Rui Costa Pimenta, a voz necessária

Ao convidá-lo, 247 mostra que seu radar detectou uma voz que precisa ser ouvida e discutida, nem que seja para discordar. Afinal, a gente já está ficando cansada  de ouvir quem não foi ainda capaz de acertar

Ao convidá-lo, 247 mostra que seu radar detectou uma voz que precisa ser ouvida e discutida, nem que seja para discordar. Afinal, a gente já está ficando cansada  de ouvir quem não foi ainda capaz de acertar
Ao convidá-lo, 247 mostra que seu radar detectou uma voz que precisa ser ouvida e discutida, nem que seja para discordar. Afinal, a gente já está ficando cansada  de ouvir quem não foi ainda capaz de acertar (Foto: Christiane Granha)

O site Brasil 247 deu uma chacoalhada na mesmice ao ter entrevistado por duas vezes o presidente do PCO, Partido da Causa Operária, Rui Costa Pimenta.

Na primeira entrevista, em 11 de janeiro de 2018. (https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/336510/Ao-vivo-TV-247-entrevista-Rui-Costa-Pimenta.htm), Rui já explicava que tal como uma lei histórica, não existe Golpe de Estado em que os militares não estejam, de uma forma ou de outra, envolvidos, mesmo com diferente graus de envolvimento nos diferentes momentos. Ou seja, em 2016,  no acordão do Jucá “como o Supremo, com tudo”, as Forças Armadas estavam lá.

Na segunda conversa,  poucos dias após a Intervenção Federal no Rio de Janeiro, https://www.youtube.com/watch?v=U_EA6rCqiaI, Rui se confirma como uma voz necessária e dissonante, por  conseguir, ao contrário da maioria dos analistas,  explicar a tendência de encadeamento dos  fatos  históricos antes que ele se consumem. Nesta conversa ele explica como os militares estão chegando ao poder por aproximações sucessivas.

Tenho acompanhando as análises semanais do Rui todos os sábados na TV Causa Operária https://www.youtube.com/watch?v=U_EA6rCqiaI , desde que as circunstâncias da luta contra o Golpe colocaram parte da base do Partido dos Trabalhadores em unidade com o PCO na luta pela Anulação do Impeachment, o que se materializou no Rio de Janeiro, na constituição  do Comitê Volta Dilma, Pela Democracia, Pela Anulação do Impeachment https://www.facebook.com/voltadilmarj/, um movimento amplo, de maioria de mulheres, que conta, além de petistas e do PCO, com artistas,  feministas, militantes contra o racismo,  LGBT e, até mesmo, militantes do PSOL e  do PDT. Esta militância um tanto quanto rebelde  não aceitou o que considerávamos ser uma mudança de orientação na Frente Brasil Popular  após o Impeachment. Para o Comitê Volta Dilma RJ, desde sua primeira reunião,  a única coerência possível de termos  gritado  “Não vai ter golpe” no período pre-Impeachment seria continuar lutando para anular o Golpe no período posterior, armando o conjunto da militância para combater o Golpe em seu conjunto e não uma a uma de suas consequências perversas como a “PEC do Teto”, a privatização do Pré-Sal, a terceirização de atividades fim, a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência.  Esta compreensão e a criação do Comitê  expressa o que vou, neste artigo, chamar de “consciência de autodefesa”,  ou seja, a  compreensão que a defesa dos nossos é a defesa de nós mesmos.  No caso de Dilma, de nós mesmas, mulheres trabalhadoras e militantes. Esta consciência de autodefesa  esteve presente no Comitê desde seu  o ato de fundação, em janeiro de 2017, no qual,  além da Campanha pela Anulação do Impeachment, foi aprovada por unanimidade uma moção contra a perseguição política de diversos militantes de esquerda, especialmente Zé Dirceu.

Não é confortável assistir as análises do Rui, como expressou o próprio Leonardo Attuch na introdução da entrevista sobre a Intervenção no Rio ao chamá-lo de pessimista.  Rui não diz o que se quer ouvir. Destoa do discurso fácil tão difundido entre nós, petistas, de que haveria uma saída quase mágica para a crise baseada no “amor” da população a Lula.  Em sua visão, a ligação profunda das massas oprimidas com Lula, que é real, não é suficiente para levar a crise política a se resolver por ela mesma. Rui defende Lula e propõe ações concretas, fáceis de ser compreendidas, sem embarcar na profissão de fé.  Pode se não gostar do Rui ou suas análises, mas Attuch tem razão, é  impossível negar que Rui acerta nos prognósticos, mais que qualquer  analista político de nossos tortuosos dias.

Porque Rui acerta? Seria ele mais inteligente ou mais estudado do que os outros analistas? Com certeza sua  capacidade cognitiva e seu  conhecimento da história  são inegáveis, mas não é por isso que ele acerta. É porque Rui  consegue aplicar um método de análise dos acontecimentos reais, o materialismo histórico e dialético, inaugurado por Marx e Engels no século XIX, como poucos.

Ao aplicar este método, Rui realiza o trabalho de historiador explicado por Edward H. Carr no capitulo 1 de seu livro, O Que é História? : O historiador começa o trabalho de escrever a história com uma seleção provisória de fatos e uma interpretação também provisória. Enquanto trabalha, tanto a interpretação e a seleção quanto a ordenação dos fatos passam por mudanças sutis, através da ação recíproca de uma ou da outra. Essa ação mútua também envolve a reciprocidade entre presente e passado: o historiador sem fatos é inútil; fatos sem seu historiador não têm significado algum.” Rui realiza este diálogo com os acontecimentos do tempo presente, envolvendo necessariamente dois outros diálogos, um com os acontecimentos do passado, na história da resistência da classe oprimida e  nas lições extraídas de suas vitórias e derrotas,  e outro diálogo, este ainda mais importante, com  as pessoas reais, de carne e osso, que tentam agir na realidade para mudá-la agora.

