Sangue, vergonha e trevas

Ninguém acreditava num Feliz Ano Novo em 2017, "sabíamos todos que começaria um ano tenebroso, de decrepitude política e infarto econômico, mas ninguém esperava o banho de sangue e a vergonha que explodiu no Norte", afirma Tereza Cruvinel; "Já a pequenez, o despreparo e a velhacaria do governo Temer diante de fatos tão graves só surpreendeu os que acreditaram na feitiçaria do golpe parlamentar", diz a jornalista; para ela, "algo porém vem sendo tão chocante quanto as decapitações e esquartejamentos: a desenvoltura com que representantes da direita no poder pregam a 'higienização social' e a divisão dos brasileiros entre os que têm direitos e os que devem ser tratados como animais. Para a regressão absoluta, faltou apenas a defesa de fornos crematórios nas prisões"

Ninguém acreditava num Feliz Ano Novo em 2017, "sabíamos todos que começaria um ano tenebroso, de decrepitude política e infarto econômico, mas ninguém esperava o banho de sangue e a vergonha que explodiu no Norte", afirma Tereza Cruvinel; "Já a pequenez, o despreparo e a velhacaria do governo Temer diante de fatos tão graves só surpreendeu os que acreditaram na feitiçaria do golpe parlamentar", diz a jornalista; para ela, "algo porém vem sendo tão chocante quanto as decapitações e esquartejamentos: a desenvoltura com que representantes da direita no poder pregam a 'higienização social' e a divisão dos brasileiros entre os que têm direitos e os que devem ser tratados como animais. Para a regressão absoluta, faltou apenas a defesa de fornos crematórios nas prisões"
Ninguém acreditava num Feliz Ano Novo em 2017, "sabíamos todos que começaria um ano tenebroso, de decrepitude política e infarto econômico, mas ninguém esperava o banho de sangue e a vergonha que explodiu no Norte", afirma Tereza Cruvinel; "Já a pequenez, o despreparo e a velhacaria do governo Temer diante de fatos tão graves só surpreendeu os que acreditaram na feitiçaria do golpe parlamentar", diz a jornalista; para ela, "algo porém vem sendo tão chocante quanto as decapitações e esquartejamentos: a desenvoltura com que representantes da direita no poder pregam a 'higienização social' e a divisão dos brasileiros entre os que têm direitos e os que devem ser tratados como animais. Para a regressão absoluta, faltou apenas a defesa de fornos crematórios nas prisões" (Foto: Tereza Cruvinel)

Ninguém chegou ao dia 31 de dezembro acreditando no “Feliz Ano Novo” dito sem convicção. Sabíamos todos que começaria um ano tenebroso, de decrepitude política e infarto econômico, mas ninguém esperava o banho de sangue e a vergonha que explodiu no Norte, mas é produto da vida nacional. Já a pequenez, o despreparo e a velhacaria do governo Temer diante de fatos tão graves só surpreendeu os que acreditaram na feitiçaria do golpe parlamentar. Algo porém vem sendo tão chocante quanto as decapitações e esquartejamentos: a desenvoltura com que representantes da direita no poder pregam a “higienização social” e a divisão dos brasileiros entre os que têm direitos e os que devem ser tratados como animais. Para a regressão absoluta, faltou apenas a defesa de fornos crematórios nas prisões.

Quando se pensa que Temer esgotou sua cota de titubeio, hesitação e tergiversação, ele se cala por três dias enquanto o mundo se espanta com o naufrágio da civilização brasileira. Depois, joga com as palavras, e define como mero “acidente pavoroso” um fato previsível e previsto, decorrente da inépcia do Estado (vá lá que antiga e não apenas em seu governo) na gestão do sistema prisional. Acidente é aquilo que acontece por acaso, pelo qual ninguém tem responsabilidade. Tentou em vão lavar as mãos, pois seu governo foi avisado pelos gestores estaduais da situação nos presídios. Em outubro, um missão da ONU também deu copia ao governo do relatório de sua inspeção em alguns presídios, entre eles o de Manaus. O ministro da Justiça também joga desonestamente com as palavras. Primeiro lembra repasses do fundo penitenciário aos estados na véspera dos confrontos sangrentos em Manaus, como se tivesse havido tempo para a aplicação dos recursos. Nega os pedidos de socorro e é desmentido cabalmente pela governadora de Roraima. E finalmente marca uma reunião de secretários de segurança para o dia 17, como se a situação não fosse desesperadora naquelas e em outras unidades da federação, com os governadores pedindo o envio da Força Nacional de Segurança porque não têm condições de garantir a segurança nos campos de concentração, digo, nas prisões. Mas isso é Temer e seu governo, e não devia surpreender.

Já a pregação cínica da barbárie espanta porque não desperta as reações de há alguns anos atrás, quando a sociedade brasileira era mais solidária e conhecida o sentido da palavra compaixão. Bruno Júlio foi exonerado na sexta-feira do cargo de secretário da políticas para a juventude após louvar a chacina de Manaus e dizer que deveria haver uma por semana. As aparências  exigiram sua queda mas o que ele expressou foi a natureza essencial do governo Temer. Se um governo abriga gente como ele, é porque se identifica com pensamentos como o dele. Não veio, da sociedade, o devido rechaço. E depois vieram outros louvores à barbárie, culminando com a fala de Bolsonaro, de que para os presos, o direito que existe é “o de não ter direitos”. Onde está escrito isso? Onde a Constituição afirma que uma condenação judicial (sem falar nos presos não sentenciados amontados nos presídios) transforma um cidadão/cidadã em pária? Mas Bolsonaro sabe que não prega no deserto e sim para a nova direita raivosa que desde 2013 busca um acerto de contas com o Brasil progressista agora minoritário. Este silêncio, ou esta omissão, diante de tão eloquente mensagem das trevas, informa sobre aspectos da alma brasileira que o golpe vem revelando.

Temer deixou a crise para traz e embarcou para Portugal, levando a tiracolo Gilmar Mendes, que o julgará no TSE. Tudo natural. Em Lisboa, fará pose entre as autoridades europeias nos funerais de Mario Soares, que receberá merecidas honras de Estado, mas não enganará os portugueses. Em tempo real, sabem o que se passa no Brasil. Uma amiga diplomata, Maria Helena Neves, que viveu muitos anos em Brasília e ama sinceramente o Brasil, me liga no Natal e diz: “O que daqui percebemos é que deve estar sendo muito triste viver no Brasil atual. “Digo-lhe que sim, triste e difícil mas há de passar. Entretanto, a primeira semana do ano mostrou que o país continua piorando e entrou definitivamente na espiral do caos e das trevas.

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