São Paulo: quadro indefinido na esquerda - Boulos sai na frente, mas isso pode mudar quando Lula entrar em campo

Por Rodrigo Vianna

As primeiras pesquisas eleitorais na capital paulista levaram a alguma conclusões apressadas, especialmente no campo da esquerda.

É verdade que Guilherme Boulos começa num patamar surpreendente. É verdade também que os 9% obtidos pelo candidato do PSOL no DataFolha devem-se ao fato de Boulos ter avançado sobre parte do eleitorado simpático ao PT.

Boulos obteve esse bom resultado por uma soma de fatores: consistência política, compromisso social, recall da eleição presidencial, e lealdade a Lula no episódio da prisão em Curitiba. Tudo isso fez de Boulos um candidato mais amplo, que dialoga para além da base organizada do PSOL. Méritos dele e do partido - que ganha corpo.  

A partir dessas premissas, alguns concluem que Boulos já é - definitivamente - o "candidato da esquerda", e que não há outro caminho ao PT que não seja apoiar o PSOL em São Paulo.

Para justificar essa conclusão apressada, apresenta-se o resultado da eleição de 2016, quando Haddad obteve 16% dos votos no primeiro turno. Esse seria o novo "patamar da esquerda" em São Paulo. Portanto, se Boulos hoje tem 9%, Orlando Silva (PCdoB) tem 1% e Jilmar Tatto (PT) larga com 2%, haveria margem muito pequena para o petista - que poderia chegar no máximo a 4% ou 5% dos votos no primeiro turno.

Há nessa conta um duplo erro: aritmético e político. 

Em São Paulo, há um "campo popular" que se identifica com as três administrações petistas na cidade, desde 1988: Erundina, Marta e Haddad. Ora, em 2016 Haddad obteve de fato apenas 16% (isso em meio ao Golpe contra Dilma, e a uma campanha de extermínio do PT).

Foi o momento mais difícil para o partido. É preciso lembrar, no entanto, que naquela eleição Marta (MDB) e Erundina (pelo PSOL) também foram candidatas e obtiveram somadas 14% dos votos.

Isso quer dizer que o campo popular (ou "simpático ao PT") na cidade pode chegar a 30% dos votos - mesmo que esse total se divida em várias candidaturas.

Relembremos que em 2018 o PT ainda estava sob ataque e,mesmo assim, o candidato do PT ao governo de São Paulo (Luiz Marinho) obteve 16% dos votos na capital. E isso em meio a uma campanha que levou muitos eleitores petistas a votarem em Marcio França (PSB) já no primeiro turno, para evitar que Skaf enfrentasse Dória.

Mas voltemos a 2020... 

O DataFolha mostrou Russomano em primeiro com 29%, Covas em segundo com 20%, Boulos com 9%, França com 8%. Mas a pesquisa indicou também (e aqui saímos da aritmética e entramos na política) quem é o cabo eleitoral mais forte na capital paulista: Lula!

O ex-presidente tem menos rejeição do que Bolsonaro e Dória. Além disso, 20% dos eleitores paulistanos afirmam que votariam "com certeza" num candidato indicado por Lula; e outros 21% dizem que "podriam votar" num candidato indicado pelo petista.

O erro político, portanto, é considerar Tatto derrotado antes do jogo começar. Com a entrada de Lula em campo, o candidato do PT tende a subir... As sondagens eleitorais indicam que parte dos que hoje escolhem Russomano, especialmente nas periferias, pode migrar para Tatto.

Dessa forma, chegaríamos a novembro com o "campo simpático ao PT" na maior cidade brasileira dividido entre Boulos e Tatto (cada um na faixa entre 10% e 15% dos votos), e em menor medida espraiando-se também entre Orlando Silva e Márcio Franca.

Há a possibilidade real dessa divisão favorecer um segundo turno entre Covas e Russomano. Isso é fato.

Mas não acho razoável supor que a única forma de evitar esse quadro seja o PT desde logo retirar a candidatura. Pode ser que toda essa pressão hoje a favor de Boulos ("o mais bem posicionado da esquerda") mais adiante se volte contra ele.

O que farão os apoiadores de Boulos se Tatto se mostrar o mais competitivo nas pesquisas, quando novembro chegar?

O provável é que - a poucos dias da eleição - tenhamos uma corrida ao "voto útil", com os eleitores desse campo fazendo informalmente a escolha que os partidos não costuraram antes da eleição. A aritmética eleitoral e a política indicam que essa corrida pode se dar tanto em favor de Boulos, quanto na direção de Tatto.

Mas essa é uma eleição complicada porque há divisão também no campo da direita.

= Russomano, Covas e França = 

O atual líder nas pesquisas se desmanchou nas campanhas anteriores. Dessa vez, sem debates na Globo, e com apoio mais orgânico do bolsonarismo e de Edir Macedo, a tendência é que Russomano consiga se manter mais competitivo. Pode perder votos, nas franjas da periferia, para "o candidato do Lula". Mas acho improvável que ele fique fora do segundo turno.

A vida de Covas é mais difícil. Carrega uma bola de ferro nos pés, chamada Dória. O melífluo governador do PSDB não é perdoado por abandonar a cidade, com apena 1 ano e meio de mandato na Prefeitura, pra se candidatar em 2018. Covas é o candidato com mais rejeição - acima de 30%.

Parte do eleiorado de classe média pode se desprender em direção a Marcio França (um quase tucano, que precisa descobrir se há espaço para ficar no meio do caminho, entre esquerda e direita). França, no entanto, enfrenta a dificuldade de correr na mesma raia que Covas, mas sem a máquina administrativa que o favorecia em 2018.

Se isso tudo acontecer, o mais provável é que Russomano siga líder, e Covas tenha que lutar para evitar que França ou Boulos ou Tatto tirem sua vaga no segundo turno.

A esquerda cometerá um erro grave se bater apenas em Covas para tirá-lo do segundo turno, deixando Russomano livre e solto. É preciso desde logo lembrar que Russomano é o candidato da Igreja Universal e que pode transformar São Paulo num novo Rio de Janeiro, com a administração capturada pelos adeptos do bispo.

Russomano, por suavez, parece torcer para que o adversário no turno final seja Boulos. Com isso, poderia fazer uma campanha "ideológica", em que o fato de ser o candidato de Edir Macedo ficaria em segundo plano.

Covas, França, e mesmo Tatto, teriam em tese mais chances de vencer Russomano. 

O jogo está aberto. 

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