Sem quórum, a Câmara não vota e Temer vai ficando

Tudo indica que não haverá quórum para a votação da denúncia esta semana, já que governistas e oposicionistas só deverão dar número se estiverem convictos da vitória. Como consequência, a decisão será adiada até a Casa conseguir quórum legal, o que significa dizer que Temer continuará no Palácio do Alvorada indefinidamente

temer
temer (Foto: Ribamar Fonseca)
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O deputado Wladimir Costa, do Solidariedade do Pará, tatuou no ombro o nome de Temer para demonstrar não apenas seu apoio ao presidente golpista mas, também, sua paixão por ele, de quem se diz amigo há 16 anos.  “Cada um com suas paixões”, ele disse, acrescentando que “a dor valeu a pena”. Informou, na oportunidade, que fará outra tatuagem em breve com  o nome do presidente ilegítimo, mas desta vez na costela. Se gosta tanto assim do velho amigo, o parlamentar paraense poderia da próxima vez tatuar, bem visível  na testa,  a frase “Temer, eu te amo”. E mostrar a todo mundo  o tamanho do seu amor ao homem que é acusado formalmente de corrupção passiva. Os deputados matogrossense Carlos Marun, o gaúcho Darcisio Perondi e o mineiro Mansur, os maiores escudeiros de Temer na Câmara Federal, bem que poderiam seguir o  exemplo do colega paraense, para que não pensem que estão do lado do presidente ilegítimo apenas por conta das benesses que ele proporciona, incluindo a liberação de emendas e a nomeação de apadrinhados para cargos na administração pública federal. 

Todos eles, obviamente, cerram fileiras em torno da rejeição da denúncia do Procurador Rodrigo Janot, cuja votação pelo plenário da Câmara dos Deputados deve ocorrer nesta quarta-feira, se houver quórum.  Perondi, que até acompanhou Temer em sua última viagem à Europa, disse à televisão no final de semana, com uma cara de deboche que caracteriza o cinismo desse governo, que “a Câmara vai enterrar essa denúncia para o bem do povo brasileiro”. Seria mais acertado dizer para o bem dele, dos seus companheiros e dos 5% do povo brasileiro que, segundo as mais recentes pesquisas, aprovam o governo golpista. Esse pessoal, pelo visto, está convencido de que o povo tem memória curta e, conforme afirmou o deputado Gaguim, em 2018 já terá esquecido a votação. Desse modo, sua reeleição não correria o menor risco. O povo, na verdade, já teve memória curta, mas hoje existe um negócio chamado Internet  que não vai deixar ninguém esquecer. E os que votarem com Temer estarão condenados a ficar sem mandato a partir de 2019. 

Tudo indica que não haverá quórum para a votação da denúncia esta semana, já que governistas e oposicionistas só deverão dar número se estiverem convictos da vitória. Como consequência, a decisão será adiada até a Casa conseguir quórum legal, o que significa dizer que Temer continuará no Palácio do Alvorada indefinidamente, mesmo acumulando acusações de corrupção, porque, afora o Supremo Tribunal Federal, constitucionalmente apenas a Câmara dos Deputados pode afastá-lo. Considerando que a mais alta Corte de Justiça do país participou do golpe e hoje finge que não vê a gradativa destruição do país pelo presidente produzido por ele, não enxergando também o descontentamento popular,  e levando-se em conta ainda o fato de que o Parlamento está parcialmente apodrecido, corroído pela corrupção, Temer vai ficar até o dia que bem entender. Com as duas instituições sob o seu controle, ele se sente seguro para continuar manobrando com o dinheiro público para permanecer no cargo, sobretudo depois que o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, disse que "o Brasil e suas instituições evoluíram e desenvolveram um sistema de pesos e contrapesos que dispensa a tutela por parte das Forças Armadas”.

Ninguém sabe que sistema de “pesos e contrapesos” é esse desenvolvido pelas instituições, segundo o general, porque até onde é possível enxergar as três principais instituições – o Executivo, o Legislativo e o Judiciário – estão funcionando, mas muito mal: o Executivo tomando medidas prejudiciais aos interesses da Nação e do seu povo, o Legislativo aprovando essas medidas deletérias e o Judiciário se fingindo de morto. O general disse ainda que a Constituição deve prevalecer, acentuando que “todos devem tê-la como farol a ser seguido”. Sem dúvida a Carta Magna deveria ser a bússola de todos, mas ela vem sendo rasgada seguidamente desde o impeachment da presidenta Dilma Roussef, que foi afastada sem ter cometido crime de responsabilidade. Mesmo admitindo que o país está a deriva, o comandante afirma que a saída para a crise “está nas mãos dos cidadãos brasileiros”, que poderão, “nas eleições de 2018, sinalizar o rumo a ser seguido”. Seria o ideal, mas com Temer no poder como representante das forças que derrubaram um governo legítimo, já corremos até o risco de não haver eleições no próximo ano. 

Na verdade, pelas manobras e pelos discursos, percebe-se que esse pessoal não pretende deixar o poder tão cedo, mesmo destroçando o país. Com esse Congresso e esse Judiciário não será muito difícil a Temer, sobretudo depois da experiência da batalha para rejeição da denúncia, conseguir aprovar a PEC, em tramitação silenciosa na Câmara, que estica os atuais mandatos em mais um ano. Se isso acontecer, tudo continuará como dantes no quartel de Abrantes, a não ser que um fato inesperado e espetacular interrompa o processo. Como, infelizmente,  o povo parece anestesiado, sem ânimo para defender seus direitos nas ruas, só nos resta esperar que haja um racha entre os donos do poder ou, então, que haja uma providência divina, como aconteceu em Sodoma e Gomorra. De outro modo vamos ter de continuar convivendo com Temer e seus tatuados escudeiros por muito tempo...

 

 

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