Será que FHC vai apoiar Haddad?

O colnista od 247 Valter Pomar destaca os esforços feitos pelo candidato Fernando Haddad (PT) "para conquistar o voto do chamado "centro democrático"", mas "o fato é que, pelo menos até o momento (...) Fernando Henrique Cardoso não declarou seu voto em Haddad" contra o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL); "Na maior "boa fé", o que posso dizer é que se não votar e declarar voto em Haddad, como fizeram Marina e Eymael (!!!!), FHC estará sendo cúmplice passivo dos que planejam a destruição física da esquerda brasileira", afirma

Será que FHC vai apoiar Haddad?
Será que FHC vai apoiar Haddad?

Não tenho a menor dúvida de como votaria Fernando Haddad, se houvesse um segundo turno entre Bolsonaro e Alckmin.

Pelo mesmo motivo, acho que Fernando Haddad não tinha a menor dúvida de qual seria a posição de FHC neste segundo turno.

Aliás, Haddad vem se esforçando ao máximo para conquistar o voto do chamado "centro democrático".

O esforço inclui desde elogiar Juscelino, Moro, Joaquim Barbosa e a Lava Jato, até impor a alteração de aspectos fundamentais do programa de governo do PT.

A partir de 29 de outubro, caberá discutir se este esforço teve alguma utilidade eleitoral, coerência política ou reflexos positivos sobre o que faremos depois do segundo turno.

Mas o fato é que, pelo menos até o momento em que escrevo este texto (madrugada da terça-feira 23 de outubro), Fernando Henrique Cardoso não declarou seu voto em Haddad.

Talvez FHC acabe votando em Haddad. Talvez até venha a declarar o voto, publicamente. Seja como for, embora não compartilhe nenhuma ilusão sobre o significado e o impacto deste possível apoio, ainda assim cabe perguntar: o que motiva a postura de FHC?

A resposta pode ser encontrada tanto na sua trajetória recente, quanto no que ele escreveu recentemente.

As 15h06 de 22 de outubro, na sua conta no twitter, FHC escreveu ser "inacreditável" um "candidato à Presidência pedir às pessoas que se ajustem ao que ele pensa ou pagarão o preço: cadeia ou exílio. Lembra outros tempos. O que o Brasil precisa é de coesão no rumo do crescimento e diminuição da desigualdade".

O uso do termo "inacreditável" revela que, até então, FHC ainda não havia percebido quem era e o que significava Bolsonaro.

As 9h09 de 21 de outubro, FHC escreveu que "as declarações do deputado Bolsonaro merecem repudio dos democratas. Prega a ação direta, ameaça o STF. Não apoio chicanas contra os vencedores, mas estas cruzaram a linha, cheiram a fascismo. Têm meu repúdio, como quaisquer outras, de qualquer partido, contra leis, a Constituição".

O uso da expressão "chicanas contra os vencedores" parece indicar que FHC considerava que a) a eleição estava decidida; b) as ações do PT e do PDT junto ao TSE, contra a manipulação das redes sociais pela candidatura Bolsonaro, seriam "chicana".

As 6h57 de 20 de outubro, FHC escreveu que "há em circulação um manifesto de democratas progressistas. Bem-vindo. Com a provável eleição de Bolsonaro precisaremos mais ainda de defensores da democracia, para impedir que ele (ou quem vier a vencer) tente sair do rumo constitucional".

O uso da expressão "quem vier a vencer" serve, na mensagem acima, apenas para insinuar que Haddad poderia constituir um risco simétrico ao de Bolsonaro.

No dia 19 de outubro, em artigo intitulado "O futuro político do Brasil" e publicado pelo jornal El País, FHC foi ainda mais explicito.

Sobre o resultado do primeiro turno, FHC diz que o país foi "varrido por um tsunami. Políticos e partido tradicionais ruíram nas urnas".

