Sobre o tempo

O que vemos em curso no Brasil é, em grande parte, um movimento que artificializa o Tempo de acordo com seus interesses e projetos, exaurindo dos resistentes e indômitos a sua vitalidade - seja pela inércia, seja pela profusão, seja pela pressão

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A reflexão sobre o Tempo é uma constante humana. Nos preocupamos tanto com ele que criamos medidas e marcas e registros e interpretações. Desde sempre. Da Religião à Filosofia, da História à Física, da Arte à Biologia, somos obcecados pelo Tempo. É uma necessidade vital tê-lo em conta, usufruí-lo, manipulá-lo, dominá-lo, subjugá-lo, pois é a última fronteira da Natureza a ser vencida.

Mas deixemos de lado as divagações e devaneios e nos ocupemos o Tempo com um outro debate, mais prosaico e cotidiano. O uso do Tempo em favor do "desaparecimento" das chagas, mazelas e tragédias. A memória de curto-prazo parece arruinada ou avariada pela sucessão de fatos e notícias e processos que formam um turbilhão de informações e dados impossíveis de serem assimilados e computados com coerência e coesão.

A chamada "dimensão social do Tempo" só se alarga, complexifica, desconstrói e volatiza as realidades, outrora tão concretas e objetivas, hoje carregadas de simbologias, narrativas e subjetividades.

O curiosamente trágico é dar uso ao Tempo de modo a deformá-lo: em lugar de registro e memória, silêncio e esquecimento. Basta ver as questões reais que confrontamos na vida social. Basta "dar tempo ao Tempo" para que situações escandalosas, dramáticas, repulsivas, injustas, cruéis, criminais, nefastas, pusilânimes, corruptas, lenta, gradual e sutilmente sejam decompostas até que não se sobre nenhum resquício e tudo se naturalize.

Vejamos a pandemia. Dado o lapso de Tempo suficiente, já não provoca maiores indignações, foi absorvida pela maioria das pessoas como um dado frio, desimportante e corriqueiro. A crise do trabalho e dos salários, idem. O desemprego e a superexploração ganharam ares de normalidade e aceitação, conforme o Tempo sedimentava novas percepções e convicções de inevitabilidade.

Ter controle do Tempo, com cálculo e inescrupulosa paciência, é fator de êxito ou fracasso na luta política que redefine a mentalidade e o comportamento de uma geração societária por inteiro. Aguentar o tranco das primeiras reações com firmeza e desfaçatez parece ser fórmula perfeita para transitar a um outro padrão. Esgotadas as insubordinações iniciais, aplacados os rompantes furiosos, logo se tem uma calmaria e na sequência se estabelecem os propósitos dos donos do poder. O Tempo é matéria-prima e fator de produção na constituição de valores, princípios e práticas e para a reorganização do metabolismo social sob as condições do neoliberalismo, da revolução tecnológica, do extremismo político e da primazia do individualismo.

Graças ao Tempo - enquadrado sob ditames e métodos sofisticados e tratado com técnicas e programas modernos - a concepção e ideologia da burguesia e do capital consegue se reinventar, se metamorfosear, se propagar como dominação, exploração, opressão e exclusão, pois nós, humanos de tipo comum, não conseguimos perceber ou resistir na exata equivalência dada a relação assimétrica de forças, instrumentos e legitimidades.

O que vemos em curso no Brasil é, em grande parte, um movimento que artificializa o Tempo de acordo com seus interesses e projetos, exaurindo dos resistentes e indômitos a sua vitalidade - seja pela inércia, seja pela profusão, seja pela pressão. Revisita e distorce  o Tempo Histórico, acelera e intensifica o Tempo Social, tortura e corrompe o Tempo Cronológico, enfim, define e determina uma dinâmica temporal que serve e funciona para usurpar do Homem um dos seus elementos constituintes fundamentais: o Tempo - de criar, de mudar, de ser.

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