Sionismo socialista para leigos, ou tudo que a esquerda antissionista deveria saber

Recentemente, ao responder a um artigo de um jornalista sobre o sionismo socialista, percebi o enorme desconhecimento daqueles que, mesmo convivendo na mesma trincheira conosco, insistem em nos menosprezar, duvidando da nossa existência. A partir daí, resolvi escrever um artigo divido em 4 partes para contar de onde viemos, o que somos e o que representamos. Esta é a primeira parte

Recentemente, ao responder a um artigo de um jornalista sobre o sionismo socialista, percebi o enorme desconhecimento daqueles que, mesmo convivendo na mesma trincheira conosco, insistem em nos menosprezar, duvidando da nossa existência. A partir daí, resolvi escrever um artigo divido em 4 partes para contar de onde viemos, o que somos e o que representamos. Esta é a primeira parte
Recentemente, ao responder a um artigo de um jornalista sobre o sionismo socialista, percebi o enorme desconhecimento daqueles que, mesmo convivendo na mesma trincheira conosco, insistem em nos menosprezar, duvidando da nossa existência. A partir daí, resolvi escrever um artigo divido em 4 partes para contar de onde viemos, o que somos e o que representamos. Esta é a primeira parte (Foto: Mauro Nadvorny)
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Recentemente, ao responder a um artigo de um jornalista e membro do PSOL do Rio Grande do Sul sobre o sionismo socialista, percebi o enorme desconhecimento daqueles que, mesmo convivendo na mesma trincheira conosco, insistem em nos menosprezar, duvidando da nossa existência. A partir daí, resolvi escrever um artigo divido em 4 partes para contar de onde viemos, o que somos e o que representamos. Esta é a primeira parte.

Ao contrário do que muita gente imagina, o sionismo não surgiu com Theodor Hertzl, o sionismo teve inicio em 1881, com o início do movimento chamado de Primeira Aliá (aliá significa subir e é como os judeus denominam aqueles que imigram para Israel).

O que levou estes primeiros jovens judeus de origem russa e iemenita a partirem para a Palestina Otomana, um lugar até então apenas conhecido por eles pela ligação judaica histórica com Israel? A resposta não é outra senão o forte antissemitismo do século XIX.

É sabido que, desde a destruição do Segundo templo de Jerusalém pelos Romanos em 70 DEC, teve início a Diáspora (dispersão) com a maioria dos judeus passando a viver fora de Israel, conhecida também como Palestina, embora continuasse havendo ali uma constante presença de judeus também.

Saltando para o século XIX, em 1850, a Palestina tinha cerca de 350.000 habitantes. Aproximadamente 85% eram muçulmanos, 11% eram cristãos e 4% apenas eram judeus.

Em 1854, Judah Touro, um negociante e filantropista judeu deixou, após a sua morte,uma quantia em dinheiro para financiar assentamentos residenciais para judeus na Palestina. Sir Moses Montefiore (um banqueiro italiano naturalizado britânico, que foi considerado um dos mais famosos judeus do século XIX) foi nomeado executor de sua vontade e usou os fundos para uma variedade de projetos, incluindo a construção do primeiro assentamento residencial judaico e um asilo fora das muralhas da cidade de Jerusalém em 1860, que é hoje conhecida como Mishkenot Sha'ananim.

No Império Russo, as ondas de pogroms (palavra russa que significa "causar estragos, destruir violentamente", mas que historicamente refere-se aos violentos ataques físicos da população em geral contra os judeus, tanto no império russo como em outros países) de 1881-1884 (alguns supostamente patrocinados pelo Estado), bem como as Leis de Maio antissemitas de 1882, introduzidas pelo czar Alexandre III da Rússia, tiveram um efeito devastador nas comunidades judaicas russas. Mais de 2 milhões de judeus fugiram da Rússia entre 1880 e 1920. A grande maioria deles foi para  os Estados Unidos, mas alguns decidiram realizar aliá.

E foi assim que em 1882, um grupo de Hovevei Tsion (Amantes de Sion)  fundaram Rishon Le Tsion (Primeiro Tsion), o primeiro assentamento sionista na então Palestina, apesar dos obstáculos colocados pelo governo turco, que impediam a compra de terras.