Afirmação meio verdadeira, pois esquece que o PT resistiu ao tsunami, elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados, vários governadores e, contra chuvas e trovadas, levou Haddad ao segundo turno.

Sobre Bolsonaro, FHC afirma tratar-se de um "obscuro parlamentar" que teve como lema de campanha "a defesa da ordem" e "a luta contra a corrupção".

Nenhuma palavra é dita sobre o apoio que Bolsonaro recebe da cúpula do Exército, da comunidade de inteligência, de setores do empresariado, do judiciário, dos partidos de centro-direita, de meios de comunicação.

Tampouco se lembra que a extrema direita foi estimulada a sair do armário, durante a campanha pelo golpe-impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff.

Sobre Lula, FHC afirma que ele teria sido "acusado e julgado em duas instâncias por corrupção", não por "perseguição política".

Ou seja, nesta questão específica, FHC e Bolsonaro pensam no fundamental o mesmo.

Sobre Haddad, FHC afirma que ele foi "derrotado nas várias regiões do Brasil (com exceção do Nordeste, onde também perdeu em várias capitais), nas várias camadas de renda (a exceção dos que ganham dois salários mínimos ou menos) e nas diversas categorias de formação escolar, exceto entre os menos educados, sendo que de forma esmagadora nas de portadores de diplomas de curso superior. Só quando se olha os dados por gênero há uma pequena diferença (menor de 5%) em favor de Haddad: as mulheres votaram nele mais do que os homens".

Chega a ser divertido o raciocínio de FHC, pois é óbvio que este resultado obtido por Haddad poderia ser descrito como positivo para alguém que foi lançado oficialmente no dia 11 de setembro, substituindo um candidato que foi impedido de concorrer por um ato arbitrário.

Sobre o segundo turno, FHC diz que a diferença em favor de Bolsonaro "dificilmente será reduzida nos poucos dias que nos separam da data do segundo turno". Mas que "ainda assim", "o PT e alguns de seus aliados apelam aos líderes e segmentos democráticos para formarem uma espécie de front popular (como nos velhos tempos...)".

O "ainda assim" é deveras curioso: por acaso uma situação difícil é motivo para desistirmos da luta?

FHC diz que o PT e seus aliados "afirmam que não governarão hegemonicamente" e "aceitarão a diversidade democrática". Mas, pergunta FHC, "Quem crê nisso?" Entretanto, tal descrença "não desobriga os democratas de se oporem a Bolsonaro, desde já, e especialmente no futuro".

Chegando neste ponto, cabe perguntar: se é obrigação dos democratas se opor "desde já" a Bolsonaro, não seria o caso de materializar esta oposição votando em Haddad?

No artigo publicado no El País, assim como nas mensagens posteriores citadas no início deste texto, FHC não dá este passo.

E não dá este passo, entre outros motivos, porque ele afirma não acreditar que Bolsonaro seja um fascista, relativizando até mesmo a ameaça que o capitão constitui para a democracia.

Nas palavras de FHC: "Se ganhar e se desviar da regra constitucional, dos valores da Democracia e da luta por maior igualdade terá de encontrar um muro de oposicionistas dificultando que avance".

Se?

Como pode alguém duvidar que, "se ganhar", Bolsonaro irá "se desviar"?

Neste momento de seu artigo ao El País, FHC apresenta sua interpretação das "causas mais profundas" do "tsunami e das forças que o movem".

Fala do "ódio irracional ao PT", eximindo-se de qualquer responsabilidade e não explicando por quais motivos, apesar deste "ódio", o PT conseguiu sobreviver, enquanto outros partidos (como o MDB e o PSDB) naufragaram.

FHC fala da economia, da política, da tecnologia, das classes e da comunicação, para concluir que "Bolsonaro é uma folha seca impulsionada pela ventania de todas estas transformações".

A frase poética serve como folha de parreira para dissimular a participação ativa, direta e indireta, de amplos setores da classe dominante brasileira na construção da candidatura Bolsonaro.

