Sobre o inaceitável

Diante de uma ofensiva tão violenta e de um recuo de tais proporções, na qualidade da vida do povo brasileiro, as forças democráticas da nação são chamadas a definir suas prioridades no campo de batalha

O ex-presidente Lula chega em sua residência em São Bernardo do Campos
O ex-presidente Lula chega em sua residência em São Bernardo do Campos (Foto: Décio Lima)

Diferente do que costumamos pensar, e mesmo desejar, a história não caminha em linha reta. O sentido unidirecional do tempo, sempre para a frente, e a evolução progressiva de nossa tecnologia, entre outras coisas, criam uma espécie de vertigem que pode nos levar a acreditar que a humanidade e sua história estão sempre progredindo na direção de um futuro melhor. Um olhar mais atento sobre os fatos mostra que, não necessariamente. A história é a experiência de mulheres e homens no tempo, e seus avanços e recuos, na direção de um mundo melhor, são determinados pelo que fizeram as gerações passadas, e sobretudo pelo que fazemos hoje. O futuro está aberto, quase tudo é possível nele e nada está garantido previamente. Sendo assim não é incomum, e várias experiências concretas comprovam isso, que uma sociedade goze, em determinado momento histórico, de um alto grau de bem-estar e em fases posteriores sofra, por conta de suas decisões e/ou pela pressão de fatores externos, recuos civilizacionais severos, submergindo, inclusive, na miséria e na violência.

Algo semelhante ocorre no Brasil hoje. Uma sociedade que progrediu fortemente na construção do bem-estar social, durante quase uma década e meia, agora avança com passos largos na direção da barbárie. A ofensiva conservadora, protagonista deste recuo, é movida pela ambição mais ordinária e por um profundo desejo de vingança contra os pobres e suas conquistas. Sem pudores anuncia que é preciso diminuir a quantidade e a qualidade da civilização no Brasil. Coerentes com tal proposta colocam em prática um conjunto de ações que está desintegrando, numa velocidade alucinante, os marcos civilizatórios duramente conquistados pelo povo brasileiro no último século. O resultado concreto é que a economia brasileira caminha para a ruína e contigentes enormes de brasileiros já submergem novamente na miséria enquanto outros empobrecem aceleradamente. Ao mesmo tempo os instrumentos legais e estruturas públicas de que poderiam se socorrer tais setores são desmontados, lançando no desamparo total e para as margens da civilização uma multidão crescente de pessoas.

Diante de uma ofensiva tão violenta e de um recuo de tais proporções, na qualidade da vida do povo brasileiro, as forças democráticas da nação são chamadas a definir suas prioridades no campo de batalha. Se no passado recente nossa tarefa foi a de contribuir nos avanços sociais e econômicos do Brasil, o que resultou em novos marcos civilizatórios, agora somos responsáveis por defender tais conquistas do saque realizado pelo bloco golpista. Obviamente nossa primeira responsabilidade é com o reestabelecimento da ordem democrática e do Estado de Direito, sequestrados pelo governo ilegítimo e seus aliados. Cabe-nos também o duro combate, que estamos travando, contra o desmonte da previdência e dos direitos trabalhistas. Isso não basta. Se obtivermos a manutenção de direitos trabalhistas e previdenciários mas não conseguirmos proteger parte do legado dos governos Lula e Dilma a sociedade brasileira ainda sofrerá um recuo brutal de suas condições de existência.

Os governos populares, sobretudo os de Lula, construíram o que podemos chamar de um legado. Um conjunto de realizações e progressos estruturais que representam, sem sombra de dúvida, avanços preciosos na construção de um país melhor. Entre eles destaco, o fim da fome, a quintuplicação do PIB brasileiro e o conjunto de políticas que permitiram a ascensão social da maior parte da nação. Estes são, de meu ponto de vista, marcos civilizatórios inegociáveis e que devemos defender de todas as formas e a qualquer custo. Se a história não é determinada pelo progresso ininterrupto, alguns recuos, em determinados momentos, serão inevitáveis, mas se também é verdade que o futuro está sendo feito agora, nos cabe definir quais recuos são, para nós, inaceitáveis.

Não podemos aceitar que a mancha da fome volte a envergonhar o Brasil, tiramos quase quarenta milhões de pessoas da miséria, que todos tenham o direito de comer é o mínimo, não devemos permitir que este se torne novamente um país de miseráveis. Não podemos aceitar que de potência mundial o Brasil volte a ser uma colônia de agiotas, fizemos deste um país forte econômica e politicamente, estabelecendo condições materiais para um enriquecimento geral da sociedade e assegurando melhores condições para as gerações que virão. Findar isso, como desejam golpistas, drenando os recursos da nação para o capital estrangeiro e algumas centenas de cleptocratas está fora de questão. E, finalmente, de forma alguma podemos aceitar que as oportunidades de mobilidade social, que permitiram que dezenas de milhões de brasileiros melhorassem de vida, estudassem e sonhassem com um futuro melhor, sejam fechadas e revertidas, impedindo qualquer avanço para os de baixo e os condenando a piora progressiva e ininterrupta das condições da existência.

Esse é o legado que defendem os que hora lutam nas trincheiras da democracia e da justiça social, se formos derrotados o Brasil sofrerá uma tragédia civilizacional da qual levará, temo, meio século para se recuperar. Se pelo contrário, triunfarmos mesmo diante da cavalgada reacionária em curso, garantiremos que ao fim destes dias tão sombrios tenhamos as condições mínimas para continuar avançando na direção da justiça, da liberdade e da civilização.

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