Segundo turno acirra polarização e divide o país

"Segundo turno só serve para aumentar a polarização e dividir o país ou a cidade, até mesmo quando a disputa envolve partidos do mesmo campo e candidatos da mesma família, como se dá no Recife", escreve Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia

João Campos e Marília Arraes
João Campos e Marília Arraes (Foto: Reprodução/Facebook)
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Por Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia 

Os candidatos passam um ano em preparativos, enfrentam uma dura campanha, finalmente os eleitores vão às urnas e elegem seus preferidos, do primeiro ao último.

Ah, mas não acabou, agora o primeiro colocado vai disputar com o segundo quem é de fato o primeiro.

Ora, bolas! Mas os eleitores já não tinham escolhido o primeiro?

Ah, não, agora vamos ver se eles querem mesmo eleger aquele que já elegeram daqui a duas ou três semanas. Talvez mudem de ideia.

Faz algum sentido?

Fez na cabeça dos que o inseriram na constituição de 1988, copiando a fórmula da constituição portuguesa, mas, na minha, faz tanto sentido quanto o campeonato de futebol que termina com todas as colocações definidas, do primeiro ao último, e no fim se faz um quadrangular entre os quatro primeiros para ver quem é o melhor. Ué, mas aquele que chegou em primeiro já não é o melhor?

Não vou nem entrar em considerações de ordem econômica. O país está na lona, mas prefere gastar duas vezes, em dois turnos, em vez de deixar por um turno só. Isso numa eleição presidencial; na municipal, o segundo turno sai mais barato porque há menos cidades realizando eleições. Ainda assim, milhões são jogados no lixo. O primeiro turno custou mais de R$600 milhões.

Podem dar as explicações que quiserem. A mais corriqueira é que um dos candidatos tem que ter 50% dos votos para ser, de fato, o preferido da população.

No entanto, isso nem sempre ocorre no segundo turno, tanto é que é preciso fazer o malabarismo de excluir os votos nulos e brancos, como se não fossem “válidos” para obter o resultado desejado. Como não são se alguém foi lá na urna e os depositou?

O eleitor foi até à urna e falou que não quer votar em nenhum dos candidatos. Isso é um voto contra os dois. Não pode ser jogado fora apenas para justificar uma tese que não se verifica na realidade.

Em 2018, Bolsonaro obteve, no segundo turno, 39% e Haddad, 30%. Esses foram os eleitores que votaram neles. Ninguém teve maioria.

A pesquisa Datafolha para prefeito de São Paulo aponta, hoje, 48% Covas e 39% Boulos.

Ninguém tem maioria. E nem precisa. Candidato que ganha por um voto é o vencedor, tal como ganha jogo de futebol o time que tem um gol a mais que o adversário.

Segundo turno só serve para aumentar a polarização e dividir o país ou a cidade, até mesmo quando a disputa envolve partidos do mesmo campo e candidatos da mesma família, como se dá no Recife.

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