Contribuição que teve seu ato mais recente na cassação da candidatura Lula, que então liderava as pesquisas. Quem cassou Lula, catapultou Bolsonaro.

FHC diz que Bolsonaro "simboliza o anseio de ordem diante do medo do desconhecido", frase que pode explicar os motivos de alguns.

Mas não explica os motivos dos empresários, dos políticos de direita, dos intelectuais e dos setores do aparato de segurança e judiciário que apoiam Bolsonaro.

Estes apoiam Bolsonaro, não por "medo do desconhecido", mas para derrotar o PT e o conjunto da esquerda brasileira. Aliás, como noutras vezes na história brasileira, o apelo à "ordem" tem este objetivo.

FHC afirma que "de imediato, o que se faça alterará pouco a tendência de voto".

Pode ser que sim, pode ser que não. Mas como julgar a atitude de uma liderança política e intelectual que adota a atitude de observador neutro e passivo diante de uma catástrofe iminente?

FHC sabe que sua atitude é inaceitável, inclusive para grande parte das pessoas que ele preza. Por isso ele busca, em seu artigo ao jornal El País, minimizar o risco que Bolsonaro representa.

Diz FHC, sobre Bolsonaro: "não se trata da volta ao fascismo: a história, no caso, não se repete. Trata-se de outras formas de pensamento e ação não democráticas. Não vivemos mais na época da Guerra Fria. Não se trata da volta do autoritarismo militar com a bandeira do anticomunismo".

A frase acima foi publicada no dia 19 de outubro. Dois dias depois FHC já estava sentindo o cheiro de fascismo e da volta de velhos tempos.

Acontece que os fatos são testarudos e, ao contrário do que diz FHC em seu artigo El País, Bolsonaro opera sim a bandeira do anticomunismo, a extrema-direita reunida ao redor de sua candidatura assumiu sim diversas características dos clássicos movimentos fascistas, e sua eventual vitória será encarada pelos militares como uma redenção da ditadura.

Motivos estes que, tomados isoladamente ou de conjunto, são mais do que suficientes para fazer com que alguém que se considera democrata, trabalhe ativamente para impedir que Bolsonaro vença, ao invés de ficar pontificando que a história não estaria se repetindo (aliás, é claro que não está se repetindo, sendo este "argumento" utilizado por FHC apenas para justificar a passividade e neutralidade eleitoral).

FHC afirma que o que "ocorre hoje não foi planejado pelas Forças Armadas, embora, paradoxalmente, elas aumentarão a voz pela decisão das urnas. Espero, ainda, que também sirvam de barreira de contenção a explosões de personalismo autoritário ou de 'justiça pelas próprias mãos' por parte de 'grupos exaltados'."

Ao contrário do que diz FHC, há muitos sinais de que a candidatura Bolsonaro não foi uma aventura isolada, tendo recebido apoio e assessoria ativa, tanto de setores das forças armadas, quanto da comunidade de inteligência dos EUA e de Israel.

Sendo assim, acreditar que estas mesmas forças vão servir de "barreira de contenção" é puro pensamento positivo.

FHC termina seu artigo no El País afirmando que "a batalha a dar-se é a de reconstituição da institucionalidade democrática".

Para os que pensam assim, uma pergunta óbvia: será mais fácil esta "reconstituição" em um governo Haddad ou em um governo Bolsonaro?

FHC não responde a tal pergunta, encerrando seu artigo da seguinte forma: "quem tem o passado como testemunha de sua sinceridade não precisa da avaliação moral de quem, também de boa fé, pensa de outra maneira".

Na maior "boa fé", o que posso dizer é que se não votar e declarar voto em Haddad, como fizeram Marina e Eymael (!!!!), FHC estará sendo cúmplice passivo dos que planejam a destruição física da esquerda brasileira.

ps. Neste sentido, para quem acredita, o esforço de Haddad visa algo mais do que um voto: trata-se de salvar não apenas a reputação, mas também a "alma" de FHC.

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