, o chamado "mercado" também faz a mesma avaliação de Tereza.  Por isso mesmo, dólar e bolsa inverteram seus sinais na sexta-feira. A moeda americana, que subia, virou para queda e a bolsa, que caía, virou para alta no mercado futuro. O motivo: avalia-se, também entre os "farialimers", que Bolsonaro se safou.

Esta talvez seja uma leitura de curto prazo. O que o vídeo também explicita é a gigantesca hostilidade do governo brasileiro, hoje satélite de Washington, em relação ao nosso maior cliente. Paulo Guedes disse que a China, o país que mais importa do Brasil e que mais investe no País, "é aquele cara que a gente sabe que tem aguentar". Uma espécie de primo-rico chato. A reunião também explicitou a subserviência de Bolsonaro, que teria recebido relatórios de inteligência de Donald Trump sobre o "comunavírus". Saberemos nas próximas semanas e meses se a China também tem que aguentar o Brasil ou se pode trocar a soja dos nossos agroboys pela de outros países, incluindo os Estados Unidos, que é nosso concorrente no mercado mundial de alimentos.

Tão grave quanto isso foi a declaração do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, de que o governo deveria aproveitar o foco da imprensa na pandemia para "passar a boiada" nas leis ambientais. O mundo inteiro sempre soube que o governo Bolsonaro é inimigo do meio-ambiente e da Amazônia. Mas agora isso está escancarado e pode provocar retaliações de países europeus e também boicotes de consumidores mais conscientes. Até mesmo Joe Biden, o candidato democrata que hoje lidera as pesquisas nos Estados Unidos, mandou Bolsonaro parar de destruir a Amazônia.

Portanto, ainda que o dólar caia no curto prazo, a médio e longo prazo os prejuízos podem ser gigantescos para o Brasil, a depender da reação dos nossos clientes internacionais. A meu ver, os ministros que estão mais ameaçados são, pela ordem, Ricardo Salles, para que o Brasil dê uma satisfação ao mundo, Abraham Weintraub, pelos insultos que disparou contra os ministros do STF (e também pelo desejo de Bolsonaro de oferecer cargos ao centrão) e a própria Tereza Cristina, da Agricultura, que vai precisar de muito óleo de peroba nas suas próximas reuniões com europeus e chineses. O fato é que os ruralistas fizeram um péssimo negócio na eleição presidencial de 2018.

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