Sinto as mãos dela como um barquinho de papel em alto-mar

"Minhas mãos se esgueiram, em concha, sob as mãos da moça, como se eu lhe oferecesse um ninho", escreve Flávio Ricardo Vassoler, em seu "Diário de um escritor na Europa"

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O ônibus (autocarro, para os portugueses) estaciona na rodoviária (estação de camionagem) de Braga. Depois de uma estada em Coimbra e Aveiro, estou de volta à minha cidade passageira. 

Enquanto caminho em direção ao bairro (freguesia) de São Lázaro, onde estou morando, cruzo a praça central da cidade (concelho), onde se situa o tradicional Café Vianna, fundado em meados do século 19, e em cujo centro desponta um portentoso chafariz.

Súbito, entreouço os gemidos de uma moça sentada ao largo do chafariz. Ela curva as costas e tenta enterrar o rosto nas mãos abertas em palma, como uma tartaruga incrédula que esgueira a cabeça casco adentro, arrependida por ter acreditado na promessa de acalento do sol. 

A moça chora a ponto de tropeçar em seus próprios soluços.

Tenho quase 40 anos. Espera-se que alguém da minha idade seja maduro - isto é, frio – o suficiente para não cruzar as pontes pênseis que interligam as ilhas em que cada um de nós se isola e se exila. (Não à toa, isola, em italiano, quer dizer ilha.) Mas eu insisto em ser um náufrago. Sinto em mim o acalento da lenha que crepita enquanto singro, arqueado, nosso deserto de gelo. (Você já reparou que, quando uma rajada friíssima de vento nos fustiga, curvamos o dorso como quem busca a posição primordial do feto no útero?)

Me aproximo da moça e, com cuidado, eu lhe digo: 

– Me desculpa, eu não quero ser indiscreto e inoportuno, mas teu choro me deixou triste... Posso te ajudar de alguma forma? Quer me dizer alguma coisa? Eu sei que a gente nunca se viu, mas, sei lá, de repente vai te fazer bem se você desabafar um pouco... 

A moça iça a cabeça e me espreita com olhos castanhos a príncipio esbugalhados pela incredulidade de quem já não espera pela partilha do pão. 

Quando seus olhos marejados voltam a transbordar, ela balbucia:

– Tá doendo... 

– Me desculpa perguntar, mas você tá doente? 

– Não... 

– Então, o que foi? 

– Tá doendo... de saudade. Meus pais... Eles faziam aniversário no mesmo dia... Hoje... Tá doendo... de saudade. Tem um punho cerrado bem aqui no meu peito, mas eu tô me sentindo oca... 

– Eu sei como é.

– Sabe?!

– Sim. Eu também sou órfão.

Mesmo transida de dor, ela consegue me olhar com a comiseração do náufrago que partilha sua bóia de salvação.

– E o que é que eu faço com a saudade? Ela não vai mais embora? 

– Se você acredita que um dia vai reencontrar seus pais, a saudade de punho cerrado dá lugar ao aceno de até breve de quem vê o barco a vapor se distanciar da costa com seus apitos fumegantes como nuvens.

– E se eu achar que acabou? E se eu achar que nunca mais vou ver meus pais?

– Aí a saudade passa a ser tua sombra. A sombra existe, a gente a vê, ela caminha conosco, ela nos faz companhia. Mas a sombra não afaga, a sombra não abraça. A saudade, como a sombra, não basta.

A moça tenta enxugar os olhos com o dorso trêmulo da mão direita e me indaga com a voz de quem sente sede:

– Ora, será que é só a saudade que não basta? Eu tô achando que a vida é que não basta...

Ato contínuo, minhas mãos se esgueiram, em concha, sob as mãos da moça, como se eu lhe oferecesse um ninho. 

Suas lágrimas graúdas se insinuam entre meus dedos com a persistência de uma goteira. (Se a saudade não pára de gotejar, não seria a vida uma infiltração?)

Sinto as mãos dela como um barquinho de papel em alto-mar.

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