Só a democracia nos salvará

Chegamos ao ponto que é denominado na Teoria dos Jogos de lose-lose situation. Um cenário em que ninguém será capaz de ganhar nada. Ao contrário, todos perderão, à exceção dos novos Berlusconis que surgiriam da nossa Mani Pulite. O Brasil perderá. Nossa única salvação está na defesa intransigente da Democracia, do Estado Democrático de Direito, dos direitos e garantias individuais e, sobretudo, da tolerância

Neste último domingo, aconteceu o que os partidos de oposição mais temiam. O movimento golpista e neoudenista que eles insuflaram contra o governo, o PT e a esquerda em geral saiu completamente de seu controle e ameaça engoli-los também.

Na numerosa manifestação das classes médias tradicionais brancas, sua base social e política, Aécio, Alckmin e outros figurões do PSDB foram escorraçados aos gritos de "corruptos". Figuras do PMDB, como Martha Suplicy, foram obrigadas a buscar refúgio em prédios da FIESP. Dá para imaginar o que teria acontecido também com Serra, Temer e Renan Calheiros, irmanados na estratégia do semipresidencialismo, caso tivessem comparecido. O próprio Eduardo Cunha, herói das manifestações de 2015, agora é também vilipendiado pelos seus antigos adoradores.

O fato concreto é que abriu-se, em definitivo, a caixa de Pandora do protofascismo brasileiro. Nas ruas, o que se vê é um bestiário inacreditável. Gente pedindo intervenção militar, gente apoiando a pena de morte, gente condenando a inclusão social, gente condenando a presença dos pobres na política, gente abertamente homofóbica, gente descaradamente racista e, sobretudo, gente contra "a política e os políticos". Até mesmo o Supremo passou a ser condenado

Está se gestando, a olhos vistos, o que se vayan todos brasileiro.

Com efeito, a crise política permanente cevada pelo golpismo irresponsável paralisa ao país e aguça a crise econômica. Impede, na realidade, a recuperação do país. Isso cria o cenário ideal para uma crise institucional generalizada, do mesmo tipo da ocorrida na Argentina, em 2002, ou na Alemanha, na década de 1920.

Está dado o quadro para a condenação de todo o sistema político e a emergência de aventureiros bonapartistas da direita mais autoritária e reacionária.

Os heróis políticos agora são os Bolsonaros da vida, os representantes de uma extrema direita abertamente intolerante, fascista e ditatorial. Os mitos são figuras como o Juiz Moro, com sua cruzada neoudenista e seletiva contra os "políticos corruptos". Os grandes teóricos são patéticos anões intelectuais, que se inspiram em figuras menores como Mises, e até mesmo nos Power Rangers.

O problema é que, uma vez que se abre a caixa de Pandora, é difícil fechá-la de novo, especialmente quando há uma mídia historicamente antidemocrática que, por oportunismo político e interesses menores, que envolvem vasta sonegação de dinheiro público, continua a apostar na desestabilização e no golpe.

É também difícil fechar a caixa de Pandora desse horror fascistoide quando setores partidarizados das instituições de controle e do próprio judiciário manifestam claro desprezo pelos direitos e garantias fundamentais e pela democracia que deveriam defender.

Sobretudo, é impossível fechar essa caixa de Pandora com uma oposição irresponsável que continua a apostar no golpe e "no quanto pior melhor".

Cevar raiva e ódio é sempre algo parvo e beócio. Numa democracia, não se procura "sangrar", "matar" ou "destruir" adversários políticos. Freud, na Psicologia das Massas e Análise do Ego, escrito após a Primeira Guerra Mundial e já na iminência do surgimento do nazismo, chamava a atenção para o perigo que civilização corria quando os indivíduos transferiam seu Super Ego a líderes messiânicos e inescrupulosos. As massas se tornam uma espécie de animal selvagem capaz de tudo, capaz de tudo varrer. Como aconteceu pouco depois na Alemanha, tudo foi varrido. Não apenas os comunistas e os judeus, mas todas as forças políticas e as instituições democráticas.

Partidarizar a imprescindível luta contra corrupção é ainda mais perigoso. Afinal, se essa luta fosse mesmo levada a sério, Dilma Rousseff seria uma das poucas figuras que sobreviveriam. Enganam-se aqueles que acham que o simples afastamento da presidenta aplacaria o ódio contra a política dos "apolíticos". Na realidade, isso só criaria uma fratura ainda maior na sociedade brasileira, que dificilmente seria superada. A instabilidade se agravaria.

Chegamos ao ponto que é denominado na Teoria dos Jogos de lose-lose situation. Um cenário em que ninguém será capaz de ganhar nada. Ao contrário, todos perderão, à exceção dos novos Berlusconis que surgiriam da nossa Mani Pulite. O Brasil perderá.

Nossa única salvação está na defesa intransigente da Democracia, do Estado Democrático de Direito, dos direitos e garantias individuais e, sobretudo, da tolerância.

O Brasil está precisando mesmo é de uma Operação Paideia, uma defesa dos valores da civilização racional, iluminista e democrática. Só ela poderá fechar essa horrorosa e perigosa caixa de Pandora que se abriu contra todos nós.

Só a democracia poderá nos salvar.

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