Um outro grupo do Movimento Bilu formado por quatorze estudantes universitários de Kharkov na Rússia, liderados por Israel Belkind, que mais tarde se tornaria um proeminente escritor e historiador, também chegaram a Palestina Otomana. Depois de uma curta estadia na escola de agricultura judaica em Mikveh Israel, eles se juntaram aos membros de Hovevei Tsion na criação de Rishon LeTsion (Primeiro Sion), uma cooperativa agrícola em terras compradas da aldeia árabe de Ayun Kara.

Atormentados por escassez de água, doenças e dívidas financeira, o grupo abandonou o local em poucos meses. Eles então buscaram ajuda do Barão Edmond James de Rothschild e Maurice de Hirsch, que forneceram os fundos necessários para o estabelecimento da primeira indústria vinícola local. Em 1886, começou a construção de uma vinícola em Rishon LeTsion, que se tornaria uma empresa de sucesso exportadora de vinho.

No inverno de 1884, um outro grupo de pioneiros Bilu fundou Gedera que foi estabelecida num terreno comprado da aldeia árabe de Qatra por Yehiel Michel Pines, do Hovevei Tsion, sob os auspícios do cônsul francês em Iafo.

Desta forma a primeira aliá que teve início em 1881 e durou até 1903, levou algo entre 25.000 e 35.000 judeus para a Palestina.

A maioria dos que chegaram pertenciam aos movimentos Hovevei Tsion e Bilu. Esses imigrantes criaram muitas comunidades agrícolas, assentamentos, e cidades como Petach Tikva, Rishon Letsion, Rosh Pina e Zihron Yaakov. Nenhuma delas em terras invadidas ou expropriadas.

Enquanto chegavam os primeiros imigrantes na Palestina em 1881, nascia na Ucrânia, Ber Borochov. Sua mãe e pai eram ambos professores. Quando adulto, ingressou no Partido Trabalhista Social-Democrata da Rússia, mas foi expulso quando formou uma União Sionista de Trabalhadores Socialistas em Yekaterinoslav. Depois de ser preso pelas autoridades russas, ele partiu para os Estados Unidos. Posteriormente, ajudou a formar o partido Poalei Tsion e dedicou sua vida à promoção do partido na Rússia, Europa e América. Quando O Partido Operário Social Democrata russo chegou ao poder, Borochov retornou à Rússia em março de 1917 para liderar o Poalei Tsion. Ele ficou doente e morreu em Kiev de pneumonia em dezembro de 1917.

Borochov tornou-se altamente influente no movimento sionista porque explicou o nacionalismo em geral e o nacionalismo judaico em particular sob a ótica da luta de classes marxista e do materialismo dialético. Ele via a si mesmo como um marxista, e expôs sua filosofia em sua primeira grande obra publicada em 1905, “A Questão Nacional e a Luta de Classes”. Borochov previu que as forças nacionalistas seriam mais importantes na determinação de eventos do que considerações econômicas e de classe, especialmente no que se referia aos judeus. Ele argumentou que a estrutura de classe dos judeus europeus se assemelhava a uma pirâmide de classes invertida onde poucos judeus ocupavam as camadas produtivas da sociedade como trabalhadores. Para ele, os judeus que até então migravam de país para país quando eram forçados a sair de suas profissões escolhidas por um "processo estético" acabariam sendo forçados a imigrarem para a Palestina, onde formariam uma base proletária para levar adiante a luta de classes marxista.Em novembro de 1905 ele se juntou e logo se tornou um líder do movimento Poalei Tsion (Trabalhadores de Sion). Ele se tornou um ávido defensor de um sionismo baseado na Palestina após o VI Congresso Sionista, durante o qual foi debatida a questão de Uganda como um possível refúgio temporário para os judeus.

Uma parte fundamental da ideologia de Borochov era que as classes trabalhadoras árabes e judias tinham um interesse proletário comum e participariam juntas da luta de classes quando os judeus retornassem à Palestina. Em seu último discurso gravado, ele disse:

“Muitos apontam os obstáculos que encontramos em nosso trabalho de colonização. Alguns dizem que a lei turca dificulta nosso trabalho, outros argumentam que a Palestina é insignificantemente pequena, e ainda outros nos acusam do odioso crime de desejar oprimir e expulsar os árabes da Palestina .

Quando as terras devastadas são preparadas para a colonização, quando a técnica moderna é introduzida e quando os outros obstáculos são removidos, haverá terra suficiente para acomodar tanto os judeus quanto os árabes. As relações normais entre os judeus e os árabes prevalecerão e deverão prevalecer”.

Assim nasceu o Sionismo Socialista e esta foi a sua pedra angular.

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