De outra forma, pode-se dizer que Rui não seria o analista político que é se não tivesse, ele mesmo, a experiência do militante que busca organizar a classe trabalhadora e, para isso, precisa compreender sua força e sua fragilidade tal como ela se apresenta nos fatos concretos.  Rui é, neste sentido, produto da luta pela sobrevivência de seu grupo politico, primeiro dentro do PT e depois, do lado de fora.  Foram estas batalhas concretas que forjaram o analista político.  Não é por acaso que suas análises são expressões conscientes do problema da autodefesa das organizações da classe trabalhadora.  E é somente sob este aspecto, o da “consciência de autodefesa” que se pode compreender sua defesa do PT. Este tipo de compreensão tem uma profundidade que escapa a maioria dos analistas, que nunca passaram pela experiência de construir uma organização que defende a si mesma, dentro de uma classe que ainda  está aprendendo a se defender organizadamente e, que, neste processo, também enfrenta momentos de recuo.  Este “lugar de fala” de Rui é sua maior força.  E como a realidade é mais complexa do que parece, também é seu limite, mas isto é toda uma outra discussão que foge aos objetivos deste artigo.

Rui não é incômodo apenas para os petistas. Suas críticas aos que se apressam em anunciar a decadência ou a morte política do PT, como se pudessem herdar seu espólio eleitoral seriam cômicas, se não revelassem uma das tragédias  de nossos tempos:  a campanha sistemática anti-PT realizada por organizações que se dizem de esquerda.  Dentro dos sindicatos, a aplicação desta política anti-PT, sob as mais diferentes formas, levou a “rachas” na CUT e Federações de categorias importantes, aumentando as dificuldades para qualquer movimento grevista unificado dos trabalhadores,  contribuindo assim,  para a regressão da consciência de autodefesa da classe trabalhadora brasileira em seu conjunto.

O que nenhum dos que aplicam uma política anti-PT consegue explicar, a não ser assumindo uma posição de superioridade em relação a classe trabalhadora “alienada” é que o  “morto” segue sendo o favorito da população mais oprimida e continua sendo diariamente procurado por novos militantes que querem se filiar ao PT para defendê-lo dos ataques. Nem mesmo a crise profunda do sistema político-partidário no Brasil levou a maioria oprimida a virar as costas pro PT. O que não quer dizer que isto não venha a acontecer, num prazo impossível de prever, caso o PT não seja capaz, ele mesmo, de realizar ações concretas que expressem a  aplicação de uma política de autodefesa, como por exemplo, a que propõe o PCO agora: evitar a prisão de Lula.

Ao assistir suas análises, é impossível não concluir que qualquer  “unidade das esquerdas” que passe pelo PT  abrir mão de defender os seus como Dirceu, Dilma ou Lula,  está fadada ao fracasso. Não apenas do PT, mas de toda esquerda.

Podemos discordar do Rui em suas posições sobre temas diversos, mas duas coordenadas políticas para análise da situação brasileira que tem sido utilizadas por ele tem se revelado, nos fatos, as coordenadas que permitem melhor compreender o momento político pós Impeachment.  A primeira é  que o Impeachment de Dilma em 2016 foi um Golpe de Estado. E a segunda coordenada é que o Golpe é Imperialista.

Estas duas frases  podem parecer uma redução simplista da realidade e até soarem como óbvias para a grande maioria que foi para as ruas lutar contra o Impeachment.  Mas o que parece nem sempre é. Porque se a grande maioria dos dirigentes das organizações realmente considerassem que são estas as coordenadas essenciais não teriam destacado da realidade justamente os erros do Governo Dilma, vítima do golpe, como o elemento central para abandonar a defesa do mandato conferido ao PT pelo povo. 

A aplicação de uma política que abandonava estas duas coordenadas,  abandonando, inclusive, o uso da palavra Golpe,  se materializou nas bandeiras: Fora Temer, Eleições Diretas.  Ampla o suficiente para caber toda “esquerda” num acordão, esta linha, carecia do essencial para o diálogo com a população, a concretude. Quando Temer Sairia? Quem entraria no Lugar? Quem convocaria eleições? Que passos dar? O acordo possível de “unidade da esquerda” na verdade se revelou um acordo sem princípios que levou o PT a não defender a si mesmo, deixou de preparar a militância contra o aprofundamento do Golpe  e ainda  criou  ilusões que seria possível alguma margem de manobra política ou econômica para o Imperialismo aceitar  a instauração de governos comprometidos com as aspirações populares, sem que lançasse mão de todas as armas que dispõe para impedir.

Mais generoso que eu, apesar de explicar nas análises semanais como e porque a defesa de eleições diretas  naquele momento não duraria muito,  Rui atribuía esta capitulação a uma confusão da “ esquerda”  até  natural, após ter sofrido uma derrota com o Impeachment. Os prognósticos que Rui apresenta tem se confirmado  justamente porque sua analise é coerente com as premissas das quais ela parte.  Ele pode até divagar e se estender em aspectos secundários em alguns momentos de sua analise semanal, mas não perde o fio condutor. E faz isso, utilizando uma linguagem acessível a qualquer trabalhador, sem academicismos, sem “politicamente correto” revelando-se, assim, um homem do povo  (e com as qualidades e defeitos de um homem comum), mas que consegue aplicar  de forma consistente um método poderoso e vivo de compreensão e, principalmente, intervenção na realidade.

Ao convidá-lo, 247 mostra que seu radar detectou uma voz que precisa ser ouvida e discutida, nem que seja para discordar. Afinal, a gente já está ficando cansada  de ouvir quem não foi ainda capaz de acertar.

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